Estive a Ler: A Lança do Deserto, Ciclo dos Demónios #2


O príncipe nuclita silvou ao ouvir o escolhido rejeitar a questão. A lógica ditava que os matasse aos dois, mas não era urgente. O número de guardas em volta do seu abrigo sugeria que não partiriam tão cedo. Podia observá-los por mais alguns ciclos.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO “A LANÇA DO DESERTO”, SEGUNDO VOLUME DA SÉRIE CICLO DOS DEMÓNIOS

Publicado originalmente em março de 2010 pela Harper Collins, A Lança do Deserto é o segundo livro do autor americano Peter V. Brett, cimentando o início auspicioso que este revelara em O Homem Pintado, volume inaugural da série Ciclo dos Demónios. A história segue o trajeto épico de Arlen Fardos, Leesha Papel e Rojer Meia-Mão, três heróis improváveis num mundo definhado pelos medos que a noite desperta.

Autor de várias histórias curtas e publicações passadas no mesmo mundo, Peter V. Brett vive em Manhattan com a esposa Lauren e as duas filhas, Cassandra e Sirena. A edição portuguesa da Coleção 1001 Mundos da Gailivro foi lançada em julho de 2010, poucos meses após o lançamento oficial, num total de 744 páginas e tradução de Renato Carreira.

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Fonte: https://www.goodreads.com/book/show/6736971-the-desert-spear

Se O Homem Pintado já me havia conquistado (muito embora tivesse torcido o nariz à reta final), A Lança do Deserto veio consolidar a minha opinião em relação ao autor. Peter V. Brett é dono de uma escrita fluída e madura, ao mesmo tempo que consegue construir histórias verosímeis e consistentes, não descurando pormenores e sabendo jogar com as emoções dos leitores, assim como o faz com as suas personagens.

“Leesha conseguiu fazer do Outeiro um dos primeiros povoados com “garras” para fazer frente aos demónios.”

Embora ambos sejam livros com qualidade, senti que o primeiro veio a decrescer com o desenvolvimento das personagens, enquanto neste segundo volume senti precisamente o oposto. Após um início muito bem escrito e interessante, mas completamente deslocado da ação principal e até em alguns momentos aborrecido, a partir do momento em que nos focamos no fio narrativo do anterior volume, o livro veio a crescer em inventividade e desenvolvimento.

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Fonte: https://www.wook.pt/livro/a-lanca-do-deserto-peter-v-brett/8646628

A secção inicial é focada em Ahmann Jardir, o Shar’Dama Ka de Krasia, a cidade conhecida como a Lança do Deserto. Para os mais esquecidos, Jardir é aquele senhor krasiano que traiu Arlen durante a sua estadia no forte, ficando com a lança mística cravejada de guardas (as protecções contra os demónios) que este encontrara numas ruínas antigas em pleno deserto. Guardas que Arlen copiou antes de Jardir o expulsar e condenar à morte na noite desértica de Krasia. Foram mesmo esses conhecimentos que fizeram Arlen tornar-se o Homem Pintado, cujos feitos bélicos contra os demónios fizeram muitos chamá-lo de Libertador, à sua passagem.

Por quase dois quartos do livro conhecemos ao pormenor Jardir, desde a sua infância, à amizade com o mercador Abban e como este se tornou khaffit, um homem menor de acordo com os padrões krasianos, mas também revisitamos a estadia do Par’Chin (Arlen) em Krasia e como Jardir começou a ver-se como o novo Libertador, seguindo os passos de Kaji. Achei bem interessantes todas as passagens que envolveram Jardir, mas confesso que os flashbacks que mostraram a sua infância e desenvolvimento pessoal tornaram o livro algo maçudo, especialmente porque foi apresentado numa fase inicial do mesmo.

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Fonte: https://www.pinterest.co.uk/pin/354025220686352316/

As intrigas palacianas, a sua ascensão e o desafio ao Andrah foram excelentes, acima de tudo pelo emergir de uma das personagens mais incríveis da série até agora: a Dama’ting Inevera, uma das esposas de Jardir. Mais do que uma esposa, é ela quem controla o harém e decide com quem Jardir deve casar. Para além disso, tem capacidades místicas, pois vê o futuro no lançamento de dados e porta um crânio de demónio da chama. Inevera é também responsável por decisões políticas, graças à sua influência em muitos círculos.

“Pessoalmente, prefiro Jardir a Arlen, enquanto personagem.”

Assim que regressamos ao Outeiro do Lenhador, agora chamado de Outeiro do Libertador após a grande batalha em que culminou o primeiro volume, vemos Leesha e Rojer a assumir papéis de liderança, ensinando aos populares as suas técnicas e guarnecendo como podem a povoação. Enquanto Arlen vai e vem, recusando-se a permanecer num sítio só quando há tantas povoações para instruir e convencer a lutar, Leesha conseguiu fazer do Outeiro um dos primeiros povoados com “garras” para fazer frente aos demónios.

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Fonte: https://www.goodreads.com/book/show/6736971-the-desert-spear

O mesmo não pode dizer Rojer. Para além de renegado pela mulher que ama, os seus ensinamentos na arte de enfeitiçar demónios com música não parecem obter êxito. O dom parece estar restrito à sua pessoa, e os fantasmas do passado teimam em bater-lhe à porta. Com Wonda e Gared Lenhador como guarda-costas, Leesha vê o ataque dos krasianos a Forte Rizon como um forte motivo para tentar unir Angiers e Miln na defesa das Cidades Livres, uma vez que o Outeiro não tem capacidade para receber muitos mais refugiados.

É então que uma comitiva parte do povoado, comandada por Arlen, para tentar unir os duques arqui-inimigos, Rhineback e Euchor, contra o inimigo comum. Durante a jornada, Arlen revisita lugares e reencontra pessoas do seu passado, para deixá-lo cada vez com mais dúvidas sobre o seu papel no mundo, mas cada vez mais certo que o seu lugar é na frente de combate contra os demónios.

Aqui reside uma das principais diferenças entre Arlen e Jardir. Enquanto o segundo acredita ser o Libertador reencarnado, que virá trazer a união ao mundo e escorraçar os demónios, Arlen crê que o seu papel é apenas o de levar ao mundo o conhecimento das guardas de combate, mostrar às pessoas que podem viver sem medo, e que não basta esconderem-se atrás de guardas quando a noite chega, é imperial enfrentar os demónios e lutar contra eles.

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Fonte: https://lina0809.deviantart.com/favourites/62366653/Demon-Cycle

Sem dúvida, gostei mais do Arlen deste segundo livro do que aquele que conheci no primeiro. Ainda assim, a personagem de Jardir não lhe fica atrás. Extremamente bem construído, enraizado em ideais profusos da cultura krasiana, Jardir acabou por mostrar uma variância de traços que faz o leitor, por momentos, torcer pelo seu sucesso. Pessoalmente, prefiro Jardir a Arlen, enquanto personagem.

Mas a adição de outros pontos de vista ao livro foi também benéfico ao mesmo. Falo de Jardir e Abban, mas também do pai de Arlen, Jeph Fardos, que foi muito positivo voltar a encontrar, mas sobretudo de Renna Curtidor. O ambiente sufocante de uma pessoa que é vítima do próprio pai foi descrito de forma exímia por Peter V. Brett, e ver focados assuntos dramáticos e bem reais em livros de fantasia é sempre meio caminho andado para me conquistar.

E, como bónus, temos novos demónios. Os demónios da mente e os seus miméticos ainda irão dar muito que falar. A Lança do Deserto é mais um livro a recomendar, porque o Ciclo dos Demónios consegue apresentar um mundo fantástico não muito original, cheio de paralelismos ao nosso e de inversões interessantes, apresentando idiossincrasias, hipocrisias e preconceitos que fazem desta uma história credível, que consegue fugir ao padrão e ganhar uma identidade própria bem agradável.

Avaliação: 7/10

Ciclo dos Demónios (Gailivro / 1001 Mundos):

#1 O Homem Pintado

#2 A Lança do Deserto

#3 A Guerra Diurna

#4 O Trono dos Crânios

#5 O Núcleo

8 comentários em “Estive a Ler: A Lança do Deserto, Ciclo dos Demónios #2

  1. Viva,

    Tenho pena que não te tenha enchido as medidas, gosto muito e vai melhorando de livro para livro é só o que posso dizer 🙂

    Abraço e boas leituras

    1. Viva.
      Gostei bastante, a meu ver a nível de Joe Abercrombie, mas não tão bom como Lynch, Hobb, Martin, Erikson e Rothfuss.
      Vou ler o terceiro em breve. Abraço.

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