Estive a Ler: A Guerra Diurna, Ciclo dos Demónios #3


Até as plantas podiam guardar segredos.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO “A GUERRA DIURNA”, TERCEIRO VOLUME DA SÉRIE CICLO DOS DEMÓNIOS

Publicado originalmente em fevereiro de 2013, The Daylight War é o terceiro volume da série Ciclo dos Demónios, editada em Portugal pela Coleção 1001 Mundos das Edições ASA / Gailivro, que pertence ao Grupo Leya. Chamado por cá de A Guerra Diurna, o livro foi publicado pouco depois do lançamento original, continuando as histórias que Brett iniciara com os volumes anteriores, O Homem Pintado e A Lança do Deserto. A versão nacional tem um total de 796 páginas e tradução de Renato Carreira.

Peter V. Brett é reconhecido internacionalmente, não só pelos livros da série Ciclo dos Demónios, cujo último volume, The Core, foi publicado o ano passado, mas também por vários contos passados no mesmo mundo. Escreveu também a novela gráfica Red Sonja: Unchained para a Dynamite Entertainment. Antes de avançarem na leitura, deixo um aviso à navegação: os parágrafos seguintes podem ter revelações e pistas evidentes sobre os dois primeiros livros da série.

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Fonte: http://www.petervbrett.com/2012/12/07/uk-daylight-war-cover-reveal/

A Guerra Diurna traz mais ou menos os mesmos ingredientes que os volumes anteriores. Um ótimo desenvolvimento de personagens e um escrutínio, camada após camada, de figuras com as quais não tínhamos ganhado grande intimidade, para descobrir ali nuances e peculiaridades dignas de verdadeiras laudas. Se A Lança do Deserto nos trouxe o ponto de vista de Jardir e nos levou a conhecer a sua perspectiva, este terceiro volume faz-nos olhar pela visão da sua Jiwah Ka, Inevera.

“Até as personagens mais secundárias como Gared e Wonda vêm, pouco a pouco, a ganhar vida.

Assim como no livro predecessor, achei os pontos de vista destas personagens krasianas interessantíssimos, mas se os flashbacks que elas vivem vêm trazer um novo olhar sobre as mesmas e sobre o enredo presente, fiquei de certo modo entediado em vários momentos. Confesso que aprecio a ideia de panorâmica que Brett trouxe aos seus livros, mas na prática, comigo, não resultou muito bem. É quando a ação se passa no presente que o autor consegue de facto destacar-se.

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Fonte: https://www.fnac.pt/A-Guerra-Diurna-Peter-V-Brett/a720645#

Inevera foi uma das minhas personagens favoritas de A Lança do Deserto, e agora, com os seus pontos de vista, fiquei ainda mais encantado com o misticismo e perseverança desta mulher. A forma como chegou ao poder e como tentou, a qualquer custo, preservá-lo, faz dela uma personagem cheia de carisma que é de certo modo a antítese do khaffit gordo e coxo Abban, o mercador que, também ao seu jeito, tenta influenciar Ahmann Jardir de acordo com os seus interesses.

As personagens krasianas, uma cultura inspirada na Antiga Esparta, no Japão Medieval mas sobretudo no Islamismo do Médio Oriente, vêm ganhando força na trama e os títulos dos livros, só por si, retratam fragmentos dessa cultura e das suas crenças. A ideia do autor foi construir uma civilização aglutinadora, que acredita que só unificando todos os povos através da chamada Guerra Diurna conseguirá a União profetizada pelo seu Criador, capaz de esmagar os demónios da noite.

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Fonte: http://www.petervbrett.com/2013/03/19/how-to-get-a-signed-u-k-daylight-war/

Foi para evitar que o seu povo fosse esmagado que Leesha Papel, a herbanária de Outeiro do Lenhador, que embora jovem revelou-se já uma mãe para o seu povo, decidiu rumar à Fortuna de Everam, como fora apelidado o Forte Rizon após a conquista dos krasianos, para conhecer os seus credos, tradições e costumes. A ideia de Jardir em tomá-la como esposa veio, no entanto, originar uma série de desdobramentos na trama.

“É difícil não gostar de Leesha enquanto personagem e ainda bem, para mim, que está longe de ser uma protagonista tradicional.

Várias personagens cresceram e ganharam ênfase ao longo dos últimos dois livros. Rojer sempre foi uma personagem à parte, que nunca acrescentou muito à narrativa e, no entanto, os seus capítulos sempre foram dos mais gostosos de se ler. A interação com as suas esposas – sim, leram bem! – foi uma das mais interessantes deste livro, com interferência no clima instalado entre os krasianos e os “hortelões”. Até as personagens mais secundárias como Gared e Wonda vêm, pouco a pouco, a ganhar vida.

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Fonte: http://www.petervbrett.com/2017/08/17/unused-covers/

Leesha Papel e Renna Curtidor mostraram-se ser duas protagonistas bem diferentes. Brett fez-nos apaixonar pela Leesha indefesa que aprendeu, face a várias tragédias, a monitorar e manusear os recursos e as pessoas à sua volta. Mas, ao longo dos livros, vem a torná-la também cada vez mais semelhante à sua mãe, Elona, uma mulher hipócrita e manipuladora. É difícil não gostar de Leesha enquanto personagem e ainda bem, para mim, que está longe de ser uma protagonista tradicional.

Já Renna representa um lado mais duro e em simultâneo, meigo. Ela veio humanizar o protagonista, Arlen, e ao mesmo tempo que passou por situações tão ou mais difíceis que Leesha, reagiu às adversidades de outra forma, sobretudo devido ao modo como o Homem Pintado a resgatou ao mundo que a flagelava. A dependência emocional a Arlen e a forma como ambos estão ligados à dimensão sobrenatural dos demónios torna vívida e consistente a relação do casal.

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Fonte: http://www.unboundworlds.com/2017/06/dirt-cheap-ebooks-warded-man-peter-v-brett/

No outro pólo da barricada, encontram-se os dois Libertadores. Tanto o Cânone como o Evejah não deixam dúvidas de que só há espaço para um Libertador, por isso, mais cedo ou mais tarde, o confronto entre Arlen e Jardir teria de ocorrer. Arlen é o Homem Pintado, aquele que inspirou povos e incitou os mais vulgares camponeses a enfrentar os demónios da noite. Jardir, por sua vez, é o autoproclamado Libertador, aquele que está destinado a erguer a Lança de Kaji e a escorraçar de uma vez para sempre os demónios para as profundezas do Núcleo.

“(Peter V. Brett) Deixa-nos, por assim dizer, a babar pelo volume seguinte.

No cômputo geral, este terceiro livro não avançou muito na narrativa. Tivemos vários regressos e reencontros no Outeiro, assim como uma grande batalha, mas não aconteceu realmente uma evolução espaço-tempo significativa. Perdeu por começar com força na história de Inevera, alternando-a com o estado presente de outros personagens, para deixar a Dama’ting de novo no seu papel secundário na segunda parte do livro.

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Fonte: https://www.barnesandnoble.com/blog/sci-fi-fantasy/5-reasons-binge-read-demon-cycle/

Independentemente das opções do autor, foi um livro bastante coeso e bem amarrado, com os acontecimentos no Outeiro a satisfazerem-me bastante. A evolução geográfica da localidade, os planos do duque Rhinebeck de Angiers e do seu filho, o conde Thamos e a forma como eles estão interligados à individualidade das personagens principais foi extremamente bem desenvolvida pelo autor.

Autor este que, para além de nos oferecer alguns momentos de cortar a respiração no último capítulo do livro, deixa-nos com um cliffhanger enorme. Deixa-nos, por assim dizer, a babar pelo volume seguinte. Pessoalmente, é a maturidade literária de Peter V. Brett, a forma como ele trabalha personagens e lhes dá credibilidade, a grande mais-valia desta série que vou, sem dúvida, continuar a seguir.

Avaliação: 7/10

Ciclo dos Demónios (ASA / 1001 Mundos):

#1 O Homem Pintado

#2 A Lança do Deserto

#3 A Guerra Diurna

#4 O Trono dos Crânios

#5 O Núcleo

10 comentários em “Estive a Ler: A Guerra Diurna, Ciclo dos Demónios #3

  1. Viva,

    Sabia que ias gostar, grande serie e que vai melhorando de livro para livro…o que ai vem deve ser algo em grande, está tudo preparado para isso 🙂

    Parabens pelo comentário excelente como habitual

    Abraço e boas leituras

    PS: Há alguma previsão para a publicação do seguinte ?

    1. Viva. Obrigado pelo comentário. Para mim eles estão todos ao mesmo nível. Tinha ideia que o 4.o volume já tinha saído por cá 😱
      Muito obrigado pelo comentário. Grande abraço.

      1. Ai tens razão é um que tem umas caveiras na capa, já o li rsrsrs

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