Estive a Ler: O Fiel Jardineiro


Isto, mais outra segunda-feira de merda em fins de janeiro, a época mais quente do ano em Nairobi, época de poeira, de cortes de água, erva queimada, olhos a arder e o calor a rebentar o pavimento das ruas…

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO O FIEL JARDINEIRO

Quando se evocam nomes ligados à literatura de espionagem, aquele que se agiganta entre os demais é o do britânico John le Carré. Autor de diversos thrillers que se transformaram em êxitos, não só literários como cinematográficos, como são exemplo O Alfaiate do Panamá, O Espião que Saiu do Frio ou A Casa da Rússia, le Carré traçou um percurso seguríssimo dentro do género, influenciando inúmeros escritores que despontaram nas últimas gerações.

Com 414 páginas, a edição de 2001 de O Fiel Jardineiro foi publicada em Portugal pela Edições D. Quixote. Ainda que não seja um dos seus livros mais emblemáticos, ou daqueles em que tão bem se usou da sua experiência nos Serviços Secretos britânicos, o livro mostra John le Carré em grande forma, abordando a problemática dos interesses corporativos e os meios que as grandes indústrias usam para camuflar os seus podres.

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Fonte: http://www.amctv.com.br/blog/the-night-manager-a-carta-de-john-le-carre-aos-fas

Vi a adaptação cinematográfica com Ralph Fiennes e Rachel Weisz, talvez há cerca de dez anos, pelo que vários pormenores do enredo me estavam distantes e fiquei mesmo com a ideia de que a adaptação de Fernando Meirelles ao grande ecrã tenha conhecido algumas diferenças do livro. Talvez por o filme não estar tão presente na minha cabeça, fui surpreendido agradavelmente pela obra, ainda que não tenha conseguido destrinçar mentalmente as personagens Justin e Tessa Quayle das figuras de Fiennes e Weisz, atores que parecem assentar como uma luva nas criações de le Carré.

“As parangonas dos jornais apontam para um crime passional ou ato desesperado

Ora, apesar de não ler nada do autor há três anos, é uma das minhas maiores referências fora do âmbito do fantástico. Muito mais do que pelos enredos, acima de tudo pela forma fria e crua como escreve. A maturidade literária conquista-se com a experiência, e eu dou por mim a ler John le Carré só para absorver um pouquinho dessa bagagem.

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Fonte: http://www.dquixote.pt/pt/literatura/romance-traduzido/o-fiel-jardineiro/?cat=0

Mas a trama de O Fiel Jardineiro é a sua verdadeira pedra de toque. Rica em detalhes e absurdamente credível, quando gabinetes, organizações e até mesmo fármacos nasceram somente da cabeça do escritor, ela oferece-nos uma leitura em camadas, levando-nos por caminhos difusos e confundindo-nos sobre a conduta do próprio narrador em terceira pessoa. Através dos mais variados pontos de vista, conhecemos uma história que em alguns momentos parece não ser muito difícil de desmontar, mas que nos reserva uma dissonância de paralelismos e detalhes que roçam o inquietante.

Justin Quayle é o fiel jardineiro que intitula a obra. Ele é um diplomata britânico destacado em Nairobi, no Quénia, que nos tempos livres se ocupa de cuidar das suas plantas. É casado com Tessa, uma mulher mais nova e muito mais enérgica, ligada afincadamente a causas humanitárias. Filha de uma condessa italiana mas com educação britânica, Tessa é companhia frequente do Dr. Arnold Bluhm, um médico negro, alto e bonito, que partilha com ela o amor pelo humanitarismo e com quem é visto assiduamente junto da população queniana, principalmente dos mais desfavorecidos.

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Fonte: http://flickminute.com/constant-gardener-2005/

Absorvido no trabalho na Embaixada, Justin parece dedicar uma confiança cega à mulher, de modo que não questiona nem os seus assuntos privados nem as incontáveis viagens que faz, acompanhada pelo sempre acessível Dr. Bluhm. Parece até surdo para com os rumores cada vez mais incisivos da comunidade, certa que está de que o médico e Tessa são amantes, com uma estranha conivência por parte do marido.

“Um enredo diferente, pertinente e atual, sem deixar de ser surpreendente e original.

Estes mexericos ganham volume quando, durante uma viagem para participarem num seminário, o automóvel onde viajavam é encontrado nas margens do lago Turkana. O motorista fora decapitado. A Tessa, a garganta fora aberta de um lado ao outro. O Dr. Arnold Bluhm, encontra-se desaparecido. As parangonas dos jornais apontam para um crime passional ou ato desesperado, sempre com o médico como principal suspeito.

Mas Justin, o bom Justin, o fiel e dedicado Justin, é obrigado a acordar para as atividades sub-reptícias da esposa falecida, e convicto de que Arnold foi um bode expiatório para o crime, é convidado a tocar no ninho de Abelhas, o mesmo que Tessa sacudiu, causando com efeito os terríveis acontecimentos no lago Turkana. A sua morte.

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Fonte: http://www.sky.com/tv/movie/the-constant-gardener-2005

O outro protagonista da história é Alexander “Sandy” Woodrow. Membro proeminente da Embaixada Britânica em Nairobi, Sandy é um grande amigo do casal e é a ele que cabe a tarefa de comunicar a Justin a morte de Tessa. Casado com Gloria e pai de filhos, Sandy é uma figura cheia de nuances, ambições e sentimentos contraditórios, cujos conhecimentos e comportamentos serão a chave dos acontecimentos antes e após o início da ação do livro.

A trama está repleta de personagens riquíssimas e dúbias. Ghita Pearson, Tim Donohue, Markus Lorbeer, Porter Coleridge, Bernard Pellegrin, Kenny K. Curtiss, Lara Enrich, Elena, Arthur Hammond, Crick, entre muitos outros. Os problemas sociais escrutinados pelo autor, como a SIDA ou a tuberculose, foram extremamente bem retratados, assim como o papel de cobaia que as populações pobres desempenham, talvez de uma forma não tão literal como no livro, mas como efetivamente acontece na realidade, onde elas são vistas pelos grupos capitalistas como o refugo da Humanidade.

O Fiel Jardineiro não é o meu livro preferido do autor, mas adorei. A pegada é bem tensa, com sombras por todo o lado, uma dificuldade séria em saber em quem confiar. Gostei mais do livro do que havia gostado do filme, e o final para mim fez bem mais sentido. Um enredo diferente, pertinente e atual, sem deixar de ser surpreendente e original.

Avaliação: 9/10

6 comentários em “Estive a Ler: O Fiel Jardineiro

  1. Também já li, tem um enredo muito bem conseguido e envolvente.

    1. Achei o mesmo escreversonhar.
      Obrigado pelo comentário.
      Boas leituras 🙂

  2. Oie,

    Tenho por ler tal como muitos outros, ainda me lembro de o ter comprado a um euro numa coleção da Revista Sábado, um escritor que gosto pois já li um livro dele.

    Fico contente que seja uma grande leitura e acredito que permita variar um pouco 🙂

    Abraço

    1. É verdade, sabe sempre bem ir mudando de ares e le Carré é escolha pela certa, uma das minhas maiores referências literárias.
      Abraço e boas leituras

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