Estive a Ler: Antes do Dilúvio, Os Malditos #1


Ouvi dizer que apareceste a querer comprar fogo. Disseste que tinhas boas pedras para trocar. Mas as pessoas não gostaram do teu aspecto. Dizem que se assustaram…

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O ÁLBUM “ANTES DO DILÚVIO”, PRIMEIRO VOLUME DA SÉRIE OS MALDITOS

A G Floy Studio continua a apostar forte e em cheio nos lançamentos deste primeiro trimestre. The Goddamned vem juntar o nome de Jason Aaron e r.m. Guéra após o êxito de Scalped, a grande série da Vertigo que os dois produziram ao longo de vários anos. Em português, a série chama-se Os Malditos e promete tornar-se num dos grandes clássicos da BD atual, cujo segundo volume, As Noivas Virgens, está previsto para 2019.

Vencedor do Prémio Eisner pela série Southern Bastards, Aaron é também conhecido pelas reinvenções de Thor e de Star Wars para a Marvel, enquanto r.m. Guéra, que esteve no último Coimbra BD, onde o livro foi lançado, é um ilustrador sérvio, Rajko Milosevic de nascimento, a viver em Espanha. Antes do Dilúvio conta ainda com Giulia Brusco nas cores e inclui os primeiros cinco números da publicação original.

Fonte: G Floy

De Jason Aaron não há como não esperar o melhor. Sou fã da série Southern Bastards e foi com as expectativas em cima que parti para este The Goddamned, altamente recomendado lá fora. O álbum teve os seus altos e baixos, mas não me deslumbrou no seu todo. O argumento é coeso, simples e credível, apesar de toda a fantasia que o circunda. A aura faz lembrar o mundo do cimério Conan, até pelo carácter lacónico do protagonista.

“O final sangrento e um tanto ou quanto inesperado foi, para mim, o melhor momento do álbum e contribuiu para me deixar uma boa impressão do mesmo.”

Por outro lado, a arte de r.m. Guéra revela um traço peculiar, bem trabalhado, que começou por não me conquistar mas que acabou por me fazer render às evidências. O trabalho do ilustrador casou muito bem com o clima bárbaro e violento que enleva a obra, delineando um padrão sólido e convincente. A brutalidade do álbum não tem grande suporte a nível de argumento, conquistando sobretudo pelas cenas de combate e pela crueldade dos autores.

Sem Título
Fonte: G Floy

A narrativa apresenta a personagem bíblica Caim como protagonista, destinado a viver para a eternidade como castigo divino por ter assassinado o irmão, Abel. Caim envolve-se em todo o tipo de despiques, para testar a sua maldição e esperar que alguém o consiga matar. Ele está farto de viver e deseja a morte como algo inalcançável. Desesperado, Caim procura encontrar um gigante, o único ser capaz de fazer cumprir o seu desejo.

“Ainda assim, funciona bem como um título auto-conclusivo, chocante a nível visual sem deixar de ser, à sua maneira, poético.

O álbum coloca o inventor do homicídio face a face com Noé, numa contenda pré-diluviana como nunca antes se viu numa banda-desenhada. Moralidade, religiosidade e violência caminham de braço dado num mundo habitado por monstros pré-históricos e salteadores da Idade da Pedra, onde a destruição e o assassínio são cores numa tela de caos e sacrifício.

O filho de Adão e Eva envolve-se então com um grupo de selvagens, dividido entre a sua ânsia íntima pela morte e a vontade de quebrar cada osso aos cruéis membros da composição tribal. Ele encontra por fim o gigante e regozija-se com isso, mas quando a morte parece estar próxima, começa realmente a perguntar-se se é aquilo que realmente deseja. O advento de uma mulher e a sua busca desesperada pelo filho conduzem-no por caminhos transversais.

Fonte: G Floy

Em termos de linha narrativa, o álbum não trouxe nada de empolgante, muito sinceramente, mas valeu pelo sangue-frio e pelo visceral. Aaron volta a mostrar ser um autor sanguinário e sem medo de traumatizar os leitores mais susceptíveis. O final sangrento e um tanto ou quanto inesperado foi, para mim, o melhor momento do álbum e contribuiu para me deixar uma boa impressão do mesmo.

Antes do Dilúvio apresenta um Caim com problemas internos e externos a resolver, um assassino com consciência, mas não mostrou muito do carácter do personagem nem exibiu uma complexidade narrativa sustentável para uma série mais longa. Ainda assim, funciona bem como um título auto-conclusivo, chocante a nível visual sem deixar de ser, à sua maneira, poético. Veremos o que o segundo volume possa trazer de novo.

Avaliação: 7/10

Os Malditos (G Floy Studio Portugal):

#1 Antes do Dilúvio

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