Estive a Ler: A Canção da Espada, As Crónicas Saxónicas #4


E enquanto houver um reino nesta ilha varrida pelo vento, haverá guerra.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO “A CANÇÃO DA ESPADA”, QUARTO VOLUME DA SÉRIE AS CRÓNICAS SAXÓNICAS

As saudades de ler Bernard Cornwell já apertavam e A Canção da Espada veio na altura certa. Trata-se do quarto volume da série As Crónicas Saxónicas, publicada em Portugal pela Saída de Emergência. Falo de uma saga de ficção histórica que relata os feitos de um conquistador fictício chamado Uthred de Bebbanburg nos anos difíceis do século IX, em que o rei Alfredo tentou defender as terras saxãs do avanço mortífero dos dinamarqueses.

A série foi adaptada para a televisão com o título The Last Kingdom, à qual se devem as imagens reproduzidas nas capas e o material promocional desta nova edição nacional. Com um total de 320 páginas e tradução de Paulo Alexandre Moreira, A Canção da Espada chegou às livrarias portuguesas para voltar a encantar os fãs de Bernard Cornwell e da história destes vikings.

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Fonte: https://imgur.com/gallery/x193J

Este quarto volume é uma lufada de ar fresco. Enquanto os livros anteriores colocavam o protagonista em batalhas duradouras que obrigavam a planos de cerco ou de resistência elaborados, arcos de história com um princípio, meio e fim, neste livro cheguei ao final a achar que a verdadeira batalha ainda estava para começar e isso não foi, de todo, um problema. Os momentos de alívio cómico são muitos e bons e a bagagem literária do autor revela-se profícua ao ponto de nos deleitar com meras conversas de corredor.

“Uthred regressa para servir de instrumento a um rei que nunca amou…”

Não significa isto que não encontramos cenas de batalha memoráveis e estratégias militares bem afinadas em A Canção da Espada. Elas estão lá, mas acontecem de uma forma mais ágil, menos duradoura ou dramática, por assim dizer, mas continuam épicas. Cornwell narra com desenvoltura e de uma forma realista um período da vida de Uthred, mas deixa que outras personagens, principalmente as femininas, também se destaquem.

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Fonte: http://www.saidadeemergencia.com/produto/a-cancao-da-espada/

Falo de Æthelflaed e Gisela. A filha de Alfredo cresceu e, aos 14 anos, foi submetida ao casamento com Æthelred, o primo de Uthred de quem este nunca gostou. Apesar do crescimento, Æthelflaed continua uma menina travessa e essa rebeldia é vista como ultraje e impertinência pelo novo marido, o que lhe trará alguns dissabores. Já a esposa de Uthred revela-se uma mãe dedicada e um suporte de afecto e bom-senso, capaz de ser para ele o que Mildrith, a primeira mulher, nunca foi.

Para saborear As Crónicas Saxónicas, é necessário sobretudo não estar demasiado ligado aos factos históricos, porque Cornwell toma várias liberdades a esse respeito e fá-lo com genialidade, mas também não estar agarrado ao principal propósito do protagonista: conquistar Bebbanburg, a terra que o viu nascer. Ele há de lá chegar, mas a saga de Uthred é muito mais do que isso. É brincar com as idiossincrasias do mundo, é ver o teatro das Nornes a desenrolar-se, e rirmo-nos com elas.

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Fonte: https://caiomm.deviantart.com/art/Uhtred-of-Bebbanburg-305512275

Mais uma vez, Uthred encontra-se amarrado aos fios de juramento que o ligam a Alfredo, e cada vez parece mais preso a eles. Como é apanágio do protagonista, ele demonstra afeto pelos conquistadores escandinavos, mas as tecedeiras voltam a colocá-lo do lado do rei saxão, uma e outra vez, contra aqueles de quem sabe gostar. Desta vez, tudo começa com uma promessa que o pode transformar em rei da Mércia. Uma profecia das trevas, saída da boca de um morto.

“Porque nada na vida é uma linha reta, e Bernard Cornwell sabe brincar com isso como ninguém.

Ludibriado pelo ambicioso Haesten, que pretendia uma posição de lorde na East Anglia então governada pelo convertido Guthrum, Uthred contacta com dois irmãos noruegueses, Sigefrid e Erik Thurgilson, que não podiam ser mais diferentes em tamanho e em postura. Eles planeiam usar Uthred para conquistar o Wessex e este sente-se amplamente atraído pela ideia de conquistar para si o que Alfredo nunca lhe ofereceu: um domínio para reinar. Mas os juramentos acabam por falar mais alto e Uthred regressa para servir de instrumento a um rei que nunca amou…

… para o encontrar a oferecer a Mércia, as terras que os noruegueses lhe ofereceram, ao seu primo Æthelred. Não rei em título, porque Alfredo tem uma visão unificadora da Inglaterra sob a sua coroa, mas em tudo o resto, atribuindo-lhe o título de Magistrado da Mércia. As querelas entre Uthred e Æthelred permeiam o livro, com o segundo a ganhar a maioria das vezes o apoio de Alfredo e, em todas as ocasiões, a benção dos sacerdotes.

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Fonte: https://www.pictaram.org/hashtag/bebbanburg

Ainda assim, eles combatem lado a lado na defesa do Wessex, e Uthred revela maturidade e sensatez ao não desafiar abertamente o primo, deixando-o aprender com os erros e a humilhar-se com a própria estupidez. Ao lado de personagens incríveis como os padres Pyrlig, Beocca, Willibald ou os guerreiros do fyrd Steapa, Clapa e Finan, Uthred mostra no campo de batalha quem é e todos os seus comportamentos revelam-se assertivos na defesa do rio Temes, o que belisca o orgulho de Alfredo mas fá-lo manter a sua confiança.

Dizem-me que tudo o que tenho de fazer é arrepender-me, e que assim irei para o Paraíso e viverei para sempre na companhia dos abençoados santos.

Prefiro arder até que os fogos do Inferno se extingam.

A ignorância de personagens como Alfredo, Æthelred ou os sacerdotes mais conservadores da Igreja leva-nos a torcer, em mais do que uma situação, pelos sanguinários conquistadores, mas acabamos por nos deixar levar pela conduta de Uthred, talvez por nos sentirmos mais solidários para com o lado civilizado dos saxões. Porém, ao longo deste livro, perguntei-me se a crueldade presunçosa dos cristãos, respaldada na palavra de Deus, fora realmente mais civilizada que a selvajaria viking.

A Canção da Espada é mais um volume rico em vocabulário, que consegue ser enriquecedor e, ao mesmo tempo, uma leitura simples e rápida. Faz-nos vibrar com cenas de espada e escudo, combates incríveis e intensos, ao mesmo tempo que nos faz refletir sobre o ser humano e as suas incongruências. Porque nada na vida é uma linha reta, e Bernard Cornwell sabe brincar com isso como ninguém.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 9/10

As Crónicas Saxónicas (Saída de Emergência):

#1 O Último Reino

#2 O Cavaleiro da Morte

#3 Os Senhores do Norte

#4 A Canção da Espada

#5 Terra em Chamas

#6 A Morte dos Reis

#7 O Lorde Pagão

#8 O Trono Vazio

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