Resumo Trimestral de Leituras #13


É verdade, já se passaram três meses em 2018 e o NDZ continua no radar das melhores publicações de Ficção Especulativa no nosso país. Janeiro, fevereiro e março trouxeram-me ótimas leituras, continuando ao mesmo ritmo que vinha trazendo o ano anterior. Os meus destaques vão para a série Ciclo dos Demónios de Peter V. Brett, de que li três volumes, enquanto que nas BDs li todos os seis álbuns da série Locke & Key, de Joe Hill e Gabriel Rodriguez. Quanto a séries terminadas, para além da supracitada, terminei a trilogia Área X de Jeff VanderMeer, com o livro Aceitação.

Melhor livro: A Revelação do Bobo (Saga Assassino e o Bobo #2), Robin Hobb

Melhor BD: O Sangue (Monstress #2), Marjorie Liu e Sana Takeda

Pior avaliação: A Espada de Shannara (A Espada de Shannara #1), Terry Brooks

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Comecei 2018 em grande. Passada no shardworld Sel, o mesmo mundo de Elantris, The Emperor’s Soul é uma novella de Brandon Sanderson cheia de pequenas subtilezas bem originais. Shai, a protagonista, é uma ladra perita num tipo de magia chamada Forgery. Ela invade o palácio do Imperador para roubar um artefacto antigo e substituí-lo por uma reprodução idêntica, mas é apanhada e colocada atrás das grades. Muito embora o Império considere a Forgery uma abominação, não vêm outra alternativa para recuperar o seu Imperador, caído em total apatia após a morte da esposa, do que usá-la em seu proveito. Pelas Edições Gailivro, Se Acordar Antes de Morrer é uma coletânea de contos escritos por João Barreiros, na minha opinião o melhor autor de ficção científica nacional. Sentia bastante expectativa para os dois primeiros contos, “Brinca Comigo” e “Disney no Céu entre os Dumbos”, mas para quem já leu bastante do autor, acabei por achar as ideias um tanto repetitivas. No entanto, fui surpreendido por uma mão cheia de contos que achei bem interessantes. Nas suas histórias podemos encontrar um exército fortemente armado com a missão de aniquilar o Pai Natal ou uma série de zombies bastante desagradados por não conseguirem comer um robot.

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Sykes, dos franceses Pierre Dubois e Dimitri Armand, é um western gráfico bem violento e cheio de texturas. Somos apresentados a um marshall, que se une a um irlandês e a um índio para perseguir uma quadrilha de malfeitores, conhecidos pelo saque, homicídio e violação. A perseguição de “Sentence” Sykes aos Clayton é bem cliché no género, mas agradará certamente a todos os fãs. Pessoalmente, adorei o desenho de Armand e gostei de ver um autor de fantástico juvenil como Dubois, a trabalhar numa história com este índice de violência. O Sangue dos Elfos é o terceiro volume da série The Witcher de Andrzej Sapkowski, publicado em Portugal pela Saída de Emergência. Pode-se dizer que é a partir daqui que a história começa, uma vez que os dois primeiros livros, escritos em forma de contos, foram uma prequela e este pode ser visto como um prólogo para a história central. Gostei bastante do livro e achei que subiu de qualidade em relação aos antecessores, mostrando o treino da pequena Ciri e as relações que daqui surgem. A escrita foi uma das maiores qualidades do livro, faltou a meu ver maior harmonia e sensatez nos saltos temporais.

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O primeiro volume da série Locke & Key de Joe Hill e Gabriel Rodriguez, Welcome To Lovecraft apresenta-nos uma família curiosa, os Locke. O pai, um professor, decide envolver os filhos nas tarefas campestres, mas quando um grupo de rufias invade a casa e decide vingar-se do professor e matá-lo, os restantes familiares são obrigados a mudar de vida e a ir viver para a antiga mansão de família, em Lovecraft. Já no segundo volume, Head Games, a história adensa-se. Bode, Tyler e Kinsey, os três filhos do professor assassinado, começam a sentir-se familiarizados com os mistérios da mansão, e nem uma chave mágica que consegue abrir cabeças e mudar memórias é o suficiente para os assombrar. Gostei bastante. Primeiro volume da trilogia Espada de Shannara de Terry Brooks, com o mesmo nome, este livro da Saída de Emergência tem um design lindíssimo e uma edição muito bem cuidada. Pena o conteúdo não lhe fazer justiça. A escrita de Brooks oscila entre um vocabulário rico e uma escrita algo infantil, principalmente nos diálogos. Mas o principal defeito do livro é mesmo a sua enorme semelhança à trilogia O Senhor dos Anéis. Espero que o segundo volume seja bem mais original a esse respeito.

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Publicado pela Coleção 1001 Mundos da Gailivro, o primeiro volume da série Ciclo dos Demónios de Peter V. Brett, O Homem Pintado, foi uma agradável surpresa. Todas as noites, os nuclitas atacam. São demónios que assumem diferentes formas e respeitam uma ordem natural de entreajuda, rivalidade ou estratificação entre eles. Quando a noite cai, erguem-se do Núcleo e materializam-se, correndo atrás de vidas humanas para delas se alimentarem. É aqui que surgem Arlen, Leesha e Rojer, três crianças que, cada um à sua maneira, e cada um a viver numa povoação distinta, é vítima destes demónios e moldam a sua personalidade de acordo com a sua coragem para dizer Basta! A escrita do autor norte-americano é simples, mas revela conhecimento e grande maturidade. Não gostei tanto do último terço, mas é um livro ótimo. Li o segundo volume já em fevereiro, A Lança do Deserto, cuja primeira metade do livro é dedicada a Jardir, uma personagem até então bastante secundária. Jardir acredita ser o Libertador que irá livrar o mundo dos demónios, mas a forma como tenta unir os povos é através da guerra, avançando com as suas tropas do deserto para as chamadas terras verdes. Depois, vemos como os três protagonistas agem na defesa dos seus povos e como lidam com os “fantasmas” do passado. Um livro muito bom e consistente, ao nível do primeiro.

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Li o mais recente álbum da BD Harrow County de Cullen Bunn e Tyler Crook, que tem sido publicada em Portugal pela G Floy Studio. O terceiro, A Encantadora de Serpentes, conta com a participação especial de duas artistas convidadas, Carla Speed McNeil e Hannah Christenson. Este volume distancia-se da história principal, focando-se em histórias paralelas do povo que dá título à série. Apesar de achar interessante o plot de umas serpentes que endoidecem a população ou ver o Rapaz sem Pele à procura de respostas, achei um volume mais fraco que os antecessores. A arte das convidadas foi notavelmente fraca, em comparação com o traço de Crook. Já O Sangue é um livro lindíssimo que consegue combinar de certo modo o melhor das comics americanas ao mangá, imprimindo nas pranchas emoções e subtilezas como poucos o fazem. Segundo volume da BD Monstress de Marjorie Liu e Sana Takeda, publicada pela Saída de Emergência, trata-se de uma história para adultos, que embora apresente gatinhos e crianças fofinhas, traz também palavrões, olhos arrancados e dedos cortados, entre muitas outras coisas. Maika Meio Lobo continua em busca de respostas sobre a obsessão da sua mãe pela Imperatriz-Xamã, enquanto a guerra entre arcânicos e humanos parece longe do fim.

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Se O Assassino do Bobo foi a minha melhor leitura de 2017, A Revelação do Bobo foi a melhor, até agora, do presente ano. Apesar de ter ficado ligeiramente frustrado por a ação não avançar aquilo que eu esperava, o segundo volume da Saga Assassino e o Bobo de Robin Hobb foi uma maré de revelações e de acontecimentos de se ficar com a boca aberta. Com Abelha nas mãos dos Servos, cabe a Fitz assumir as consequências das suas escolhas e corrigir os erros do passado. Uma escrita maravilhosa, mais um livro lindíssimo. Pelas mãos da G Floy chega Luta de Poderes, o primeiro volume da famosa série O Legado de Júpiter, com argumento de Mark Millar e arte de Frank Quitely. Gostei bastante da ideia e da composição; abraçamos um mundo de super-heróis atípico, com uma forte componente de crítica social e política. A história começa em 1932, quando uma expedição liderada por Sheldon Sampson, a sua família e amigos, encontra uma misteriosa ilha no Oceano Atlântico que os transforma a todos em super-heróis. Mas, anos mais tarde, os seus filhos parecem estar mais interessados na frivolidade das suas vidas como celebridades, do que realmente em preocupar-se com o mundo que os rodeia.

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Continuei a leitura da BD Locke & Key, com mais um divertido e bizarro volume da série escrita por Joe Hill e ilustrada por Gabriel Rodriguez. Em Crown of Shadows, abrir cabeças e extrair ou implantar memórias, vaguear como um fantasma, aumentar de tamanho, reparar loiça partida ou controlar as sombras são apenas alguns dos poderes que as chaves da mansão dos Locke providenciam. Mais do que deslindar estes mistérios, este volume vem adensá-los numa profusão de quebra-cabeças e engodos. Descender foi uma das novidades de fevereiro da G Floy. Estrelas de Lata, o primeiro volume, foca-se no Dr. Jin Quon e no pequeno andróide TIM-21, que descobre, dez anos após um conflito que colocou robots contra humanos no planeta Niyrata, que possui sentimentos. A trama começou dispersa, mas o desenvolvimento de vários personagens como a Capitã Telsa, o cão robot Bandit e o dróide mineiro Broca vieram canalizar o álbum para um final implacável que me encheu de expectativas para os álbuns seguintes. O argumento de Jeff Lemire foi crescendo de qualidade, e a arte de Dustin Nguyen, que inicialmente me desagradou, acabou por casar muito bem com a narrativa.

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Quem já é caso sério de sucesso na G Floy Studio é Tony Chu, o Detective Canibal. No oitavo volume, Receitas de Família, a genialidade de John Layman (argumento) e de Rob Guillory (arte) supera-se. Polícias, bandidos, cozinheiros, canibais, frangos psicadélicos e poderes paranormais são uma vez mais o destaque num álbum cheio de extravagâncias alimentares e imagens sensacionais que tanto podem provocar enjoos como gargalhadas. Adorei. Ao nível dos volumes interiores da série Ciclo dos Demónios, A Guerra Diurna veio cimentar a minha opinião sobre o autor Peter V. Brett. O mundo não me entusiasma e o foco em flashbacks trava um pouco a leitura em determinados momentos. Ainda assim, os personagens continuam a ser muito bem desenvolvidos e adorei o cliffhanger final. A escrita do autor revela-se simples, mas madura. Terminei fevereiro com o conto de Robert E. Howard O Colosso Negro. Ele conta como um mago poderoso tenta apoderar-se da cidade de Corajá, seduzindo a irmã do rei, e como ela vê na nomeação de Conan para um posto elevado do seu exército a salvação para os seus maiores pesadelos. Com um início algo confuso, ainda assim apresenta uma escrita deliciosa e um desenvolvimento auspicioso, com cenas de batalha excelentes.

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Comecei março com O Fiel Jardineiro de John le Carré, publicado pelas Edições D. Quixote. Trata-se de uma trama envolvente, contada de vários pontos de vista, que procura encontrar a verdade para um mistério terrível: a morte de uma activista dos Direitos Humanos e de um médico, às margens do lago Turkana, no Quénia. As verdades que o seu esposo encontra são tão inconvenientes como credíveis, bem diferentes daquilo que amigos e Imprensa tentaram passar. Uma obra-prima que parece real mesmo sendo uma história fictícia. Seguiu-se o primeiro volume da série Imperatriz, com argumento de Mark Millar e arte de Stuart Immonen, editado pela G Floy. A história não apresenta grandes inovações, a esposa de um rei tirano quer fugir do marido e com a ajuda do capitão da guarda, pega nos três filhos e foge. O volume narra uma aventura cheia de peripécias, com o grupo a saltar de planeta em planeta graças a um tele-transportador. Com várias nuances a fazerem lembrar Star Wars, uma linguagem bem agradável e um desenho lindíssimo e colorido, é mais uma série a seguir.

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O último volume da trilogia Área X de Jeff Vandermeer chegou às minhas mãos precisamente na altura em que a adaptação do primeiro, Aniquilação, chegou à Netflix. Um dos lançamentos de fevereiro da Saída de Emergência, Aceitação coloca um ponto final numa história densa e cheia de mistérios, contada do ponto de vista de Control, do Pássaro Fantasma, da Diretora e do Faroleiro. As respostas não são concretas, dependendo muito da nossa interpretação dos factos, mas não deixa de ser desconcertante e, independentemente dos gostos, genial. Publicado pela Editorial Presença, Uma Chama Entre as Cinzas foi um sucesso internacional quando saiu, em 2015. Trata-se de um livro Young Adult com vários traços de fantasia adulta. Com inspiração na Roma Antiga e no Médio Oriente, Sabaa Tahir convida-nos a conhecer os Eruditos, um povo escravizado, e os Ilustres, dos quais os Máscaras são o representante de toda a sua crueldade. Quando o irmão é capturado e pede ajuda à Rebelião para o libertar, a jovem Laia é obrigada a conhecer a crueldade de Keris Veturia, mas também o amor do filho desta, Elias. Com menos foco na parte amorosa e uma linha narrativa que não me lembrasse tanto The Hunger Games, este livro estaria facilmente entre os melhores lidos este ano. A escrita da autora é lindíssima e o mundo bem construído.Sem título
Uma das últimas novidades da G Floy Studio, Antes do Dilúvio é o primeiro volume da série Os Malditos, que alia uma dupla já famosa pela série Scalped: Jason Aaron e r. m. Guéra. Com o magnífico trabalho de Giulia Brusco nas cores, o álbum convenceu-me pelo visceral e pelo sujo, mas também pelo grafismo apetecível. Somos convidados a enveredar pela jornada de Caim, castigado por Deus a viver a vida eterna, e no seu percurso encontra personagens como o fanático Noé, mas também propósitos que o levam a olhar para a vida com outros olhos. Não me fascinou, mas o plot-twist final deixou-me pelo menos com a certeza de que vou continuar a série. Quarto volume da série As Crónicas Saxónicas de Bernard Cornwell, publicado em Portugal pela Saída de Emergência, A Canção da Espada traz de novo Uthred de Bebbanburg em busca do reconhecimento sucessivamente negado pelo seu senhor, o rei Alfredo. Desta vez, é um morto que lhe diz que deverá trair Alfredo para tornar-se rei da Mércia, mas um complot organizado por antigos e novos aliados levá-lo-á mais uma vez a lutar pelos saxões. Apaixonante e vibrante, Cornwell continua a não desiludir.Resultado de imagem para keys to the kingdom locke and key
Para terminar o trimestre, li os três últimos volumes da série Locke & Key de Joe Hill e Gabriel Rodriguez, Keys to the Kingdom, Clockworks e Alpha & Omega. Foram, sem margem para dúvidas, os melhores álbuns da série, com reviravoltas e revelações de deixar o leitor a chorar por mais. Toda a bizarrice da composição (cabeças a serem abertas, sombras a atacarem pessoas e pessoas a assumirem formas de animais, por exemplo) funde-se com um realismo palpável na interação de uma família disfuncional, os Locke, com aquilo que os rodeia. Dodge, o grande vilão, alcança uma dimensão estonteante e os seus propósitos tornam-se muito mais claros, para culminar num final repleto de ação e coerente. Gostei bastante. Neste momento, estou a terminar o livro Sonho Febril de George R. R. Martin, e as leituras seguintes serão Nove Príncipes de Âmbar de Roger Zelazny e Carbono Alterado de Richard Morgan. Continuem por aí!

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