Estive a Ler: Sonho Febril


As horas passavam em silêncio, um silêncio entretecido de medo.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO SONHO FEBRIL

Publicado em 1982, Fevre Dream é um dos romances mais conhecidos de George R. R. Martin, o famoso autor de As Crónicas de Gelo e Fogo. Nomeado para o Locus e para o World Fantasy Award em 83, o livro foi publicado em Portugal pela Saída de Emergência em 2010, mas este ano a editora dedicou-lhe uma novíssima edição com uma capa bem mais atrativa.

Com um total de 400 páginas, o romance stand alone de George R. R. Martin é uma das apostas da Coleção Bang! deste ano e convida os amantes do fantástico e do sobrenatural a conhecerem a lenda do Fevre Dream e a sua jornada inesquecível pelo grandioso Rio Mississipi. Foi traduzido em Portugal como Sonho Febril por Ana Mendes Lopes.

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Fonte: https://boingboing.net/2016/06/30/george-rr-martins-fevre-dr.html

Não sou fã de histórias de vampiros, sobretudo quando o mercado foi fustigado por histórias juvenis centradas em triângulos amorosos e narrativas com pouca inventividade, mas a verdade é que não é uma área que me apaixone por completo. Li um livro de Anne Rice há tanto tempo que nem do título me lembro, e o único que me marcou foi mesmo o Dracula de Bram Stoker, que “por acaso” tornou-se uma das maiores referências do género. Sonho Febril quebra o paradigma.

“Sonho Febril cumpriu o seu papel, aliando aspetos pedagógicos ao entretenimento puro e duro que o livro carrega.

Muito mais próximo de um Bram Stoker do que de uma Stephanie Meyer, George R. R. Martin publicou no início dos anos 80 um livro que só agora tive a oportunidade de ler, muito embora já ande há anos pelas nossas livrarias. A premissa deixa antever uma sucessão de coisas, mas fui surpreendido e bem surpreendido no decorrer da leitura. Afinal, é George R. R. Martin, um dos melhores escritores do nosso tempo, e melhor que isto é difícil de esperar para um livro escrito há trinta e cinco anos atrás.

Sem título
Fonte: http://www.saidadeemergencia.com/produto/sonho-febril-2018/

Sonho Febril não tem uma escrita tão elaborada e uma narrativa tão densa quanto Martin nos presenteia nas Crónicas de Gelo e Fogo, mas é realmente difícil fazê-lo num romance isolado. Ainda assim, o livro é muito, muito bom. De um lado temos a visão histórica que perpassa os anos da escravidão, da guerra e do abolicionismo, oferecendo-nos uma panorâmica única sobre os desfiles de embarcações ao longo do Mississipi e dos seus afluentes.

Conhecemos ainda a modorra das tripulações e a excentricidade dos capitães, obcecados com a fama e o sucesso das suas viagens, mas também com a expectativa de ultrapassar a concorrência em corridas fluviais. Por outro lado, o fantástico. Martin entretece bem a visão trivial dos vampiros na realidade histórica, alinhavando a poesia de Lorde Byron à ficção e oferecendo uma nova perspectiva sobre os sugadores de sangue. Esta nova mitologia invoca os vampiros como uma raça e não como um estado pós-mortem, o que foi bem delineado e fundamentado pelo autor, assim como os seus modos de vida e respectivas justificações.

Mas, mais do que uma ficção credível e uma panorâmica intensa e palpável, George R. R. Martin oferece-nos personagens riquíssimas. Valerie, Damon Julian ou mesmo os mais secundários Billy Tipton, Jonathan Jeffers e Karl Framm são excelentes adições do ponto de vista da intriga e do drama, mas são os dois protagonistas que levam a história às costas e lhe dão a paixão vibrante que enobrece o livro. São a alma dele, e é deles este Sonho Febril.

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Fonte: https://zacharyfeore.deviantart.com/art/Fevre-Dream-548357667

Joshua York é um sujeito estranho e bem vestido que visita o velho capitão e lhe propõe um negócio. Ele dispõe-se a realizar o sonho do homem, construir uma grande embarcação de recreio, capaz de ombrear com o famoso Eclipse na travessia do Rio Fevre, em troca de ser seu sócio e deixar acompanhá-lo, sem questionar a estranheza dos seus costumes. As reticências do capitão são ultrapassadas e a grande embarcação é construída, o imponente e orgulhoso Fevre Dream.

“A interação entre estes dois personagens é alquimia pura para o leitor.”

Pouco a pouco, porém, este capitão que viu os seus sonhos tornarem-se realidade, transferindo-se de um velho barco de pequeno calado para um gigante dos rios, começa a pensar se o seu sonho não será, na realidade, um pesadelo. Porque os hábitos do seu sócio são realmente estranhos. Ele só sai da sua cabina à noite, e por vezes ausenta-se do barco por dias, para depois colecionar recortes de jornais que falam de brutais assassinatos ocorridos nos mesmos locais por onde perambula.

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Fonte: https://comicvine.gamespot.com/damon-julian/4005-39191/

A interação entre estes dois personagens é alquimia pura para o leitor. Mas nem o fascinante Joshua York é uma personagem tão incrível quanto o capitão, experiente, feio e cheio de defeitos. Abner Marsh é uma das melhores criações de George R. R. Martin, um homem cheio de sonhos, de atitudes e de genica, uma força da natureza que não se ilude com aquilo que vê, um homem com pensamento estratégico e uma dureza e tenacidade que roçam a loucura.

Se estão à espera de um protagonista humano que se acobarde com as primeiras visões de vampiros, esqueçam. Para Marsh, a natureza dos seus inimigos é de somenos importância; embora seja surpreendido e seja obrigado a rever aquilo que tomou como certezas, a sua principal preocupação e obsessão é que deixem o barco em paz, caso contrário terão que lhe prestar contas.

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Fonte: https://idaselidas.wordpress.com/2016/04/12/sonho-febril-george-r-r-martin/

As mensagens sub-reptícias que Martin imprimiu na sua obra falam muito sobre tolerância, sobre o respeito por outras espécies, falam sobre os limites entre o bem e o mal e as idiossincrasias de cada um na relação com o outro, mas também promove a certeza de que cada espécie possui criaturas de índoles distintas. Nesse sentido, Sonho Febril cumpriu o seu papel, aliando aspetos pedagógicos ao entretenimento puro e duro que o livro carrega.

As cenas de maior ação são bem visuais, intercaladas nas doses certas com os momentos de maior pendor espiritual ou contemplativo, mas funcionando muito bem no seu todo. O livro acabou por não trazer nada de muito novo, talvez por tornar-se expectável da metade para o fim, mas foram muitas as reviravoltas que o enredo trilhou, um caminho sempre bem diferente, para melhor, do que eu havia imaginado ao ler a sinopse. Sobretudo graças ao carisma incrível do protagonista.

Avaliação: 8/10

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