Estive a Ler: Carbono Alterado


O pavimento atingiu-me no ombro e nas costas enquanto rolava por entre os gritos de peões alarmados. Rolei duas vezes, bati com força numa frontaria de pedra e levantei-me cuidadosamente. Um casal que passava olhou para mim, e eu despi os dentes num sorriso que os fez apressar o passo, concentrando-se noutras montras.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO CARBONO ALTERADO

Lançado em 2002 pela Victor Gollancz, Carbono Alterado é o livro de estreia do autor britânico Richard Morgan, com o qual venceu em 2003 o Prémio Phillip K. Dick para melhor romance.  O livro mistura policial noir com elementos de ficção científica cyberpunk, tendo chegado ao pequeno ecrã em 2018 pelas mãos da Netflix, numa série com Joel Kinnaman na pele do protagonista.

Carbono Alterado é o primeiro de uma série de livros protagonizados por Takeshi Kovacs, e o único publicado em Portugal. A primeira edição data de 2008, mas embalada pelo lançamento da série, a Saída de Emergência volta a imprimir, dez anos depois, uma nova edição do livro com tradução de Sofia Moreiras e um total de 448 páginas, integrada na Coleção Bang.

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Fonte: https://www.comunidadeculturaearte.com/altered-carbon-a-promessa-que-acaba-em-desastre/

Ainda não vi nenhum episódio da série de TV e, muito sinceramente, não tenho grandes expectativas para ela. Visualmente, Carbono Alterado pode arrebatar os fãs de cyberpunk, mas essa é uma área de ficção que não me desperta grande interesse; mesmo o mais recente filme de Blade Runner não me apaixonou. Talvez por isso, as expectativas para este livro não eram elevadas. Mas o que Richard Morgan fez aqui é muito mais do que alguma vez pode ser levado à tela.

“O maior valor do livro, no entanto, passa bastante por o autor não subestimar o leitor em nenhum momento.

Só não dou a pontuação máxima a este livro porque o cenário futurista não me apraz e mesmo o protagonista, Takeshi Kovacs, não me passou grande coisa. Porém, adorei a combinação entre o cyberpunk e o policial noir e sobretudo adorei a forma como Morgan nos conta a história. Ele faz-nos comprar tudo, é extremamente credível na sua amálgama de criações fictícias e ainda nos apresenta um quebra-cabeças para resolver.

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Fonte: http://www.saidadeemergencia.com/produto/carbono-alterado/

As personagens também foram bem construídas. Apesar de não me identificar muito com Takeshi Kovacs, que me pareceu um pouco estéril e desprovido de um “eu” com conteúdo, Richard Morgan apresenta-nos um elenco rico e variado, com intenções duvidosas e passados todos eles um pouco manchados. Acima de tudo, eles são verosímeis… até mesmo os sintéticos.

Encontramo-nos num futuro longínquo, onde os humanos, mais do que conquistarem o espaço e espalharem-se por vários planetas, conseguiram finalmente aceder à fórmula da vida eterna. Isto através de pilhas corticais que podem ser reimplantadas em outros corpos quando aqueles que usam morrem. Kovacs pertence ao Corpo de Enviados do Mundo de Harlan, um mundo que guarda traços das culturas da Europa de Leste e chinesa que o fundaram.

Ele chega à Terra, mais propriamente à antiga San Francisco, Bay City, e através da sua needlecast é imangado (cada corpo novo é denominado de manga) no corpo de um agente da autoridade morto chamado Elias Ryker, com o propósito de prestar um serviço específico. Ele é contratado por Laurens Bancroft, um matusa, para desvendar um homicídio. Os matusas são gente endinheirada que tem não só capacidade de preservar a sua pilha cortical, como de fazer cópias dela e ainda preparar fornalhas de clones para o sucederem quando aquele corpo morrer.

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Fonte: https://io9.gizmodo.com/how-altered-carbon-handles-its-unique-whitewashing-issu-1821552497

A questão é que Bancroft contrata Kovacs para desvendar o seu próprio homicídio, uma vez que as suas memórias morreram com o corpo. As forças de autoridade que investigaram o caso concluíram que foi suicídio, mas Laurens não acredita nisso. Por que razão um homem se suicidaria, sabendo que seria reavivado logo em seguida? Takeshi Kovacs inicia uma investigação, que se revela muito mais difícil do que imaginava.

Kovacs terá de lidar com a paixão da tenente Kristin Ortega pelo corpo que está a usar, com a sensualidade magnética de Miriam Bancroft, a esposa do seu empregador, com as peculiaridades de Reileen Kawahara e ainda com um IA chamado Hendrix, a mercenária Trepp e a família enlutada de uma prostituta morta. Já para não falar da manta de retalhos chamada Kadmin, um inimigo de peso.

“O desenlace não é nada de espantoso, mas é credível e satisfaz.

Mas as peças do puzzle que vai descobrindo pelo caminho fazem com que ele tropece em verdades inquietantes relacionadas com a própria religião, levantando questões e dilemas que são, embora tenuemente exploradas por Morgan, bastante pertinentes. O maior valor do livro, no entanto, passa bastante por o autor não subestimar o leitor em nenhum momento.

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Fonte: https://www.atelevisao.com/geral/vem-ai-serie-altered-carbon/

Dono de uma escrita envolvente e ritmada, com alguns toques de humor, Richard Morgan não oferece grandes explicações, nem no início da trama, nem sequer quando o protagonista descobre alguns segredos, muito embora o worldbuilding seja gigantesco. Ele dá pistas aqui e ali, para o leitor interpretar e chegar às conclusões que, mais cedo ou mais tarde, se vão tornando mais evidentes. O desenlace não é nada de espantoso, mas é credível e satisfaz.

No entanto, para uma reedição, o livro merecia ter sido melhor revisto. Os erros são um pouco recorrentes, tanto na pontuação das etiquetas de diálogo, como na incoerência de estilo utilizado. O livro oscila entre o antigo e o novo acordo ortográfico, e embora isso não prejudique minimamente a experiência de leitura, Carbono Alterado é bom demais para não ter sido mais cuidado.

Se unirmos a linguagem maravilhosa de Morgan à magnífica bagagem de termos e características futuristas minuciosamente descritas, temos aqui um grande livro. Com menos foco nas performances sexuais do protagonista e um pouco mais de humanidade no mesmo, ele seria perfeito. O cyberpunk não é dos meus géneros preferidos, mas a escrita do autor, a carga neo-noir e a intensidade vívida de Carbono Alterado veio deixar-me com uma grande simpatia por este livro.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 8/10

3 comentários em “Estive a Ler: Carbono Alterado

  1. Ana Beatriz Pereira Martins 14 abr 2018 — 5:59 pm

    Já tinha ouvido falar muito bem da série mas não sabia que havia livro!

    Novo post: https://abpmartinsdreamwithme.blogspot.pt/2018/04/ootd-75-casual-chic.html

    Beijinhos ♥

    1. Olá Ana,
      Só fizeram a série devido à popularidade do livro.
      Obrigado pelo comentário. Volta sempre.

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