Estive a Ler: Potter’s Field: O Cemitério dos Esquecidos


E não descansa até dar a esses mortos a única coisa que consegue: um nome pelo qual sejam recordados.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO POTTER’S FIELD: O CEMITÉRIO DOS ESQUECIDOS (FORMATO BD)

Potter’s Field: O Cemitério dos Esquecidos é mais uma das grandes apostas da G Floy deste início de ano. Com argumento de Mark Waid e arte de Paul Azaceta, trata-se de um romance gráfico de linha dark, a meio caminho entre o policial noir e o thriller, incluindo ainda a história de vigilantismo do super-herói:  a história de um indivíduo misterioso, decidido a devolver o nome e a dignidade aos mortos anónimos enterrados em Potter’s Field, um cemitério para os esquecidos perto de Nova Iorque.

Mark Waid é um dos mais aclamados escritores de comics da actualidade, com uma obra de referência que inclui trabalhos para as duas grandes editoras de super-heróis, DC e a Marvel. O seu romance gráfico Kingdom Come, para a DC, que mostra um futuro possível distópico da Liga da Justiça, é considerado uma das grandes histórias de sempre dos super-heróis da DC. Responsável por histórias fulcrais para a Liga da Justiça (Heaven’s Ladder, JLA: Year One), Fantastic Four, Superman: Birthright, popularizou a mais recente fase do Demolidor que lhe granjeou vários prémios Eisners.

Paul Azaceta é um desenhador já conhecido dos fãs da G Floy, que edita dele a série Outcast (com argumento de Robert Kirkman). É conhecido pelo seu estilo contido e dinâmico, em contraste com as várias tonalidades de lilás e negro quase sufocantes. Após uma série de trabalhos em que a sua sensibilidade noir despontou com força, em títulos como Daredevil, Spider-Man, Punisher Noir, e B.P.R.D. 1946, Azaceta assina esta épica história de vingança em nome dos que a lei e a justiça esqueceram.

Fonte: G Floy

Envolvente e castrador ao mesmo tempo que é simples e intenso, O Cemitério dos Esquecidos é um álbum que não agradará a todos, mas decerto agradará aos melhores fãs de noir e de policial. Ele pisca o olho a vários clássicos do género, sem deixar de ser original e convincente e essa é, para mim, uma das grandes mais-valias deste romance gráfico.

“E é muito por este não ser um cliché deste género de literatura, que a narrativa acaba por funcionar na perfeição.”

Mark Waid convence com uma história híbrida entre o policial e a história de vigilantes, e embora esteja distante da fórmula usada por Alan Moore em Watchmen, não deixa de usar os ingredientes que mais me agradaram nessa história: o lado mais negro do ser humano, sempre a vir à tona de água. Mas foi a arte de Paul Azaceta, de quem já apreciava o trabalho em Outcast, que mais me deliciou. Os negros, cinzentos e lilases oferecem uma beleza estética impressionante.

Sem Título
Fonte: G Floy

O Cemitério dos Esquecidos apresenta-nos John Doe, um homem invisível, sem identidade, sem passado e sem qualquer nome nas redes de informação e bases de dados. Doe estabeleceu um objetivo para si mesmo: descobrir quem foram todos os que se encontram enterrados no cemitério de Potter’s Field, em Hart Island, e dar-lhes justiça, fazendo o mundo lembrar-se dos seus nomes.

As campas do cemitério não têm nomes, e parte do seu trabalho consiste em descobri-los. Quando consegue, esculpe os nomes dos falecidos nas suas ardósias, o que virá a levantar problemas e a chamar a atenção dos responsáveis pelos assassinatos, fazendo a pouco e pouco com que os mortos de Potter’s Field percam o protagonismo, deixando-o para John. Afinal, é ele o grande enigma deste álbum.

Fonte: G Floy

A narrativa é sólida e o protagonista é credível e convincente, mas sou obrigado a deixar claro que o que realmente me impressionou neste álbum foi a arte de Paul Azaceta. Em muitos momentos baça, ou pelo menos pouco nítida, ela consegue passar a mensagem de uma escuridão que se adensa e difunde ao longo das páginas, tornando mais questionadora e hermética a narrativa central.

“As campas do cemitério não têm nomes, e parte do seu trabalho consiste em descobri-los.

O Cemitério dos Esquecidos não é um thriller de tirar o fôlego nem tampouco nos faz surpreender com revelações impressionantes, mas tem o mérito de nos fazer deambular pelo desconhecido e levantar as nossas dúvidas acerca do próprio protagonista. E é muito por este não ser um cliché deste género de literatura, que a narrativa acaba por funcionar na perfeição.

Avaliação: 8/10

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