Estive a Ler: A Mão Esquerda das Trevas


O mundo ao nosso redor é feito de gelo, rochas, cinzas, neve, fogo, escuridão, tremores, contorções e gemidos. Olhando para fora, há poucos minutos, vi a incandescência do vulcão como uma floração vermelho-escura no seio de imensas nuvens pairando na escuridão.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO A MÃO ESQUERDA DAS TREVAS

A Mão Esquerda das Trevas é um livro da autora norte-americana Ursula K. Le Guin, com o qual marcou a diferença e atingiu grande notoriedade. Ele faz parte do Ciclo Hainish, assim como o livro Os Despojados, que li o ano passado. Com A Mão Esquerda das Trevas, Ursula conseguiu o feito de ser a primeira mulher a receber os Prémios Hugo e Nebula no mesmo ano.

Publicado pela Editorial Presença em 2003 com um total de 254 páginas e tradução de Fátima Andrade, A Mão Esquerda das Trevas foi originalmente editado em 1969, marcando a diferença pela abordagem sui generis à questão da sexualidade, da multiculturalidade e pelas diferenças que se podem encontrar nos que nos são comuns, bem como as semelhanças que podemos encontrar nos estranhos.

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Fonte: https://io9.gizmodo.com/ursula-k-le-guin-s-scifi-classic-left-hand-of-darkness-1795163316

Apesar de ambos pertencerem ao Ciclo Hainish, A Mão Esquerda das Trevas e Os Despojados podem ser lidos de forma independente, assim como os restantes livros da coleção. Dou comigo a dar uma melhor avaliação a este livro do que dei a Os Despojados, mas não acho que seja um livro melhor ou mais bem escrito. Penso que a questão aqui é que neste momento estou muito mais propenso para ler e saborear as narrativas de Ursula do que estava no verão.

“A intemporalidade da obra acaba por ser uma das suas maiores qualidades, convidando-nos à expansão, à multiculturalidade e à quebra de paradigmas.

A Mão Esquerda das Trevas é um livro lindíssimo. Não pela narrativa em si, que apresenta um início um tanto ou quanto vago, algumas passagens demasiado rápidas, outras demasiado morosas, mas pelo todo. Se ao início senti algumas dificuldades em engrenar na leitura, a pouco e pouco fui-me deixando embalar e do meio para a frente já não conseguia largar o livro.

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Fonte: https://www.fnac.pt/A-Mao-Esquerda-das-Trevas-Ursula-K-Le-Guin/a308392

De um lado, temos a escrita de Ursula. Lindíssima, com uma riqueza de vocabulário e simplicidade que só os autores mais maduros e elegantes conseguem desenvolver nas suas obras. Não só consegue passar-nos os sentimentos das personagens, como uma pequena descrição de cenário consegue deixar-nos maravilhados.

Por outro, as mensagens que a obra encerra. Questões como a sexualidade, o incesto, a aculturação, as diferenças entre homem e mulher, nativo e estrangeiro, eu e tu. Ursula consegue apresentar-nos um texto coeso e deslumbrante cheio de humanidade, porque é acima de tudo sobre ela que a obra fala. A Mão Esquerda das Trevas é uma alegoria para as semelhanças e diferenças que conseguimos encontrar no outro, que de uma forma ou de outra é um espelho de nós próprios.

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Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=eREDYq0BKVI

O terráqueo de pele escura Genly Ai é enviado para o planeta Gethen por uma federação interestelar chamada de o Ecuménio. Ali conhece Argaven XV, o extravagante rei de Karhide, uma nação de aparência medieval onde se podem encontrar rádios, telefones e outras tecnologias. Genly tem a missão de tentar um acordo com os governantes de Gethen para que estes acedam a incorporar a federação, uma troca de carácter comercial e cultural que poderá ser benéfica a todos.

“É um trabalho de imaginação e desenvolvimento emocional estrondoso, com uma mensagem social impressionante.”

Mas o mais estranho que Ai ali encontra é a sua ambissexualidade. Naquele planeta não há homens nem mulheres, os indivíduos têm ciclos sexuais chamados de kemmer, onde se revezam em características masculinas ou femininas. Fora desses ciclos, não têm qualquer desejo sexual. Assim sendo, a mesma pessoa pode ser pai de x filhos e mãe de outros tantos. Essa peculiaridade incomoda Ai, que não consegue aceitar a ideia de pronto.

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Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=nMqklV0HNqI

Na tentativa de conquistar a atenção de Argaven, Genly Ai persuade Therem Harth re ir Estraven, o seu primeiro-ministro. Estraven parece ser um homem ardiloso e cheio de manhas, mas o que é certo é que, na tentativa de convencer o rei das intenções de Ai, é considerado um traidor e exilado de Karhide, graças à influência de Tibe, que lhe cobiçava a posição.

Tibe sucede a Estraven como primeiro-ministro de Karhide, enquanto Ai continua sem perceber muito bem o que aconteceu ali, e a única coisa que quer é que o seu nome não seja ligado a Estraven e à sua traição. Rapidamente é-lhe endereçada uma missão, que o faz afastar-se de Karhide, tentando levar a mensagem do Ecuménio a outros povos. Mas a forma untuosa como o tratam está longe de ser mais agradável que a hostilidade de Karhide, e o destino volta a fazê-lo cruzar-se com Estraven.

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Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=N0GyAnZjHFw

A relação entre estas duas personagens é uma das maiores riquezas do livro. Estraven revela um carácter peculiar que nem Ai nem o próprio leitor podiam esperar, sendo que todas as suas subtilezas e características desafiam a humanidade do protagonista e tudo o que ele julgava saber sobre esta espécie. O emocional acaba por sobrepôr-se a todo e qualquer dogma, estatuto ou preconceito.

“A Mão Esquerda das Trevas é uma alegoria para as semelhanças e diferenças que conseguimos encontrar no outro, que de uma forma ou de outra é um espelho de nós próprios.”

O livro tem vários capítulos que, aparentemente, não acrescentam nada à história, são trechos de narrativas locais ou histórias que fazem parte da própria mitologia e das crendices daquele mundo, que acabam por fazer um grande sentido na totalidade da obra. Os capítulos também alternam entre o ponto de vista de Ai e Estraven, o que ao início tornou a leitura confusa, devido à falta de uma referência ao mesmo, mas essa mudança acabou por se tornar mais clara no decorrer da leitura.

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Fonte: https://evandahm.tumblr.com/post/42860956513/estraven-and-genly-from-the-left-hand-of-darkness

Ursula desafia os preconceitos e as crenças pessoais de cada um com este livro. A abordagem que quase roça o homossexual dos nativos de Gethen, questões como o incesto e a xenofobia que são um desafio às convenções tanto hoje como há 50 anos, quando o livro foi escrito. A intemporalidade da obra acaba por ser uma das suas maiores qualidades, convidando-nos à expansão, à multiculturalidade e à quebra de paradigmas.

Se em termos visuais não é uma obra que me agrade por aí além, a narrativa conseguiu convencer-me, aliando uma escrita fascinante a um desenvolvimento de ideias sem iguais. Não é à toa que A Mão Esquerda das Trevas se tornou um clássico da ficção científica. É um trabalho de imaginação e desenvolvimento emocional estrondoso, com uma mensagem social impressionante.

Avaliação: 8/10

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