Estive a Ler: Uma Coluna de Fogo


Sentíamo-nos felizes porque não sabíamos os enormes problemas que estávamos a causar. Não se tratava apenas de mim, claro; eu era o sócio mais novo de outros, muito mais velhos e bastante mais sábios. Nenhum de nós, porém, via o futuro.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO UMA COLUNA DE FOGO

Ken Follett é sinónimo de sucesso literário. Não é à toa que, saltando entre o thriller de espionagem e o romance histórico, o autor britânico seja um dos mais requisitados escritores do nosso tempo. Após os êxitos de Os Pilares da Terra e Um Mundo Sem Fim, Follett regressa a Kingsbridge, agora em pleno século XVI, numa luta renhida entre Isabel Tudor e Maria Stuart, que representaram os ideais protestantes e católicos que esgrimiram à época.

Uma Coluna de Fogo saiu o ano passado, em setembro, num lançamento internacional simultâneo a que a Editorial Presença não faltou, num golpe de marketing que incluiu a vinda a Portugal do autor britânico. Com um total de 768 páginas e tradução de Isabel Nunes e Helena Sobral, o livro continua o ciclo de livros passados em Kingsbridge, embora esteja muito mais voltado para as crises políticas e para a diplomacia internacional. 

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Fonte: http://tvline.com/2017/04/20/reign-series-finale-date-june-2017/

Adorei Os Pilares da Terra e Um Mundo Sem Fim e de cada vez que me cruzava com este livrinho nas livrarias só dizia para mim mesmo: será que vale o preço? A crítica era favorável ao livro, mas com uma tendência para o julgar inferior aos outros. O preço não é para qualquer carteira, mas a verdade é que não foi dividido, ao contrário dos anteriores. Por tudo isso, procrastinei na aquisição do livro até a minha namorada decidir comprar-mo.

“Há toda a segunda metade do século XVI a ser desbravada sem cortesias históricas.”

Afinal, gostei tanto deste como dos anteriores livros do chamado ciclo de Kingsbridge, o que achava não ser possível. Construída por personagens fictícias que se tornaram lenda, Kingsbridge é a terra natal dos protagonistas deste volume, mas pouco mais. As conspirações e guerras religiosas já não têm o povoado como eixo central, ele é um mero cenário como tantos outros. Ainda assim, a intriga política que perpassa toda a Europa agradou-me imenso.

livro ken follett
Fonte: https://www.presenca.pt/editorial/uma-coluna-de-fogo/?bc_oid=13361149

Ken Folett utiliza a mesma fórmula dos romances anteriores, mas consegue reinventar-se. Os dons artísticos das personagens deixaram de ser a manufatura e a construção e passaram a tratar de oratória e estratégia política. Se ao princípio tudo parecia encaminhado para que Uma Coluna de Fogo seguisse o mesmo trajeto de amor que ultrapassa todas as barreiras que perpassou os anteriores volumes, ele toma as decisões narrativas acertadas e com realismo coloca duas mulheres admiráveis, com defeitos e virtudes, a amar o mesmo homem.

Mas nem só de amor se vive Uma Coluna de Fogo. Há guerras, intrigas políticas, traições, espiões, motins, preconceitos, ódios figadais, encontros e desencontros. Há batalhas navais, execuções e violações. Há prisões e sexo. Há terra, há mar e há lama. Livros proibidos a ser vendidos. Mortes inesperadas. Há toda a segunda metade do século XVI a ser desbravada sem cortesias históricas.

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Fonte: https://www.panmacmillan.com/blogs/fiction/ken-follett-column-of-fire-kingsbridge-cathedral

E depois há William Cecil e Francis Walshingham, duas figuras que sempre me fascinaram, leais diplomatas e espiões da coroa britânica, no caso, de Isabel Tudor. Entre eles, Follett colocou o seu protagonista fictício, o matreiro e combativo Ned Willard. Que personagem! Adoro protagonistas que passam regularmente a perna aos inimigos e este Ned é incrivelmente bom, tendo inclusive uma participação capital na célebre Conspiração da Pólvora que notabilizou o incontornável Guy Fawkes.

Filho de Alice Willard, uma mulher com muito jeito para o negócio que é vítima da ganância e da corrupção que se vive em Kingsbridge no período católico, representada pelo bispo Julius, Ned é admitido por Cecil como diplomata, tendo de deixar para trás não só Kingsbridge, como a mulher que ama, prometida pelos pais dela a Bart, filho do odioso Swithin, conde de Shiring.

Margery Fitzgerald não é uma protagonista tão forte ou charmosa como Aliena ou Caris, personagens maiores dos romances anteriores de Kingsbridge, e em alguns momentos cheguei mesmo a censurar o seu comportamento, embora seja difícil odiá-la com tanto que sofreu. Esta falta de pujança, de uma personagem que ao início prometia muito, porém, ofereceu ao autor uma série de liberdades literárias que deu uma boa credibilidade à trama, embora na fase final acabe por conquistar o protagonismo que havia prometido.

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Fonte: https://shirleywhiteside.com/2017/09/18/a-column-of-fire-by-ken-follet/

Margery é filha de Reginald Fitzgerald e irmã do traiçoeiro Rollo (não consegui parar de imaginar o Rollo da série Vikings na minha cabeça), uma família católica, sendo descendente do visceral Ralph Fitzgerald de Um Mundo Sem Fim. Por sua vez, os Willard descendem de Merthin, irmão de Ralph. Uma das figuras mais fascinantes desta família é Barney, irmão de Ned e mais uma personagem forte e muito bem explorada, partilhando com o irmão o charme e a boa índole. As suas aventuras em Espanha são incríveis.

“Ken Follett une uma prosa riquíssima a uma história de contexto real que nos faz devorar página após página

Mas as personagens são tantas e tão boas que é difícil referirmo-nos a todas. Em Espanha temos Carlos Cruz, um ferreiro de talento e o seu escravo Ebrima, que reclama para si o protagonismo das cenas ao longo do livro. Em Inglaterra temos Alison McKay, a astuta melhor amiga de Maria Stuart, capaz do melhor e do pior. Em França temos a corajosa Sylvie Palot, que segue a tradição de uma família protestante, sendo obrigada a passar pelas maiores privações e desilusões pelo caminho.

E há Pierre Aumande, o alpinista social. Vilão de mão cheia, o filho bastardo de um filho bastardo da poderosa família Guise, não olha a meios para atingir o reconhecimento que o seu coração vê como premente. Retorcido e vingativo, tudo faz para conquistar as boas graças do bispo Charles de Guise e do seu irmão, o terrível Cicatriz, mas as suas ações, mais do que o poderem colocar no poder, podem também fomentar um atrito cada vez mais contundente entre católicos e protestantes.

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Fonte: https://www.rogerebert.com/reviews/elizabeth

Credível e empolgante, Ken Follett une uma prosa riquíssima a uma história de contexto real que nos faz devorar página após página para satisfazer o desejo de saber o que vai acontecer às personagens. O último terço do volume perdeu alguma qualidade muito por conta dos sucessivos saltos temporais, para além de várias personagens desaparecerem simplesmente da trama sem lhes conhecermos um fim, mas não podia terminar o livro mais satisfeito com tudo o que aprendi e o que li sobre este período histórico.

O romance perpassa uma época que me diz mais, pessoalmente, do que os períodos mais medievais em que os volumes anteriores foram narrados, e os jogos de poder, o tal xadrez diplomático que me apaixona, é aqui jogado por mentes brilhantes. Ao mesmo tempo, sou emocionalmente roubado pelos dissabores e paixões dos protagonistas. Uma Coluna de Fogo é isto tudo, e só posso louvar a Presença pela coragem de o publicar num único volume.

Avaliação: 10/10

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