Entrevista a Nuno Ferreira por Maria Inês Nunes


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Boas! Hoje trago-vos uma entrevista que a professora e jornalista Maria Inês Nunes me fez a semana passada, no âmbito da revista escolar “Ler Portugal”. Aqui vai:

Olá Nuno. Vamos começar pelas perguntas mais básicas: o que te levou a ser escritor?

Olá. Acho que a paixão pela escrita está comigo desde que me conheço enquanto indivíduo. Na adolescência já escrevia histórias de aventura que pouco tinham de prosa, em boa verdade, mas foram o início de algo. Fui muito embalado pelo primeiro filme do “Senhor dos Anéis”, pelos livros-jogo “Aventuras Fantásticas” do Ian Livingstone e pelos livros das “Crónicas de Allaryia” do Filipe Faria, nos meus 17, 18 anos, mas posso dizer que foram os romances policiais da Agatha Christie e “O Código DaVinci” do Dan Brown que me fizeram apaixonar pela arte de escrever. Lá pelos 20 já tinha decidido que iria ser tão bom quanto os meus ídolos.

Uma pequena pretensão (risos).

Um autor terá sempre dificuldade em ultrapassar os seus ídolos, mas é a trabalhar para isso que conseguirá ser pelo menos bom. Eu neste momento ando a trabalhar para ser melhor que Brandon Sanderson, George R. R. Martin ou Steven Erikson, que são os nomes mais sonantes do género a que me dediquei. Não significa que venha algum dia a sê-lo, mas obrigatoriamente significa que amanhã serei melhor escritor do que sou hoje. É uma competição comigo mesmo, estabelecendo balizas e desafios constantes. Um autor só melhora se nunca permanecer estanque. Metade da graça disto é permanecer um fanboy pela vida toda, afinal estamos sempre a aprender.

O “Espada que Sangra” obteve algum sucesso na internet aquando da sua primeira edição. O que falta para que o Nuno seja mais reconhecido?

O “Espada que Sangra” obteve algum sucesso porque eu fui atrás dele, instiguei meia dúzia de bloggers a ler o livro e como estes tinham parceria com a Chiado Editora acabaram por ler e espalhar a palavra. Houve muita gente que não comprou por não quererem “dar dinheiro” a editoras vanity-press, e percebo isso perfeitamente, mas agora que ele foi publicado pela Editorial Divergência, já não há essa desculpa. Mas ainda há preconceitos. Preconceito por autores nacionais, preconceito pelo género fantástico, e ainda tenho de juntar a isso o preconceito por ter publicado originalmente numa vanity. A única coisa que falta para o “Espada” ter mais sucesso é as pessoas lerem o livro.

zallar

O ano passado publicaste um livro online, correto? De alguma maneira ele e o “Espada que Sangra” interligam-se? 

Em meados de 2016 acabei de escrever as “Histórias Vermelhas de Zallar”, que é a saga de cinco livros do “Espada que Sangra”, e tive vontade de escrever algo diferente, fazer um exercício de escrita que me desafiasse e, ao mesmo tempo, que mostrasse ao mundo o meu trabalho de forma gratuita. Publiquei um capítulo quinzenalmente no Wattpad e terminei-o em setembro de 2017. Atualmente, só se encontra disponível para leitura no meu site e chama-se “Língua de Ferro: Um Sacana Qualquer”. Apesar de ser um tipo de fantasia diferente, está relacionado com o “Espada que Sangra” porque pertencem ao mesmo universo. Na minha saga, uma das crenças do povo namantisquano é que o mundo resultou da violação de Khsem a Mallaya, e desse ato nasceram três planetas gémeos. Eles são Zallar, Semboula e Bhaset. Enquanto o “Espada” se passa em Zallar, o “Língua de Ferro” passa-se em Semboula.

Um pouco à semelhança do que Brandon Sanderson faz com o seu universo compartilhado. 

Inspirado por essa ideia incrível do Sanderson, seguramente, mas uma visão astronómica muito mais ligada à mitologia. Sanderson eleva homens a deuses, mostra-nos os deuses, assegura-nos de que eles são reais. Eu não. Sou muito mais Martin neste aspeto. A questão de fundo é: será que existe um deus por detrás de tudo, ou uma variedade deles? Os deuses de Zallar serão os mesmos de Semboula e de Bhaset? Haverá um deus verdadeiro, ou são os homens que criam os seus próprios deuses? É muito uma questão de crença. No que diz respeito ao universo, já escrevi um conto futurista em que alguns destes planetas são referidos e se, no futuro, me dedicar a alguma space opera, seguramente que todos eles serão incluídos.

Então existem mais mundos, para além destes três. Li aqui que escreveu um conto para a Divergência em 2017. Ele também faz parte deste universo?

Escrevi “A Maldição de Odette Laurie” na antologia “Os Monstros que nos Habitam”. É um conto de zombies, passado num mundo que podia ser perfeitamente o nosso, mas não é. A que mundo ele pertence, eu ainda não decidi, e se tenho uma ideia para isso, não a quero revelar para já. Prefiro que se surpreendam com um futuro crossover.

Já falamos em Martin e em Sanderson. Estes autores são uma inspiração?

Obviamente. Brandon Sanderson tem uma linha de produção invejável, ideias incríveis e sabe explodir com a mente dos leitores. George R. R. Martin faz a fantasia parecer real. Li as “Crónicas de Gelo e Fogo” enquanto escrevia o “Espada que Sangra”. Mas há ainda melhores. Scott Lynch é o meu escritor favorito. O humor, a irreverência, o mundo, tudo fora da caixa. Robin Hobb é a melhor escritora que eu conheço. O que dizer de Steven Erikson, que une ideias brutais, crueldade à flor da pele e uma escrita do “outro mundo”? E depois, fora da fantasia, temos Ken Follett, Bernard Cornwell, John le Carré, Maurice Druon, que eu adoro.

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Quando começas a escrever um livro, já sabes como vai acabar?

Posso ter uma ideia vaga, mas seguramente que não. Quando começo a escrever, penso quais serão os fios narrativos e onde eles me podem levar. Faço um esquema simples da história central até ligeiramente a meio, e as ramificações que daí podem surgir. Um esqueleto. Depois, pouco a pouco, vou enchendo esse esqueleto com carne e ao escrever estou a dar-lhe músculo. Quando chego ao primeiro terço do livro, reavalio aquilo que tinha pensado, mas é certo e seguro que quando chegar à metade, já tenho outras ideias para as personagens e para a história. Nessa altura defino os finais e como chegar a eles, porque a segunda metade de um livro tem de ser bem estudada e confeccionada de modo a confluir no final desejável. Se continuar a escrever ao sabor do vento, chego ao último terço com imensos pontos de interrogação e não conseguirei escrever um final credível, na menos má das hipóteses será um final apressado. Por isso gosto de definir os finais e como chegar a eles a meio de um livro.

Quais são as principais diferenças entre o “Espada que Sangra” e o “Língua de Ferro”?

O “Espada que Sangra” é uma série, o que te dá a liberdade de expandires o mundo a teu bel-prazer. No “Espada que Sangra” apresento-te Zallar, mas não tenho a preocupação de te mostrar cada cantinho daquele mundo. Ele foca-se em duas ou três cidades, uma muralha e um deserto. É o que basta, porque sabes que a seu tempo tudo o resto terá terreno desbravado. Consegues ser fluído, consistente, incisivo, e é isso que mais me agrada. O “Língua de Ferro” foi… complicado. Um desafio a todos os níveis. Tinha de apresentar aquele mundo num único volume, e uma vez que foi publicado quinzenalmente, não podia voltar para trás para corrigir acontecimentos anteriores. Aquele esqueleto de que falei antes era muito frágil. Foi um livro escrito ao sabor do vento, e se fosse hoje tomaria outras decisões narrativas, mas considero que correu muito bem para o expectável.

E quando voltaremos a ler mais de Zallar? Estás a escrever algum livro neste momento?

A saga de Zallar está escrita, mas ainda tenho muito trabalho pela frente com revisões. Este ano irei trabalhar no segundo volume, “Garras Gélidas”, para que fique pronto o quanto antes. Estou a terminar de escrever um livro passado em Bhaset, “Embaixada”, uma trama onde política, mistério e poderes sobrenaturais andam de mãos dadas. Inspirei-me na Europa pós-Revolução Francesa, com referências a Napoleão, Hitler e até a Fernando Pessoa, mas mais não posso dizer. Depois penso em escrever alguns contos.

Para terminar, o que dirias a alguém que está indeciso em ler o “Espada que Sangra”?

Diria que comprem, que leiam, e que espalhem a palavra. Sinto-me realmente afortunado por ter encontrado uma editora que apostasse em mim, a Editorial Divergência, que tem feito um trabalho incrível na divulgação da Ficção Especulativa nacional, mas isso não basta. Se não querem que vivamos num país em que os autores nacionais tenham obrigatoriamente que pagar para publicar o seu trabalho (o que é um contra-senso terrível), temos de apoiar os autores nacionais e as editoras tradicionais. Mais do que isso, o “Espada que Sangra” tem tido um reconhecimento incrível por aqueles que o lêem, por isso não vais querer ficar de fora.

Obrigado, Nuno!

Obrigado à Maria Inês pela entrevista e pela simpatia.

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