Estive a Ler: O Caminho das Mãos, Saga do Império Malazano #3


Kamist Reloe e o seu exército aguardavam-nos; o brilho de ferro estendia-se, claro, sob a luz matinal, estandartes de cidades e pendões tribais pendiam, parados e apáticos sobre um mar de elmos pontiagudos.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO “O CAMINHO DAS MÃOS”, TERCEIRO VOLUME DA SÉRIE SAGA DO IMPÉRIO MALAZANO

O universo do Império Malazano foi criado por Steven Erikson e Ian C. Esslemont no início dos anos 80 para uma campanha de RPG, inspirado no jogo de mesa Dungeons & Dragons e na obra de Glen Cook, The Black Company, autor que viria a considerar Malazan Book of The Fallen uma obra-prima da imaginação. O livro inaugural, da autoria do canadiano Steven Erikson, demorou dez anos até encontrar a receptividade de uma editora, mas Jardins da Lua foi apenas o início de uma trilha indelével, marcada pelo sucesso.

Lançado no ano 2000, Deadhouse Gates veio agigantar o género fantástico em geral e a Saga do Império Malazano em particular. Dezoito anos depois, a obra chega ao nosso país numa versão dividida pelas mãos da Saída de Emergência, fazendo desta uma das séries mais fortes da Coleção Bang! dos últimos anos. Com um total de 496 páginas, tradução de Carol Chiovatto e adaptação de Susana Clara, O Caminho das Mãos é o terceiro volume da versão portuguesa de Malazan Book of The Fallen, após a publicação de Os Portões da Casa dos Mortos em novembro de 2017.

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Fonte: https://www.pinterest.com/pin/483574078710967830/

Em O Caminho das Mãos, o épico supera todas as escalas conhecidas até então. Dragões mortos-vivos, macacos metamorfos, dimensões paralelas, histórias de vida pesadíssimas, um império fraturado, um deserto terrível e uma profeta reencarnada são alguns dos ingredientes que este livro maravilhoso tem para oferecer. Se sofreste com A Guerra dos Tronos, ainda não viste nada. Prepara os lenços para enxugar as lágrimas, porque com este livro corres esse risco.

“O desgaste emocional que sentimos quando chegamos ao fim do livro é notório.

Este não será o meu livro preferido dentro do género fantástico, e se estivermos a falar da versão original como um todo, seguramente que não será, mas não tenho problemas em dizer que é, muito possivelmente, o mais bem escrito e executado que já li. É difícil encontrar um livro que concilie um mundo extremamente credível, histórias emocionalmente desgastantes e uma escrita exuberante, senhora de um vocabulário denso riquíssimo.

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Fonte: http://www.saidadeemergencia.com/produto/o-caminho-das-maos-oferta-o-terceiro-desejo/

Não é uma história para qualquer estômago. A leitura por vezes não flui, tanto por conta da escrita trabalhada do autor canadiano, como por conta da imensidão de personagens e cenários a que somos apresentados. Acima de tudo, porque precisamos de reler várias passagens, não tanto para entender o que lá está escrito (também), mas para digerir os acontecimentos e processá-los na nossa mente e nas nossas entranhas.

Se achei que a primeira parte pecou por falta de empatia com as personagens, senti que este O Caminho das Mãos trouxe maior proximidade para com elas, talvez porque já estava familiarizado ou simplesmente porque a trama assim o ditou. Todas elas sofreram imenso durante este volume e, de uma forma ou de outra, o leitor é convidado a sofrer com elas. Afinal, este é o Livro Malazano dos Caídos. Aqui, dos vencedores não reza a história.

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Fonte: https://www.pinterest.es/pin/372250725432173914/

Se Jardins da Lua nos apresentou a uma Casa Azath, e se sabemos também que existe um portal correspondente na Cidade de Malaz, a Casa dos Mortos, O Caminho das Mãos sugere-nos a existência de uma dessas casas em cada continente, ligadas através de caminhos ancestrais. Ela também pode aceder ao inóspito deserto do Raraku através da Azath chamada Tremorlor. Para além de funcionarem como transporte entre continentes, estas casas podem também funcionar como um caminho para a Ascendência, motivo pelo qual todos os metamorfos conhecidos como d’ivers e soletakens usam o Caminho das Mãos.

“Mortes horríveis, corpos carbonizados, nuvens de moscas e crueldades horríveis acompanham a sua jornada, onde ninguém está imune à morte nem à derrota.

É aqui que a história de Violinista, Crokus e Apsalar se expande. Depois de encontrarem o sumo-sacerdote da Sombra Iskaral Pust, percebem que este é apenas uma ferramenta nas mãos dos Ascendentes Trono Sombrio e Cottilion, duas faces escuras que foram outrora importantes, de uma forma diferente do que são hoje, nos destinos do Império. À medida que compreendem quem é o Servo de Pust e as intenções do sumo-sacerdote, os companheiros vêm os seus destinos entrelaçados ao de Sha’ik.

Sha’ik é a profeta do Apocalipse, que move os seus exércitos ao longo do Império Malazano numa contenda direta com a Imperatriz Laseen, usando os métodos e os instrumentos menos ortodoxos, como traição, logros e massacres que ficarão escritos nas crónicas. Arrastados nesse clima de destruição e enganos, o trell Mappo e o jhag Icarium vêm a sua amizade posta à prova quando o primeiro é obrigado a esconder do amigo as suas memórias, para o proteger de uma terrível verdade sobre o próprio.

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Fonte: malazan.wikia.com/wiki/File:Kalam_by_Simon_Underwood.jpg

Kalam, por sua vez, encontra em Minala sentimentos conflitantes e um emaranhado de propósitos. O cabo dos Queimadores de Pontes, outrora assassino da Garra, leva avante a sua ideia de assassinar a Imperatriz, tendo para isso que atravessar um Labirinto com Minala e a sua família, bem como o alto-mar que o levará à Cidade de Malaz, onde é obrigado a enfrentar um mago poderosíssimo sem poder contar com a ajuda do seu amigo Ben Ligeiro. Para levar a sua determinação avante, terá de valer-se do auxílio de uma aptória, um monstro ciclópico com intenções bem definidas.

Todos estes núcleos conectam este livro ao primeiro, até porque Kalam, Violinista, Crokus, Apsalar, Topper, Laseen, os Cães do Encapuzado e a própria Cidade de Malaz já nos foram apresentadas em Jardins da Lua, mas para mim o grande trabalho de Steven Erikson neste livro está nos núcleos protagonizados por Felisin e Duiker. A irmã mais nova de Ganoes Paran vê o seu destino ligado ao de Sha’ik, mas o seu percurso é, dentro do fantasioso, extremamente credível.

Ao lado de personagens incríveis como Heboric, Kulp ou Baudin, Felisin Paran tenta ganhar coragem para enfrentar a própria irmã, a Conselheira Tavore, avançando para as entranhas do Raraku com esse objetivo, onde o Furacão ganha cada vez mais poder. Mortes horríveis, corpos carbonizados, nuvens de moscas e crueldades horríveis acompanham a sua jornada, onde ninguém está imune à morte nem à derrota.

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Fonte: https://forum.malazanempire.com/topic/32194-deadhouse-gates-spanish-cover-spoilers/

E o que dizer de Duiker? Sem a mais pequena dúvida, a melhor personagem do livro. O velho historiador acompanha o êxodo monumental do Sétimo Exército Malazano, comandado pelo Punho Coltaine. Contra todas as intempéries, tribos hostis e privações que os acompanham ao longo do trajeto, o exército tenta a proeza incrível de escoltar 50 mil refugiados até à cidade mais próxima capaz de os acolher, Aren. Os acontecimentos finais têm uma brutal analogia a um dos momentos bíblicos mais celebrados pelo Cristianismo.

“Porque em O Caminho das Mãos, elas [as personagens] sofrem a bom sofrer.”

Coltaine é uma personagem fantástica. Com poucas falas e sem um único capítulo com ponto de vista, conseguimos seguir os seus ideais, as suas estratégias militares e a sua extrema generosidade como ser humano. Todo o seu percurso foi extremamente credível, acompanhamo-lo pelos olhos de Duiker e as suas passagens foram das mais bem escritas que eu já li em fantasia. A marcha conhecida como A Corrente de Cães é um exemplo de maestria literária. Mérito de Steven Erikson.

O desgaste emocional que sentimos quando chegamos ao fim do livro é notório. Ninguém está a salvo nesta saga, e embora acompanhemos com maior atenção o percurso de personagens com ponto de vista, qualquer um deles é de suma importância para o desenvolvimento da série, mesmo alguns quase imperceptíveis como Pérola, Mogora, Leoman, o toblakai ou Lostara Yil. É impossível não odiar Korbolo Dom, Nethpara ou o Alto Punho Pormqual, como é difícil não sentir comiseração por Nil e Nether, ou torcer por Gesler, Tempestade e Vontade.

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Fonte: http://malazan.wikia.com/wiki/Tremorlor

O que realmente me faz vibrar com um livro de fantasia é a palpabilidade, a credibilidade do mundo, quando tudo dá errado. Durante muito tempo achei que era difícil um autor ser tão credível quanto George R. R. Martin. Temos hoje em dia nas nossas prateleiras vários autores que o conseguem ser, como Robin Hobb, por exemplo, mas como é possível apresentar-nos um mundo tão “cara chapada” dos jogos de tabuleiro, com magia por tudo quanto é lugar, e ser tão terrivelmente credível?

Steven Erikson consegue sê-lo. Consegue superar Bernard Cornwell e George R. R. Martin em descrições de batalha, consegue igualar Robin Hobb na profundidade de sentimentos e consegue fazer-nos odiá-lo pelas crueldades que imprime às suas personagens. Ainda não consegui sentir realmente muita empatia para com elas, mas não consegui ignorar de maneira nenhuma o seu sofrimento.

Porque em O Caminho das Mãos, elas sofrem a bom sofrer. Há dragões, há mortos-vivos e há dragões mortos-vivos, há macacos de aparência amigável que são tudo menos isso, há Labirintos e magia por todo o lado, mas também há crianças a falecer a cada capítulo, animais maltratados, uma violência física e emocional a todos os níveis. Um nível de desolação profundo.

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Fonte: https://subterraneanpress.com/deadhouse-gates

E é essa desolação um dos pontos mais positivos deste livro. Erikson transporta-nos até ao estado mais primário do ser humano, fazendo-nos tocar na terra árida com as nossas próprias mãos e obrigando-nos a olhar para cada página como uma luta pela sobrevivência. Afinal, a Saga do Império Malazano é uma luta pela sobrevivência, mas também uma luta pela justiça, uma luta contra as desigualdades e contra o despotismo. Uma batalha cruel, em nome de juramentos prestados, em nome daquilo que qualifica estas personagens como seres humanos.

Deixo ainda os meus parabéns à Saída de Emergência, não só pela publicação do livro como pela aposta num ilustrador nacional para o trabalho de capa, ainda que a adaptação deste volume para português tenha pecado por algumas pequenas falhas, como uma das partes se chamar Portais da Casa dos Mortos quando a versão portuguesa é “Portões”, ou mesmo concluir o volume a dizer que terminou a segunda história do Livro Malazano dos Caídos, como tanto este é o terceiro livro como o título da série em português é outro. Pormenores de edição que não beliscam o fantástico trabalho de tradução. Venham mais!

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência

Avaliação: 9/10

Saga do Império Malazano (Saída de Emergência):

#1 Jardins da Lua

#2 Os Portões da Casa dos Mortos

#3 O Caminho das Mãos

#4 Memórias do Gelo

#5 Capustan

19 comentários em “Estive a Ler: O Caminho das Mãos, Saga do Império Malazano #3

  1. Viva,

    Não li o comentário mas pelo que me tinhas falado era um dos melhores livros que estavas a ler e que te estava a agradar muito, está pedido e espero começar a ler o quanto antes, um escritor que criou um universo rico e fantástico e ainda vamos no inicio por cá 🙂

    Abraço

    1. Sim, podes contar com isso.
      Grande abraço e boa leitura.

  2. Simão Correia 21 jan 2020 — 4:41 pm

    Tenho acompanhado desde que saiu o primeiro livro, e não podia concordar mais com esta crítica em relação ao terceiro livro.
    No entanto o sexto ainda não saiu e queria perguntar se, a editora ainda está em trabalho de tradução, ou, se desistiu da obra.

    1. Olá Simão. Obrigado pelo comentário. Pelo que sei, a publicação está parada por agora. A continuação vai, em parte, depender sempre das vendas.

      Grande abraço.

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