Estive a Ler: A Demanda do Bobo, Saga Assassino e o Bobo #3


Perguntei a mim mesmo por que motivo tinha voltado para ali. Perguntei a mim mesmo o que aconteceria se voltasse a montar a cavalo e me fosse embora. Fiquei em silêncio durante muito tempo, consciente de que Enigma se viera pôr a meu lado, mas sem me virar para o olhar.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO “A DEMANDA DO BOBO”, TERCEIRO VOLUME DA SÉRIE SAGA ASSASSINO E O BOBO

Publicado originalmente pela HarperCollins em agosto de 2015, Fool’s Quest é o penúltimo livro da autora californiana Margaret Ogden, mais conhecida entre os fãs de ficção fantástica como Robin Hobb. A famosa autora, licenciada em Comunicação pela Universidade do Denver, vive atualmente em Tacoma, Washington, e estará a 27 de outubro no Pavilhão Carlos Lopes em Lisboa como convidada de honra do Festival Bang!

A versão nacional de Fool’s Quest foi dividida pela Edições Saída de Emergência, com a primeira metade publicada em fevereiro e a segunda em maio. A Demanda do Bobo corresponde à segunda metade, retomando assim a ação que ficara pendente com o final do livro A Revelação do Bobo. Com um total de 416 páginas, este volume tem edição de Luís Corte Real e conta mais uma vez com o extraordinário trabalho de Jorge Candeias na tradução.

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Dos três volumes já lançados desta última saga, este foi sem dúvida aquele que me disse menos. Mas para ser honesto, sabemos que na versão original o segundo e o terceiro são o segundo volume de uma trilogia, e como tal não tenho como não tecer laudas a um maravilhoso livro de transição. A Demanda do Bobo é mais um exemplo vívido de que Robin Hobb é uma das melhores escritoras do nosso tempo, e não só no género fantástico.

“Ainda assim, é mais um dos livros brilhantes desta autora, e não tenho como lhe dar uma pontuação menor do que esta.”

Vazio, desilusão, julgamentos morais, expectativas, medos. Robin Hobb usa um mundo fantástico e personagens fictícios para jogar com todas estas emoções dentro de cada um de nós, de um jeito palpável, incapaz de nos deixar indiferentes. Cada uma das emoções sentida por estas personagens encontra uma repercussão fortíssima no nosso íntimo, e tal não seria possível se a autora californiana não fosse mestra naquilo que faz.

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A forma com que nos enreda nos conflitos morais de FitzCavalaria Visionário consegue ser tão recompensadora como extenuante. A profundidade daquela personagem sexagenária que conhecemos desde criança, a vivacidade e a dramaticidade das suas experiências, conduzem-nos num túnel ramificado de experiências e sensações. Ficamos presos à vontade inequívoca de vê-lo a encontrar a paz de espírito que lhe escapa por entre os dedos, ao mesmo tempo que sabemos que o seu sofrimento está para durar.

Robin Hobb oferece dicotomias interessantíssimas e dilemas morais para Fitz resolver dentro dele, mas convida-nos também a reflectir sobre o que faríamos em determinada situação. As escolhas do personagem nem sempre são as mais acertadas, mas são lógicas e guiadas pela emoção e não temos como dizer de maneira alguma que estão erradas, mesmo quando sabemos de antemão que as consequências podem não ser as melhores.

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Fitz é um personagem riquíssimo e cheio de nuances, que mesmo no pináculo da sua vida enquanto homem reserva ainda alguma da inocência que o caracterizou na juventude. Mas estar dentro da cabeça deste homem por vezes impede-nos de ver aquilo que as outras personagens vêem. Como, por exemplo, a forma como ele se julga severamente a si próprio, mais do que os demais alguma vez o fizeram. Porque ele foi moldado em valores como a lealdade e a dedicação ao próximo, e é isso que o enobrece.

“A Demanda do Bobo é mais um exemplo vívido de que Robin Hobb é uma das melhores escritoras do nosso tempo, e não só no género fantástico.”

Nada disto teria valor sem a prosa elegantíssima de Robin Hobb. A bagagem literária da autora é venerável, sem deixar de ser acessível em toda a sua largura. A cada parágrafo lido, ficamos cada vez mais com a certeza que estamos perante mais do que uma escritora competente. Estamos perante uma mulher experiente, dotada de conhecimentos e de uma gentileza que pouco se vêem neste tipo de literatura.

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Se não leste nenhum volume da Saga Assassino e o Bobo, recomendo que fiques por aqui. Os parágrafos seguintes contêm spoilers dos volumes anteriores.

Começamos A Demanda do Bobo no Castelo de Torre do Cervo, onde Fitz finalmente foi reconhecido como primo do rei e príncipe, tanto pelo povo como pela Coroa. A identidade de Tomé Texugo ficou no passado, agora que toda a gente sabe quem ele é. Também a sua vida oculta como assassino parece ter ficado para trás. Chegou a hora de lhe ser dada justiça, bem como a paz que tanto lhe escapou ao longo da vida.

Tudo isto seria bonito se não lhe tivessem raptado a filha, a pequena Abelha. Uma composição variegada de Servos, os mesmos profetas brancos vindos de Clerres que torturaram o Bobo até quase à morte e de mercenários calcedinos, liderados por Ellik, um duque renegado de Calcede. Os Servos acreditam que a filha de Fitz e Moli é o Filho Inesperado do Bobo de que falavam as profecias, e raptaram-na com o propósito de a levar para a Ilha Branca de Clerres.

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Pelo caminho, deixaram uma esteira de destruição. Vindeliar, um Servo flácido e gordo, aparentemente apalermado mas ainda assim o mais poderoso, incute em todos aqueles por quem passa o esquecimento do que viram, roubando-lhes o ânimo para reagir. Dwalia é a líder do grupo. Floresta Mirrada tornou-se um mundo de sombras após a sua incursão, com muitos empregados mortos, outros estropiados e violados pelos calcedinos. Abelha e Expressiva, a filha de Breu, foram raptadas. E enquanto viver, Fitz não descansará até as recuperar.

“Porque ele foi moldado em valores como a lealdade e a dedicação ao próximo, e é isso que o enobrece.”

Mas Breu está doente. Após a traição dos Remexidos, a companhia fracturada que traiu Fitz e Breu no regresso a casa, o velho mentor de Fitz parece perder-se nas marés da magia conhecida como Talento, ao mesmo tempo que faz revelações incríveis sobre os filhos e começa a enublar-se numa velhice cada vez mais palpável. Por sua vez, o Bobo parece mais saudável, graças ao sangue de dragão que o jovem empregado chamado Cinza lhe aplicou. A sua visão, porém, tarda em regressar.

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Fitz sabe que, antes de se lançar em perseguição dos Servos e da sua filha, precisa fazer preparativos. Sabe que o Rei Respeitador não o deixará empreender essa jornada de livre e espontânea vontade, e sabe que qualquer atitude irrefletida deixará a sua filha Urtiga desiludida consigo. Fitz tem muito trabalho a fazer antes de procurar dar azo aos seus planos. Mas também sabe que não tem tempo a perder. Cada hora, cada minuto, cada segundo podem ser determinantes para a sobrevivência de Abelha.

É por isso que encarrega Rapoluva, uma velha militar de Torre do Cervo, a liderar a sua guarda pessoal. Enquanto avança nos seus preparativos, certo de que terá que deixar Bobo para trás, ainda que este esteja determinado em segui-lo, Fitz conhece Centelha, uma jovem criada que sempre conheceu com uma outra identidade, ao mesmo tempo que recebe os regressados de Floresta Mirrada com outros olhos. O sempre frívolo e irritante Lante nada fez para salvar o simplório Obtuso da jocosidade dos Remexidos remanescentes, como pouco fizera para lhe salvar a filha.

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Mas é com o Bobo, com Lante, com Centelha, com o moço de estrebaria Preserverança e com o corvo malhado Matizada que Fitz se lançará numa aventura através dos portais de Talento para reencontrar a filha. A sua determinação em avançar sozinho é tenaz, mas todos parecem igualmente determinados em frustrar-lhe os planos. Afinal, encontrar Abelha e vingá-la é tudo o que eles desejam.

“Cada hora, cada minuto, cada segundo podem ser determinantes para a sobrevivência de Abelha.”

Esta demanda é, porém, a fase menos brilhante do livro. Os instintos assassinos de Fitz contra os calcedinos, a sua sede amarga de encontrar a filha, os sentimentos de impotência, de falhanço, que vai coleccionando, são os momentos mais ricos de A Demanda do Bobo. E o amor de Urtiga, a lealdade incomensurável de Enigma, a mente nem sempre lúcida de Breu e a amizade sincera de Respeitador são marcas maravilhosas que este volume me deixa.

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Fonte: https://vernichtenalles.deviantart.com/art/Amber-8-711775103

Os melhores momentos, para mim, porém, são aqueles protagonizados por Kettricken. A história comum dela e de Fitz é incrível, e os momentos em que ambos estão juntos, mesmo que poucas ou nenhuma palavras sejam trocadas, são de uma sinergia maravilhosa. É difícil encontrar, na literatura, uma personagem tão carregada de emoções quanto Kettricken, mesmo que seja pouco o protagonismo que venha tendo na saga. O amor que sentem um pelo outro, nem romântico nem fraternal, deslumbra-me.

No miolo do livro estão os seus momentos mais emocionantes. A fase inicial irritou-me, porque prenunciava uma maior morosidade narrativa, mas uma reviravolta mudou tudo, e a fase final, embora enérgica e expectável, não me encantou tanto pela falta de propósito e pelo empolamento fantasioso que lhe acresceu. Ainda assim, é mais um dos livros brilhantes desta autora, e não tenho como lhe dar uma pontuação menor do que esta.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 9/10

O Reino dos Antigos:

Saga do Assassino (Saída de Emergência):

#1 Aprendiz de Assassino

#2 O Punhal do Assassino

#3 A Corte dos Traidores

#4 A Vingança do Assassino

#5 A Demanda do Visionário

Saga O Regresso do Assassino (Saída de Emergência):

#1 O Regresso do Assassino

#2 Os Dilemas do Assassino

#3 Sangue do Assassino

#4 A Jornada do Assassino

#5 Os Dragões do Assassino

Saga Assassino e o Bobo (Saída de Emergência):

#1 O Assassino do Bobo

#2 A Revelação do Bobo

#3 A Demanda do Bobo

#4 A Viagem do Assassino

#5 O Destino do Assassino

 

 

11 comentários em “Estive a Ler: A Demanda do Bobo, Saga Assassino e o Bobo #3

  1. Concordo muito com a critica mas iria um pouco mais além… A parte final do livro desiludiu-me um pouco… Cheguei a um ponto que não reconheci mais a história do fitz… Acredito que o arco de kelsingra tenha sido o mais fraco de todos os livros… Ainda assim espero que tenha o seu propósito na ultima parte da saga.
    Os dilemas pareceram um pouco arrastados ja desde o livro 1 e 2, e o facto de pensar que uma filha minha foi raptada,o tempo que levou ao fitz reagir nas diversas ocasioes, leva-me a questionar o quanto a autora tentou transformar este fitz de 60 anos num ancião. A falta de “sangue nos olhos”,de reação incomodou-me muito… Tão depressa fitz pensa na vingança como no momento a seguir esta a jantar com duques e a “perder” tempo na dipomacia…
    A falta de compaixao do rei também é outro ponto a relevar… Estamos a falar de uma prima (possivel herdeira) que foi raptada e está desaparecida e não há um exercito pronto para defender o legado visionário?
    Foi basicamente isto que me deixou algo desiludido com o a segunda parte no todo da saga.
    Espero sinceramente que tudo faça sentido no terceiro livro porque nao quero desapontar-me com a minha autora e personagem favoritos na provavel ultima saga.

    1. Olá Flávio. Obrigado pelo comentário.
      Sem dúvida que o arco de Kelsingra é o mais fraco, mas também acredito que venha a ter um propósito. Quanto à morosidade do rei e do Fitz, foi uma das coisas que mais me irritou, se bem que acho que a autora soube justificar bem o porquê. Vamos ver como isto continua.
      Abraço e boas leituras.

  2. Viva,

    Concordo com a observação do Flávio e parabéns pelo teu excelente comentário, também me surpreende o momento de Fitz com Kettricken…a parte de Kelsingra faria sentido se não estivéssemos a beira do final da saga, onde me parece que tudo será decidido de forma rápida como na primeira saga, mas vamos aguardar e gostei do final por deixar tudo em suspenso 🙂

    Abraço e boas leituras

    1. Faltam dois livros na nossa versão. Vamos ver.
      Obrigado pelo comentário 🙂

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