Estive a Ler: Má Raça


Oh Meu Deus. Foda-se! Meu Deus!

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO MÁ RAÇA (FORMATO BD)

Lançado em 2016 pela G Floy Studio, Má Raça é a versão nacional de Men of Wrath, uma violenta história auto-contida com argumento do famigerado Jason Aaron (Scalped, Southern Bastards, Os Malditos) e ilustrações de Ron Garney (Wolverine, Daredevil, Ultimate Spider-Man). Aaron, que começou a ser conhecido por Scalped, que criou para a Vertigo, trabalhou com Garney numa série de livros da Marvel. O bom entendimento entre os dois levou a que o escritor escrevesse uma história para Garney ilustrar, e o resultado foi este Má Raça.

Ron Garney tinha ganho já nome como ilustrador de grandes sagas de ação e de super-heróis, notabilizando-se particularmente pela sua fase como artista do Capitão América nos anos 90. Como se pode ler na nota de imprensa da editora, Garney viu aqui a hipótese de fazer um trabalho diferente daquele que tinha desenvolvido anteriormente, de apresentar um estilo original, mais negro, usando um traço mais forte e grosso, sendo da sua mão também a arte-final na maioria dos números da mini-série. Má Raça reúne os comics #1 a #5, originalmente publicado pela chancela editorial Icon da Marvel entre outubro de 2014 e fevereiro de 2015.

Fonte: G Floy

O que chama logo a atenção neste comic é a violência e a vivacidade das suas pranchas. A arte de Garney mescla o negro difuso e cheio de sombras com a cor e a lucidez característica dos melhores momentos da Marvel. Esta alternância de estilo poderia ter prejudicado o livro como um todo, mas pessoalmente agradou-me, acima de tudo porque ele soube quando usar um ou outro, casando na perfeição com os momentos de maior ou menor tensão visual.

“O álbum levanta uma série de questões, o porquê de rivalidades antigas e o porquê da intolerância entre membros da mesma família.”

Depois, temos o argumento de Jason Aaron. Não é preciso dizer muito sobre ele, até porque já conhecemos bem o seu trabalho de Southern Bastards e de Os Malditos. Se a série que narra a vida brusca e violenta no sul dos states me agradou bem mais do que o álbum pré-diluviano, a verdade é que Aaron esteve sempre à altura dos acontecimentos em qualquer das obras. Mais do que uma coerência ou linearidade a nível do argumento, é a violência quase astral, transmitida em poucas palavras, que distingue este autor da maioria.

MOW
Fonte: G Floy

Como tal, encontramos em Má Raça um trabalho de relevo, não só por unir um autor e um ilustrador dotados, como por eles se conseguirem encontrar ao melhor nível. Má Raça não tem um argumento fortíssimo e uma história que nos maravilhe. É um volume único, pegando numa premissa simples e desenvolvendo-a de forma visceral e desumana, chamando a nós as nossas noções de família, fazendo os nossos corações acelerarem no peito com a necessidade premente de perceber como irá acabar aquilo, sabendo já de antemão que não acabará bem.

A ideia original para Men of Wrath nasceu duma história da minha família. O meu trisavô matou mesmo um tipo à facada, numa discussão por causa dumas ovelhas. E essa é a cena que abre este livro. E o meu bisavô, o filho dele, morreu mesmo de raiva. São essas as raízes camponesas que inspiraram a criação da família Rath e este livro, e a história de ciclos de violência que ele conta. Pode não ter sido um homicídio a sangue-frio, mas é o que desencadeia tudo e, a partir daí, a bola começa a rolar e as coisas vão piorando de geração para geração, até culminarem no dia de hoje. – Jason Aaron

Em Má Raça, somos apresentados uma família disfuncional, os Rath, conhecidos pelas suas características desafiadoras e violentas. As suas histórias terminam sempre em mortes e tragédias desde os inícios do século XX, quando uma rixa por causa de umas ovelhas terminou num homicídio. Ira Rath, um implacável assassino profissional, aceita uma missão, sem imaginar aquilo que teria de enfrentar. Dilacerado por um cancro, para Ira não há travões morais. Para Ira, valerá tudo.  Mas Ira não é o último dos Rath, e quando alguém se determina a defender uma mulher grávida, tudo pode acontecer.

Fonte: G Floy

O álbum levanta uma série de questões, o porquê de rivalidades antigas e o porquê da intolerância entre membros da mesma família. O ódio que destilam é palpável e visceral, a frivolidade dos acontecimentos impressiona e procura encontrar lógica num mundo em que há uma total ausência de amor. A indiferença de Ira contrasta com a sua debilidade física e mental, ao mesmo tempo que conhecemos mais das outras personagens e nos perguntamos até que ponto são elas tão diferentes umas das outras.

A panóplia de traços bem executados por Garney é um contraste vívido e honesto de uma família erodida pela falta de amor, ao mesmo tempo que nos apresenta momentos visuais de grande impacto tanto físico como psicológico, com cenas de esfaqueamentos, lutas e sexo a sucederem-se de forma fluída e bem distribuída. No fim, fica a pergunta se a maldade é mesmo uma questão de sangue. Recomendadíssimo. 

Avaliação: 8/10

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