Estive a Ler: O Gigante Enterrado


Talvez tivesse havido um tempo em que tivessem vivido mais perto do fogo, na companhia dos filhos.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO O GIGANTE ENTERRADO

Vendedor do Prémio Nobel da Literatura de 2017, Kazuo Ishiguro é um autor japonês que vive em Inglaterra desde os cinco anos e que já escreveu uma variedade de romances, contos e argumentos para cinema, tendo vencido o Booker Prize em 1989 com a sua magnum opus Os Despojos do Dia, tendo sido nomeado para o mesmo prémio com outros dos seus romances.

Em 1995, Ishiguro foi feito Oficial da Ordem do Império Britânico, por serviços prestados à literatura, e em 1988 recebeu a condecoração honorífica francesa de Chevalier de L’Ordre des Arts et des Lettres. A sua obra foi traduzida em mais de 28 países e o mais recente dos seus livros é precisamente O Gigante Enterrado, publicado em 2015. Em Portugal, foi publicado pela Gradiva, com um total de 412 páginas.

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Fonte: http://flavorwire.com/610422/kazuo-ishiguro-is-this-years-nobel-prize-winner-for-literature

A ação do livro acontece num passado longínquo, numa Bretanha macerada pelas guerras entre saxões e bretões.  Axl e Beatrice são um casal de idosos que vive numa gruta profunda, numa comunidade que não gosta muito de falar do passado, até porque ninguém se lembra muito bem dele. Certo dia, o casal decide que devem procurar o filho que não vêem há muito tempo, do qual não se recordam da voz nem do rosto, nem se recordam sequer de ele ter ido embora. 

“Os momentos de maior aflição e suspense foram resolvidos de forma simplista, e as descrições de combates rapidíssimas e bem infantis.”

Esse esquecimento é provocado por uma névoa que paira no ar. E as dúvidas são permanentes nas mentes de Axl e Beatrice. Eles não sabem o que foram ou o que são, se tiveram sequer filhos ou porque estão tão longe, eles perguntam-se se o amor que sentem acabará por definhar com o esquecimento ou se é a ausência de memórias que o torna tão forte. Estas questões provocam uma incerteza e uma dualidade permanente nos seus avanços.

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Fonte: http://catalogorbca.cm-arganil.pt/Pacwebv3/SearchResultDetail.aspx?MFN=161615&pageformat=np405

Mas eles decidem ir ao encontro do seu filho, e iniciam então uma demanda que os leva a cruzar-se com outras personagens, do guerreiro saxão Wistan ao jovem Edwin e a Sir Gawain, cavaleiro do Rei Artur. Porém, são muitas as criaturas com quem se deparam ao longo do seu trajeto, de fadas a ogres, de gigantes a dragões, todo o tipo de seres imagináveis travam a sua marcha confusa rumo à aldeia do seu filho. E à medida que avançam, constatam o quanto o seu amor é genuíno e forte, não obstante as dúvidas e as adversidades.

Na altura em que foi publicado, O Gigante Enterrado suscitou uma enorme polémica quando Kazuo Ishiguro, enveredando pela primeira vez na literatura fantástica, afirmou que o livro não pertencia ao género. Muitas vozes apoiaram essa ideia, realçando que era um livro introspetivo e alegórico, com uma mensagem profunda sobre a humanidade que há em nós. Possivelmente, tanto o Kazuo como essas vozes nunca foram leitores de boa literatura fantástica. Poucos são os livros bons, dentro do género, que não tragam esse tipo de profundidade.

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Fonte: http://robertfrankhunter.com/work/the-buried-giant/

O Gigante Enterrado é, claramente, um livro de fantasia. E dos mais tradicionais, até um pouco fraco se pensarmos que foi já escrito nesta década. Antes de mais, devo dizer que os primeiros capítulos e o último valem por todo o livro. Sufocante e até opressivo, este livro acaba por ser uma bela história de amor que nos obriga a reflectir sobre a importância das memórias, sobre o quão de bom ou de mau elas nos podem trazer. E há uma cumplicidade enternecedora entre os dois protagonistas.

“E à medida que avançam, constatam o quanto o seu amor é genuíno e forte, não obstante as dúvidas e as adversidades.”

Ishiguro aborda o significado e importância da memória individual e da memória coletiva, obrigando-nos a parar, a parar de nos preocupar com o destino das personagens e convidando-nos a olhar para o passado, a descortinar o que foi daqueles dois e quem foram eles, afinal.

O Gigante Enterrado é um livro de fantasia tépido. Magistral na mensagem, no desenvolvimento de relações, no convite à reflexão. Fraquíssimo na abordagem, no desenvolvimento da trama, no circuito narrativo. Axl e Beatrice revelaram-se duas personagens incríveis, mas as suas aventuras foram sempre muito aleatórias e os encontros que se sucederam não enriqueceram em nada a narrativa. Os momentos de maior aflição e suspense foram resolvidos de forma simplista, e as descrições de combates rapidíssimas e bem infantis.

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Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=BAj_JE5BqKo

Talvez, desta forma, o autor quisesse agradar a miúdos e graúdos, mas sempre ouvi dizer que não se consegue agradar a gregos e troianos e a mim, sinceramente, não me agradou muito, como um todo. Senti-me extremamente aborrecido em algumas passagens, senti-me subestimado e até “gozado” em outras, e seguramente que não vejo neste livro uma clara noção do porquê de Ishiguro ter vencido o Nobel.

Mas cabe-me ser totalmente sincero, e se a grande maioria do livro me desagradou, aquela mensagem sobre as memórias fez-me reflectir e a relação entre Axl e Beatrice fez-me sorrir. E é o final do livro que me faz dar-lhe uma nota positiva. Adorei a conclusão. A verdade sobre o passado do casal, sobre o seu filho, as decisões a que eles chegaram. A dor e a cumplicidade dos dois velhos. E a forma como Ishiguro conclui a jornada. Sim, vale a pena ler aquela tortura de encontros pouco convincentes para chegar a este final maravilhoso. 

Avaliação: 6/10

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