Estive a Ler: A Companhia Negra, As Crónicas da Companhia Negra #1


Cavalgando as correntes de ar, chegou uma horda de coisas com asas coriáceas, serpentes voadoras do tamanho do braço de um homem.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO “A COMPANHIA NEGRA”, PRIMEIRO VOLUME DA SÉRIE AS CRÓNICAS DA COMPANHIA NEGRA

Publicado originalmente em 1984, A Companhia Negra é o primeiro volume da série homónima do americano Glen Cook, também considerado o pai do grimdark ou dark fantasy, e um dos nomes mais citados no cada vez mais amplo catálogo de autores que se afastam do maniqueísmo tradicional do género fantástico, para apostarem nos ambientes mais densos e sombrios, onde a moral é continuamente posta à prova, muito por conta da violência e ambiguidade das suas personagens.

Cook frequentou a Marinha norte-americana, tendo-se formado em psicologia na Universidade do Missouri. O amor pela escrita tornou-se uma realidade quando trabalhava na General Motors, numa fábrica de montagem de carros, que segundo o próprio era “um trabalho difícil de aprender, mas não envolvia quase nenhum esforço mental”. Ainda por publicar em Portugal, A Companhia Negra é fonte de inspiração para vários dos autores modernos. Li a versão brasileira da Record, com tradução de Edmo Suassuna e um total de 308 páginas.

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Fonte: https://sielgaudys.deviantart.com/favourites/61952744/Black-Company

Numa determinada entrevista, Glen Cook disse que os seus livros não glorificavam a guerra, apenas mostravam pessoas a fazer o seu trabalho. Recentemente, ouvi o autor Steven Erikson a dizer: não há nada para glorificar na guerra. Talvez por isso ele tenha seguido as pisadas de Cook. Talvez por isso também Erikson se limite a mostrar pessoas a fazer o seu trabalho, seja ele limpo ou sujo, seja o final a vitória ou a derrota. Com muito mais frequência, a derrota.

“E em A Companhia Negra, conhecemos o lado mais escuro de uma das facções. As restantes não passam de pano de fundo, nem temos que nos preocupar com elas.

É do conhecimento público que o Império Malazano de Erikson foi inspirado em parte nos jogos de RPG, em parte nos livros de Glen Cook, e ao ler este livro percebi perfeitamente o porquê. Na companhia de mercenários que dá título ao livro, revejo os Queimadores de Pontes de Erikson, bem como a Imperatriz Laseen me parece francamente inspirada nesta Dama. Este é daqueles casos em que o pupilo supera a referência, porque Malazan é seguramente melhor, mas bem, esta Companhia Negra é também qualquer coisa de muito bom.

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Fonte: http://www.record.com.br/livro_sinopse.asp?id_livro=26266

Quando ouvi maravilhas dos novos autores de dark fantasy como Mark Lawrence e Joe Abercrombie, foi com a expectativa de encontrar algo real, sombrio e sujo que parti para a leitura. E nenhum deles me convenceu, porque o que eu esperava encontrar com eles, só vim realmente encontrar aqui com Glen Cook, por acaso considerado um dos percursores deste género mais negro da literatura de fantasia.

O livro acabou por perder um pouco o interesse para mim na parte final, mas todo ele foi muito bem construído, sem perder tempo em detalhes ou em descrições, sem heróis típicos nem explicações detalhadas do passado. A escrita de Cook é agradável, sem floreados, passando muito pelo diálogo e pelo humor, sem esquecer o dramatismo que a vida que as personagens levam obriga.

Somos atirados para o presente e somos obrigados a jogar com isso, com as maquinações de um grupo de vilões que de vez em quando é acometido por rebates de consciência mas é só, até porque, como ali é dito, os heróis das histórias normalmente são aqueles que vencem. E em A Companhia Negra, conhecemos o lado mais escuro de uma das facções. As restantes não passam de pano de fundo, nem temos que nos preocupar com elas.

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Fonte: https://www.scifinow.co.uk/news/the-black-company-by-glen-cook-is-getting-its-own-tv-series/

Apesar de pouco complexo, A Companhia Negra usa e abusa de um tom seco e de termos de camaradagem militar, uma aspereza costumeira em quem vive no meio de toda a espécie de gente… e de porcaria. Os capítulos têm o nome de uma personagem que, não sendo o narrador, sabemos de antemão que terá grande importância naquela secção. Toda a história é contada em primeira pessoa por Chagas, o médico e historiador da Companhia, e talvez por isso seja aquele com quem é mais fácil simpatizar.

“Mas para esta Dama não lhe bastam os seus incontáveis exércitos nem feiticeiros terríveis.

A premissa tem o seu quê de tradicional. Em tempos imemoriais havia um casal de dark lords, o Dominador e a Dama. Por uma qualquer razão que não vou contar, eles foram adormecidos em tumbas e um “reino de paz” durou por centenas de anos. Mas o cessar da Dominação não durou para sempre. A Dama, uma feiticeira terrível, senhora da escuridão, acordou do seu sono e tenciona reclamar todo o mundo livre para si. Seguem-na os Tomados, feiticeiros que foram submetidos a grandes torturas, que os tornaram uma espécie de zombies malignos capazes de grandes feitiços.

Mas para esta Dama não lhe bastam os seus incontáveis exércitos nem feiticeiros terríveis. Ela envia um dos seus Tomados mais poderosos, o Apanhador de Almas, para encetar um contrato com a Companhia Negra, sobejamente conhecida por honrar os seus acórdãos. Um grupo de mercenários sui-generis, a Companhia tem elementos bastante inusitados como o Capitão, o Sargento Elmo e os três magos Caolho, Duende e Calado, mas para além de Chagas, os que mais me agradaram foram Corvo e Lindinha, por tudo aquilo que representam, a dúvida na batalha, a esperança no futuro. E quiçá um motivo para a Rebelião.

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Fonte: https://www.reddit.com/r/DnD/comments/8m3bbr/art_oneeye_eldest_wizard_of_the_black_company/

Não gostei dos nomes das personagens, embora por vezes eles tenham contribuído para alguns momentos mais cómicos, bem como para os identificarmos mais facilmente. E não faço ideia porque os deuses que veneram provêm da mitologia egípcia, pelo menos os nomes. Também a relação que se estabeleceu entre o médico e a própria Dama não me agradou muito, preferia que ele mantivesse os seus sonhos… invioláveis. Apesar de não ter muitas cenas de descrição de batalha, até porque eles estão permanentemente em batalha e elas acabam por ser todas muito semelhantes, adorei aquelas que Glen Cook nos deu a conhecer.

Este acaba por ser o meu género de fantasia preferido, onde meio mundo está a tentar enganar o outro meio e vice-versa, onde impera a lei do mais forte e onde não se sabe bem em quem confiar. Ao mesmo tempo, e apesar da pouca descrição, Cook soube pintar muito bem as pequenas faces do seu mundo que nos permitiu conhecer neste primeiro volume, apesar de me ter parecido demasiado simplista no seu todo. Lamento que este clássico não esteja publicado em Portugal, porque seguramente continuarei a ler a saga, independentemente do idioma em que a encontre.

Avaliação: 8/10

As Crónicas da Companhia Negra (Record / Saída de Emergência):

#1 A Companhia Negra

#2 As Sombras Eternas

#3 A Rosa Branca

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