Estive a Ler: Fahrenheit 451


Quando a guerra terminar, talvez possamos ser de alguma valia para o mundo.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO FAHRENHEIT 451

Publicado pela primeira vez em 1953, Fahrenheit 451 é já considerado um clássico da Ficção Especulativa. A ideia original para o livro chegou à mente do autor norte-americano Ray Bradbury em 1947 com o conto “Bright Phoenix”, que só viria a ser publicado na revista The Magazine of Fantasy & Science Fiction de 1963. O conto original foi reformulado na novela “The Fireman”, e publicada na edição de fevereiro de 1951 da revista Galaxy Science Fiction.

Nome prolífico da literatura de Ficção Especulativa, Ray Bradbury (1920 – 2012) foi autor de inúmeros sucessos, entre os quais se contam Algo Maligno Vem Aí ou Crónicas Marcianas. Mas é unânime que Fahrenheit 451 é a sua obra maior, e o mesmo deve ter sentido Bradbury, ou não tivesse ele pedido para inscreverem na sua lápide: “Autor de Fahrenheit 451”. Em 2018 chega às livrarias portuguesas uma nova edição do livro, pelas mãos da Saída de Emergência, com tradução de Casimiro da Piedade e um total de 208 páginas.

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Fonte: https://www.engadget.com/2018/02/26/michael-b-jordan-burns-books-fahrenheit-451-trailer/

Nunca as minhas expectativas podiam imaginar aquilo que viria a encontrar neste livro. Em poucas páginas, Ray Bradbury faz não só uma crítica à sociedade, como transpira uma imensidão de pensamentos e de reflexões sobre nós próprios e sobre o nosso papel no mundo. Se pensarmos que Fahrenheit 451 foi escrito em meados do século passado, podemos considerar este livro como de certo modo profético, e é até assustador como o futuro pensado por Bradbury se encaixa no mundo em que vivemos.

“Ao mesmo tempo que convence com uma mensagem poderosa e com uma narrativa sedutora e bastante original para a época, Ray Bradbury maravilha também pela prosa, simples mas bonita.

O escritor norte-americano produziu uma ode à liberdade de pensamento e ao livre-arbítrio, ao mesmo tempo que nos faz refletir sobre o que significa ser-se social e ser-se livre. Estaremos nós presos aos estigmas e ao que a sociedade espera de nós? E até que ponto somos cegos em relação a isso? Uma das obras mais valorizadas no género, junto com 1984, Admirável Mundo Novo ou Laranja Mecânica, Fahrenheit 451 perspetiva um futuro distópico subversivo e castrador, onde pouco é o que parece.

Sem Título
Fonte: http://www.saidadeemergencia.com/produto/litfantastica-bang/ficcao-cientifica-o-202374/fahrenheit-451/

Somos apresentados a Guy Montag. Ele é um bombeiro. Mas há muito passou o tempo em que a função dos bombeiros passava por apagar fogos. Agora, as casas estão protegidas contra incêndios. O seu emprego consiste em destruir livros proibidos e as casas onde estão escondidos. Montag nunca parou para pensar na destruição que causou e no porquê, e ao fim do turno regressava sempre para a trivialidade da sua casa, onde a esposa Mildred passa o dia a ver televisão.

Mas tudo muda quando trava conhecimento com a sua vizinha Clarisse McClellan, uma rapariga excêntrica que é vista como antissocial por não partilhar das mesmas ideias fechadas de vida em sociedade que a maioria. Clarisse desperta-o para a liberdade da vida e para a liberdade do pensamento, para um passado em que os livros espelhavam as ideias dos homens e os faziam pensar. Mas é com o professor Faber que Montag abre o caminho para a rebelião, tornando-se ele mesmo um daqueles que deveria caçar.

Sob o olhar atento do capitão Beatty, Montag terá de saber lidar com uma vida sub-reptícia que não conseguirá manter por muito tempo, quando a sua própria esposa é o exemplo de uma sociedade focada nos mesmos programas televisivos, sem vida própria para além daquela que acompanha sem qualquer alma. O clássico de Ray Bradbury continua a ser um dos exemplos mais vívidos da literatura distópica e não deixa de surpreender pela sua visão profética e brilhantismo.

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Fonte: http://www.fantascienza.com/21181/hbo-prepara-il-nuovo-film-di-fahrenheit-451

O título, Fahrenheit 451, refere-se à escala de temperatura em que o livro arde na sua totalidade. Por curiosidade, Montag é uma marca de montagem de papel e Faber uma produtora de material de escritório. Pormenores que o autor revelou serem referências inconscientes durante a escrita do romance. Trata-se pois de um livro que nos aquece a alma e nos convida a lutar, juntos com Guy Montag, pela nossa vida própria, pela nossa existência enquanto indivíduos no mundo, por fugir às “obrigações” do quotidiano, para enfrentarmos juntos os cães mecânicos que as corporações impelem contra nós. Por aquilo que faz de nós humanos.

“Nunca as minhas expectativas podiam imaginar aquilo que viria a encontrar neste livro.

Se a vida no mundo de Fahrenheit 451 é tabulada por interesses governamentais, manietada por entidades superiores que aboliram a liberdade de pensamento e a livre posse de livros, a vida real acabou por tornar-se quase tão disruptiva quanto a obra, se pensarmos nos Big Brothers, nas telenovelas e nas redes sociais que nos dias de hoje nos “aprisionam”, não por leis corporativas mas pelo próprio livre-arbítrio. A vida real superou a ficção de uma forma bem “caricatural”.

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Fonte: https://www.cinemablend.com/television/1683290/the-first-look-at-hbos-fahrenheit-451-is-explosive

Ao mesmo tempo que convence com uma mensagem poderosa e com uma narrativa sedutora e bastante original para a época, Ray Bradbury maravilha também pela prosa, simples mas bonita. Sem perder tempo com minúcias descritivas, Bradbury situa-nos em locais e faz-nos observar acontecimentos com uma beleza espontânea, e consegue ser tão elegante a escrever quando nos mostra um evento aparatoso como ao recitar autores e ao falar de livros.

É este um dos traços que mais me empolgou em Fahrenheit 451. Ao ler Bradbury, sentimo-nos perante um autor que, ao invés de nos trazer a história para a frente dos nossos olhos, convida-nos a mergulhar nela, a extrair o sem-número de tonalidades que ela nos oferece. E para além de nos oferecer uma crítica ao mundo em que vivemos (sim, nos dias de hoje!), oferece também uma crítica a nós próprios, assim como uma narrativa com cabeça, tronco e membros que, mais que questionar consegue também entreter.

Avaliação: 9/10

2 comentários em “Estive a Ler: Fahrenheit 451

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