Estive a Ler: O Terror #2


Tu sonhas os meus sonhos? pergunta ela sem mover os lábios ou abrir a boca. Não falou em inglês. Estou a sonhar os teus?

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO O TERROR, VOLUME DOIS DE DOIS

Juntando fantasia, ficção científica e terror na grande maioria dos seus romances, o escritor norte-americano Dan Simmons viu o seu livro O Terror tornar-se uma das suas obras mais emblemáticas. O autor foi premiado como vencedor do World Fantasy Award em 1986 com A Canção de Kali, do Bram Stoker Award de 1989 com Carrion Comfort, do Hugo e do Locus Award pelo romance de ficção científica Hyperion em 1990, tendo vencido ainda o Locus em 93 com Children of the Night e em 2004 com Ilium.

O Terror foi publicado originalmente em janeiro de 2007 pela editora Little, Brown and Company. Em Portugal, o livro foi dividido em dois volumes pela editora Saída de Emergência, que o publicou em 2011. Com tradução de Ester Cortegano, o segundo volume tem um total de 400 páginas. Em 2018, devido à adaptação para série de TV pela produtora AMC (The Walking Dead, Into The Badlands), foram colocadas novas sobrecapas promocionais nos dois livros.

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Fonte: http://www.screencuisine.net/i-read-a-book/the-terror-by-dan-simmons/

Gostei mais do primeiro volume e achei este bastante arrastado, mas ainda assim gostei muito deste O Terror como um todo. Simmons absorve-nos com a sua capacidade de fazer sentir o sofrimento dos tripulantes do HMS Erebus e HMS Terror. Morte após morte, perda após perda, desgraça após desgraça, a moral dos homens desvanece-se e a própria permanência nos navios torna-se impossível. Resta-lhes o mar de gelo e a esperança vaga de um salvamento.

“Dan Simmons apaixona-nos com a narração coesa e vívida de um acontecimento fictício cosido a partir de factos reais.”

As personagens são excelentes. Dos protagonistas Crozier, cujos capítulos são de longe os melhores do livro, apesar de se tornarem cansativos nesta fase final, Irving, Goodsir, Blanky, Peglar e Hickey, aos não menos importantes Fitzjames, Senhora Silêncio ou Bridgens, todos eles deixam clara a aptidão de Simmons para dar carne e osso às suas criações, bem como para nos desconcertar com muito pouco.

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Fonte: http://www.saidadeemergencia.com/produto/terror-vol-2/

Após a morte de Franklin, Crozier tornou-se o comandante da expedição, com o capitão James Fitzjames a ficar com a liderança do Erebus, posição que já desempenhava na prática quando Sir John Franklin era vivo. As calamidades, a doença e a fome aproximam os dois homens, que inicialmente se haviam travado de razões, cada um com uma maneira particular de olhar para a gestão dos navios. Apesar de continuar a olhar para Fitzjames como o menino bonito da Marinha, Crozier começa a respeitá-lo e a estimá-lo, à medida que o vê a definhar.

Em 1848, os homens começam a sofrer as debilidades decorrentes do frio extremo e da falta de comida fresca. O monstro Tuunbaq continua a atacar. Com vista a animar a moral dos homens, Crozier deixou que organizassem um Carnaval de Veneza na passagem de ano, que terminou com mais uma aparição do monstro. Vários foram mortos, quer engolidos por ele, quer abatidos pelos fuzileiros quando estes o tentavam caçar. Dos quatro médicos da expedição, três pereceram, sobrando apenas Goodsir para a tarefa.

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Fonte: http://www.allocine.fr/personne/fichepersonne-134192/photos/detail/?cmediafile=21508553

Ofendido pelas representações teatrais do monstro bem como do falecido John Franklin, Crozier castiga com chibatadas o ajudante de calafate Cornelius Hickey e o seu amante, o gigante idiota Magnus Manson, o que fomenta a hostilidade deles. A partir daqui, fermentam os planos de motim por parte de Hickey, que se adensam à medida que as condições de permanência nos navios se tornam insustentáveis. Na primavera, o Erebus é esmagado no gelo e as tripulações rumam então à terra na Ilha do Rei Guilherme, tendo para isso que atravessar a banquisa.  

“Ele é tão hábil a narrar caminhadas sobre crostas de gelo como a enumerar os órgãos humanos de um morto.”

Depois de descartar uma tentativa de chegar ao lado oposto da Península de Boothia, Crozier e Fitzjames concluem que sua melhor esperança é levar os barcos salva-vidas de ambos os navios para sul rumo a um posto avançado no Great Slave Lake, uma árdua jornada de várias centenas de milhas, de forma a alcançarem mantimentos e esperarem por um salvamento. Porém, Hickey começa a fazer das suas. E o monstro no gelo também.

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Fonte: https://www.vanityfair.com/hollywood/2018/05/the-terror-series-finale-henry-goodsir-paul-ready-suicide

A intensidade na escrita de Dan Simmons é só comparável aos maiores mestres do género, se é que não o podemos desde logo enquadrar nessa categoria. Hyperion é uma das suas obras mais aclamadas, épico da ficção científica. Os terrores fantásticos de Simmons são excelentes motores para os seus livros, como este é prova. Todas as passagens em que surge Tuunbaq vêm acompanhadas por fenómenos violentos e o ritmo da narrativa aumenta, mas o verdadeiro horror está nos seres humanos, no que eles são capazes de fazer para sobreviver, no frio insano que queima, nas maleitas naturais como a malária, a icterícia e o escorbuto, no próprio desespero e na loucura.

Dan Simmons apaixona-nos com a narração coesa e vívida de um acontecimento fictício cosido a partir de factos reais. Todos aqueles homens existiram, todos eles morreram ali, mas ninguém sabe como, e Simmons descortinou uma bruxa esquimó e um urso gigante com um pescoço longo e cabeça triangular para conferir todo um contexto fantasioso, mas ainda assim real, palpável e convincente, àquele evento específico.

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Fonte: http://criticallaughs.com/the-terror-horrible-from-supper/

A sua escrita não tem nada de poético. É dura, crua, sem floreios nem subterfúgios. Ele é tão hábil a narrar caminhadas sobre crostas de gelo como a enumerar os órgãos humanos de um morto. E fá-lo com o mesmo compasso, direto e intenso. Por vezes tornou-se demasiado lento, por vezes demasiado denso, mas os bons momentos compensaram bastante aqueles em que te enfadonha. Assim que me sentia completamente aborrecido, voltava a experimentar o entusiasmo inicial com um evento mais imprevisível.

O Terror não é um livro que agradará a qualquer um. Tem passagens mais fantasiosas, apesar de ser extremamente fundamentado, real e verosímil, tem alguns termos mais técnicos e explicações da vida no gelo, que fazem parte desse mesmo trabalho de credibilidade por parte do autor, da virtude do mesmo e não o mero despejar de conceitos para mostrar que os sabe, e é longo, uma longa jornada de sobrevivência. Mas, um pouco por tudo isto, é também um livro muito bom.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 8/10

O Terror (Saída de Emergência)

#1 Volume 1

#2 Volume 2

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