Estive a Ler: Steampunk Internacional


Vem depressa. Achei uma maneira de vencer Deus.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA A ANTOLOGIA STEAMPUNK INTERNACIONAL

Steampunk Internacional é o fruto de um trabalho conjunto entre três editoras e três países em levar ao papel o melhor do género steampunk. A ideia nasceu em novembro de 2016, durante a Eurocon de Barcelona, quando o Pedro Cipriano da Editorial Divergência travou conhecimento com o Ian Whates da NewCon Press do Reino Unido e com a Jenni S. Meresmaa da Osuuskumma da Finlândia. Desde logo tiveram a certeza que queriam vir a trabalhar uns com os outros, embora não passasse de uma intenção vaga.

As boas relações mantiveram-se, à distância, até que a ideia veio a materializar-se após alguns debates de ideias. A Editorial Divergência e a Osuuskumma agarraram no projecto com unhas e dentes e a NewCon Press acabou por se sentir obrigada, no bom sentido, a abrir espaço na sua agenda apertada e a colaborar com o projeto. O resultado está numa antologia de teor steampunk que propõe ao leitor conhecer o melhor de três mundos com nove contos absolutamente originais.

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Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=QbDvmG3uqK8

A Editorial Divergência vira-se para o mercado internacional com uma antologia publicada em três países e contos de autores portugueses, britânicos e finlandeses, todos enquadrados no género steampunk. E se a Finlândia apostou em três nomes já com trabalho feito no género, o Reino Unido encaixou um autor emergente, que se trata da colaboração entre pai e filha, a dois autores já conhecidos no meio. Os três contos portugueses são de autores que dispensam apresentações no meio. Falo de Anton Stark, Diana Pinguicha e o próprio Pedro Cipriano.

“Steampunk Internacional é mais um maravilhoso trabalho que merece ser lido e reconhecido.”

Comecemos por falar dos contos finlandeses, que abrem a antologia. Pessoalmente foram dos meus preferidos, embora possa dizer que todos os nove contos da antologia estão extremamente equilibrados em qualidade e intenção. O Chapéu Cilíndrico de Anne Leinonen é uma divertida história sobre um chapéu de cartola com mecanismos robóticos no seu interior que não dá lá muito boa sorte a quem o coloca na cabeça. Siiri, a protagonista, terá um romance só seu, que será publicado na Finlândia.

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Fonte: http://divergencia.pt

J. S. Meresmaa, editora da Osuuskumma Publishind envolvida no projeto, autora de vários romances e com mais de vinte contos em antologias, já foi nomeada para vários prémios na Finlândia e trouxe-nos um conto da sua autoria. Augustine é um dos melhores textos desta colectânea. Passada numa Paris alternativa do séc. XIX, a história fala-nos de uma jovem com problemas de audição com talento para a mecânica, mas que vive obliterada pela ganância corporativa de um tio que espera que ela tenha idade para lhe pôr as mãos na herança. Extremamente envolvente e bem desenvolvido.

O último conto finlandês é Isaac, O Homem Alado, de Magdalena Hai, mais conhecida na Finlândia pela sua trilogia steampunk Gigi & Henry, passada no mesmo mundo alternativo que este conto. A sua obra mescla as três áreas da Ficção Especulativa e nesta história protagonizada por uma rapariga conhecida como Monorelha, apresenta-nos um mundo incrível de gangues e luta contra o poder, mas também de grande evolução tecnológica. A premissa é excelente embora por vezes o conto tenha-se tornado um pouco confuso.

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Fonte: http://divergencia.pt

Os contos do Reino Unido começaram com aquele que foi o que menos gostei nesta antologia. Derry O’Dowd é a parceria entre Katy O’Dowd, autora emergente no campo do steampunk com vários trabalhos na área do jornalismo, e o seu pai Michael, ginecologista-obstetra. O conto narra o jantar que deu origem a descobertas importantes na área da obstetrícia, nomeadamente a introdução da anestesia no parto. Ainda assim, foi um conto algo aborrecido, completamente focado em diálogos de teor científico sobre os meandros púbicos da mulher.

“O resultado está numa antologia de teor steampunk que propõe ao leitor conhecer o melhor de três mundos com nove contos absolutamente originais.

Em contrapartida, Quatro Estações de Wither foi um dos que mais me empolgou. Trata-se de uma investigação policial em torno de um psicopata enlouquecido que se emulou por alguma estranha razão. Maurice Newbury sente que algum pormenor lhe escapou e demora quatro estações até compreender as razões que levaram à morte de Alfred Wither. O conto foi escrito por George Mann, escritor best-seller do Sunday Times que já contribuiu para histórias de Doctor Who e Tartarugas Ninja, tendo também escrito uma série protagonizada pelo detetive deste conto, Newbury & Hobbes.

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Fonte: http://divergencia.pt/loja/steampunk-internacional/

Quem também escreveu Doctor Who, bem como Tartarugas Ninja e Robin Hood foi Jonathan Green, autor já com mais de setenta livros publicados, entre eles a saga steampunk Pax Britannia, mundo em que se insere este seu conto Engenharia Imprudente. O conto tem o melhor que o steampunk pode oferecer, de autónomos a comboios a ganhar vida, perseguições e um ritmo elevadíssimo, mas ainda assim não me prendeu. Acabei por não me sentir em nenhum momento ligado à história.

E a participação portuguesa não podia começar sem um conto do autor de Prelúdio, o primeiro romance steampunk português. Falo de Anton Stark, que nos trouxe um dos melhores contos da antologia, embora pequeno em tamanho, Videri Quam Esse. Num Portugal alternativo, o rei D. Manuel mandou vir da Índia um rinoceronte, que prometera ao próprio Papa. Porém, o rinoceronte chegou ao nosso país morto e cabe a Garcia, o camareiro do Rei, recorrer às tecnologias mais avançadas para fazer ressuscitar o pobre do rinoceronte, ou as boas graças de D. Manuel junto do Papa poderão ficar em cheque.

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Fonte: https://www.pinterest.ph/pin/416723771754143082/

Diana Pinguicha, criadora de jogos e escritora nacional, trouxe-nos Coração de Pedra, um conto de grande ritmo, com vários traços de steampunk e ficção científica, autómatos, clones e híbridos, e um mundo à beira do fim. Tal como o conto do Jonathan Green, acabou por não conseguir fazer-me chegar nenhuma emoção nem ligação às personagens.

“Foram nove contos extremamente equilibrados

E a antologia termina com um conto do Pedro Cipriano. Já tinha lido A Aranha em inglês, e gostei bastante deste Portugal alternativo em que estamos divididos entre a República de Lisboa e a Monarquia do Norte. Passado no Porto, acompanhamos uma espia de múltiplos recursos chamada Ana, e à medida que avançamos descobrimos verdades escandalosas sobre a própria. Excelente conto steampunk que mostra que a Ficção Especulativa nacional é boa e recomenda-se. 

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Fonte: http://www.1zoom.me/pt/wallpaper/526174/z4383.5/

Foram nove contos extremamente equilibrados, como disse em cima. Souberam trazer o melhor steampunk destes três países com aqueles que são, muito provavelmente, os melhores autores do género na Finlândia, no Reino Unido e em Portugal. Destaco, por aquilo que me fizeram chegar, por premissa e desenvolvimento, o “Augustine” da J. S. Mereesma, o “Quatro Estações de Wither” do George Mann e o “Videri Quam Esse” do Anton Stark que foram, por esta ordem e só por coincidência ser um de cada país, os meus preferidos da antologia.

Este é o primeiro passo da Editorial Divergência fora de portas e só posso desejar que continuem a publicar histórias de qualidade com a frequência e a disponibilidade que têm feito até aqui. Não fossem estas pequenas editoras como a Divergência e a Imaginauta e o trabalho de autores de qualidade dentro da Ficção Especulativa made in Portugal não tinha lugar neste nosso país. Steampunk Internacional é mais um maravilhoso trabalho que merece ser lido e reconhecido.

Avaliação: 7/10

3 comentários em “Estive a Ler: Steampunk Internacional

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