Estive a Ler: Perdido Street Station, Bas-Lag #1


I have danced with the spider. I have cut a caper with the dancing mad god.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO “PERDIDO STREET STATION”, PRIMEIRO VOLUME DA SÉRIE BAS-LAG

China Miéville é um nome incontornável da ficção fantástica publicada neste século. Largamente elogiado por nomes como Ursula K. Le Guin ou Michael Moorcock, Miéville é um dos disseminadores do género new weird, que estimula o bizarro e explora temas sociais do nosso quotidiano em contextos de absoluta fantasia ou estranheza. Estranho é que um autor tão aclamado não tenha obras publicadas em Portugal. Perdido Street Station, publicada em 2000 pela Macmillan, é considerada por muitos como a sua obra maior, o primeiro volume de uma trilogia de livros independentes passados no mundo de Bas-Lag.

Bastante conhecido também pelas suas convicções políticas, sendo um acérrimo defensor do comunismo e estudante do marxismo, o autor britânico venceu vários prémios com este romance, entre eles o British Fantasy Society’s August Derleth Award em 2000, o Arthur C. Clarke Award em 2001, o Ignotus Award em 2002 e o Kurd Laßwitz Award em 2003. Em 2001 ganhou ainda o prémio escolha dos editores da Amazon. Perdido Street Station é um livro amplo em intenção e em matéria, com um total de 867 páginas.

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Fonte: https://www.spectator.co.uk/2016/03/is-china-mieville-becoming-a-bit-too-inscrutable/

Confesso que durante a leitura do livro tive sempre a intenção de lhe dar uma nota mais baixa. Afinal a leitura de Perdido Street Station nem sempre é fluída e somos “obrigados” a atravessar capítulos inteiros repletos de termos científicos que nem sempre conseguimos compreender, para além das descrições morosas dos recantos mais recônditos da cidade de New Crobuzon. Mas ao chegar ao fim, fico com a sensação que tudo aquilo que China Miéville incluiu no seu livro apenas o enriqueceu, contribuindo para que ele seja a maravilha literária que é. Um livro que nos oferece multiculturalidade, sexo, sujidade e sangue, política e teorias que misturam tecnologia e magia em larga escala. 

“A narrativa vive em permanentes arranques e paragens, mas chegas ao fim com um sentido de compreensão e de satisfação muito bom.”

Perdido é comummente visto como um livro de fantasia com traços de steampunk, cyberpunk, vaporpunk e noir, inspirado na Era Vitoriana. Mas com um cientista como protagonista e tantas minúcias científicas ao longo do livro, acabei por olhar para ele de uma ponta à outra como um livro de ficção científica, e para isso contribuiu a parafernália de espécies distintas e mutantes que permeiam o quotidiano citadino em que vive a ação deste livro. Por tudo isso, não consigo enquadrá-lo [pessoalmente falando] no género fantástico.

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Fonte: https://www.amazon.co.uk/Perdido-Street-Station-New-Crobuzon/dp/0330534238

New Crobuzon é o cenário de Perdido Street Station. Trata-se de uma cidade imensa, repleta de detalhes interessantes que nos remetem a cidades europeias no auge dos séculos XVIII ou XIX, tão grande em extensão como em habitantes. A cidade é atravessada por várias linhas férreas, tendo como eixo central a Perdido Street Station que dá título ao livro. É em New Crobuzon que a ação ocorre, revelando todos os seus pequenos bairros e quarteirões.

Isaac Dan der Grimnebulin é o personagem principal e aquele por quem mais torcemos ao longo da narrativa. Trata-se de um cientista com uma barriga “algo” proeminente e pele escura, humano. Ele vive uma vida relativamente tranquila em New Crobuzon, com contactos diretos e indiretos em vários meios da cidade e má fama na Universidade, de onde foi expulso e com quem criou uma inimizade visceral com o “reitor”. Ainda assim, Isaac sabe lidar com tudo isso, até ao dia em que um garuda lhe bate à porta. Que inconveniente!

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Fonte: https://www.reddit.com/r/ImaginaryTaverns/comments/60g6w9/perdido_street_station_hub_by_thomas_chamberlain/

Ora vejamos. O que é um garuda? É uma raça dos desertos que vive em Cymek, homens com características de ave de rapina, como bicos, penas e enormes asas na sua fisionomia. Este garuda chamado Yagharek, com um passado de guerreiro tipo gladiador, requisita os seus serviços. É que as asas foram-lhe arrancadas, e viver sem a possibilidade de voar é extremamente castrador para um garuda. Instigado não só pelo contrato aliciante como pela simpatia que desde logo nasce entre si e o humanóide, Isaac lança-se numa pesquisa frenética por uma solução que corrija o seu problema.

Yagharek é, ao mesmo tempo, a personagem mais misteriosa da história, ainda que o livro seja permeado por vários interlúdios que mostram os seus pensamentos na primeira pessoa, fazendo dele uma espécie de narrador. Esses interlúdios muitas vezes são também utilizados como pontes entre as diversas partes do livro, mostrando o que vai acontecendo nos intervalos. Ao mesmo tempo que o leitor se vincula à personagem, muito graças à escrita especialmente elegante de Miéville nessas passagens, vai querendo saber mais sobre ele e sobre o seu passado enigmático.

Mais uma Lin com o Yagharek!
Fonte: https://www.pinterest.pt/pin/153755774755415589/

Mas é Isaac quem vai meter mãos à obra e manobrar o leme da narrativa. Isaac viu a sua vida mudar drasticamente para melhor, depois de várias decepções e repúdios, quando conheceu Lin, uma escultora khepri de grande habilidade. Os khepri são uma raça humanóide com cabeça e asas de insecto, que criam todo o tipo de construções (especialmente casas mas também artes mais estéticas) com uma gosma que expelem da boca. Têm ainda pequenas pernas na cabeça e dentro dela possuem orgãos sexuais.

Isaac e Lin são amantes, uma vez que uma relação entre um humano e uma khepri não seria bem vista pela sociedade, e vivem em partes distintas da cidade, encontrando-se em segredo. Enquanto Isaac tem passado os últimos tempos envolvido em experiências que misturam ciência e taumaturgia, Lin é, ao mesmo tempo que vemos Isaac ser visitado por Yagharek, convidada para um trabalho de grande prestígio. Uma escultura à escala de um dos homens mais poderosos da cidade. Vale dizer que se trata de um mafioso da pior espécie, uma criatura com uma imensidão de caras, patas e apêndices conhecido como Mr. Motley.

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Fonte: http://justinoaksford.blogspot.com/2011/10/perdido-street-station.html

A mutação deste indivíduo está relacionada a uma técnica de refazer pessoas muito em voga na cidade, normalmente usada como coima ou penalização por algum acto menos lícito ou até mesmo para favorecimento de algum empregador. Por isso, é comum encontrar bois com duas patas, prostitutas com uma imensidão de tetas e vulvas, entre outras personificações igualmente bizarras. É aqui que verdadeiramente se entende este livro como verdadeiramente weird.

“… não consigo enquadrá-lo [pessoalmente falando] no género fantástico.”

Ora bem, Isaac e Lin aceitam os seus contratos e começam a trabalhar neles, com a diferença de que Isaac conta a Lin o que se passa e pede a sua ajuda, enquanto ela lhe esconde, por vergonha e precaução, a encomenda que aceitou. Rapidamente Isaac começa a ficar obcecado com espécies que tenham asas, e desde logo encomenda todo o tipo de exemplares para pesquisa, tendo em vista replicar as asas de Yagharek. Entre essas espécies encontram-se criaturas invulgares que fazem lembrar as gárgulas da série Gargoyles, não fossem eles uma espécie aviária com muito pouca inteligência.

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Fonte: https://www.pinterest.co.uk/pin/488077678350876290/

Isaac chega à conclusão que precisa replicar as asas do garuda, exatamente iguais às que lhe foram removidas, ou Yagharek nunca conseguirá voar. Por isso ruma ao reduto escondido dos garudas em New Crobuzon, mas nenhum deles parece propriamente receptivo a ser usado como cobaia pelo cientista, ainda que o suborno em questão seja apelativo. Assim sendo, Isaac precisa usar outros métodos, e entre os exemplares que Isaac encomenda para realizar os seus estudos, está uma larva alimentada por uma droga que resulta num grande pesadelo. Pesadelo esse que se torna uma ameaça não só para Isaac como para toda a cidade. Mais não posso contar, ou estragaria a vossa experiência.

Para além das espécies supracitadas, refiro ainda os bem-organizados (e pouco simpáticos!) homens-cato, ou os anfíbios vodyanoi, criaturas peganhentas que vivem nos canais e se desfazem em substâncias viscosas. Há ainda um homem louva-deus que terá uma participação pontual mas determinante na trama, já para não falar em mariposas gigantes que fazem parte do plot central da narrativa. A imaginação de China Miéville é extremamente fértil, e mais importante do que isso, soube levá-la à prática com maestria.

Algumas das trocentas raças de Bas-Lag
Fonte: https://www.pinterest.pt/aldoke12/perdido-street-station-appreciation-austin-d/

Outras personagens ganham suma importância ao longo da história. Falo dos amigos de Isaac, David e Lublamai, do seu contacto no mundo do crime, Lemuel Pigeon, a sua melhor amiga e confidente, a jornalista do Runagate Rampant Derkhan, ou o corrupto mayor da cidade, Bentham Rudgutter. Mas as grandes surpresas envolvem uma entidade aracnídea com dotes de poeta, chamada The Weaver, e uma ordem bem organizada de constructos mecânicos que usam um cadáver, movido artificialmente, para falar.

“A imaginação de China Miéville é extremamente fértil, e mais importante do que isso, soube levá-la à prática com maestria.

Misturando magia e ciência, China Miéville conseguiu ser credível em toda a sua largura, oferecendo-nos um cenário vitoriano com linhas de comboio e traços tipicamente alienígenas por todo o lado, mas rico em identidade, preocupando-se com os mínimos detalhes, emoções e sentimentos. É tão fácil identificarmo-nos com estas personagens “esquisitas” como é difícil seguir as suas linhas de ação sem nos sentirmos… perdidos. O que não é completamente mau. A complexidade da obra dá-lhe dimensão e força, ao mesmo tempo que a torna aquilo que realmente é. Grande. Em todos os sentidos.

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Fonte: https://www.deviantart.com/popicok/art/Isaac-and-Lin-sketch-517956032

Grande parte da obra tem também carga política. Não é preciso conhecer os ideais vincados do autor para ver retratado naquela cidade suja e corrupta muito do nosso mundo actual, vemos discriminação, desigualdades sociais, forças e minorias, e a forma prática com que os organismos corporativos esmagam os pequenos, as suas greves e manifestações.

O lado menos bom de China Miéville é a enormidade dos seus infodumps. Ainda assim, ele soube doseá-los relativamente bem ao longo da obra, e usou-se nesse âmbito do seu talento enquanto escritor. Se ele sabe ser extremamente direto, rápido e fluído em cenas de maior ação, sabe caprichar na prosa nos momentos mais morosos. Desse modo, até as passagens mais chatinhas tornaram-se extremamente agradáveis de se ler. A escrita do autor é muito boa, o que ajuda a familiarizar-te com a história.

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Fonte: https://www.pinterest.pt/pin/336362665889877072/

O primeiro terço do livro deixa-te bastante à deriva. Embora te possa agradar conhecer a singularidade daquela cidade e daquelas espécies, sentes que estás a ler sobre ideologias, sobre julgamentos sociais, quiçá um ensaio vívido sobre temas prementes da nossa cultura. Mas Miéville não quer apenas dar-te toda essa riqueza de conteúdo. Ele quer também entusiasmar-te e entreter-te, e então torna a narrativa frenética, uma luta contra o tempo para salvar a cidade e eliminar um mal terrível que ataca a esmo, sem olhar a quem.

A narrativa vive em permanentes arranques e paragens, mas chegas ao fim com um sentido de compreensão e de satisfação muito bom. Perdido Street Station consegue ainda inventar estratégias tecnológicas extremamente credíveis e bem explicadas, embora faça parte de um todo fictício muito bem cosido. Pessoalmente, foram as relações, a profundidade de personagens como Isaac, Lin, Derkhan e Yagharek, a par de uma construção de mundo vívida e original, que me fazem olhar para este livro como um dos melhores no que ao new weird diz respeito.

Avaliação: 9/10

Bas-Lag (Macmillan):

#1 Perdido Street Station

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