Estive a Ler: Nada Enfurece Mais Uma Mulher e Outros Contos de Mulheres Perigosas


Ouviu-se um troar de aprovação; as palavras já faziam parte do folclore. Talvez os adornos que tinham vindo com aquele pensamento não fossem necessários, fossem apenas o subproduto das obsessões e passatempos daquele grupo antes da Mudança… mas tudo aquilo resultava e ninguém iria refutar isso. Muito menos ela.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO NADA ENFURECE MAIS UMA MULHER E OUTROS CONTOS DE MULHERES PERIGOSAS

George R. R. Martin e Gardner Dozois são uma dupla famosa pelas suas antologias. Depois de Rogues, a Saída de Emergência trouxe até nós Dangerous Women, ambas divididas em dois volumes. Depois de ter publicado no ano passado a primeira parte, com o título Mulheres Perigosas, chega agora a continuação, Nada Enfurece Mais Uma Mulher e Outros Contos de Mulheres Perigosas, publicando-a no ano em que faleceu o prolífico Dozois.

Com tradução de Rui Azeredo e um total de 416 páginas, esta segunda parte inclui contos de Sherrilyn Kenyon, Robin Hobb e Diana Gabaldon, entre muitos outros. São dez contos que falam de personagens femininas fortes e dominadoras, pouco confiáveis. Dangerous Women traz até nós os melhores autores de ficção, da fantasia ao policial, passando pela ficção científica e o suspense.

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Fonte: https://www.geek.com/news/why-the-100-is-the-best-sci-fi-show-on-tv-1650357/

Nada Enfurece Mais Uma Mulher e Outros Contos de Mulheres Perigosas é mais um excelente adendo ao catálogo da Coleção Bang!. Confesso que esperava gostar menos desta segunda parte que da primeira, uma vez que conhecia melhor os autores que a compuseram. Falo de nomes como Brandon Sanderson, Joe Abercrombie ou o próprio George R. R. Martin, mas também de autores que me surpreenderam pela positiva, como Sam Sykes.

“Nada Enfurece Mais Uma Mulher e Outros Contos de Mulheres Perigosas é mais uma excelente antologia trazida até nós pela Saída de Emergência.”

Acabei por gostar de igual modo desta segunda metade. Os contos são bem diversos e é difícil que alguém goste de todos eles de igual forma, uma vez que eles permeiam vários géneros e gostos literários, mas após um início bem frustrante, acabou por me agradar bastante. Alguns contos, como aquele que escreveu a nossa bem conhecida e estimada Megan Lindholm, valem pelo todo.

mulheres
Fonte: http://www.saidadeemergencia.com/produto/nada-enfurece-mais-uma-mulher-e-outros-contos-de-mulheres-perigosas-oferta/

A antologia começa com A Canção de Nora de Cecelia Holland. É um conto de pendor histórico que nos apresenta a uma jovem frágil e sonhadora chamada Nora. Holland convida-nos a mapear aqueles personagens na história de Inglaterra, e assim que identificamos os Plantageneta, percebemos que a mulher perigosa do conto não é mais que Eleanor da Aquitânia. O conto começa bastante lento, e apesar de observar uma guinada importante a meio, acabei por não gostar da história.

Bombas de Jim Butcher é uma viagem ao mundo de Harry Dresden. O autor é famoso pela sua série Dresden Files, uma série de fantasia de grande sucesso. Confesso que tinha curiosidade em conhecer Dresden, mas ela estampou-se de encontro a uma parede ao ler este conto. Não só pelo SPOILER colossal que encontramos logo na introdução ao autor, como pela própria história. O conto protagonizado por Molly é ágil, bem humorado e bem executado, mas decididamente não faz o meu estilo e foi o único que me “obrigou” a saltar páginas.

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Fonte: https://www.deviantart.com/spyed/journal/The-Iron-Throne-is-DEVIOUS-385977986

Joe R. Landsdale traz-nos uma história perfeita para os amantes de Karate Kid ou Rocky Balboa. O título, Luta Livre com Jesus, fez-me imaginar um Jesus Cristo com um cinturão de wrestling à cintura, mas o conto fala de um jovem carente de uma figura paterna, cansado de ser humilhado nas ruas. O pintor que namora com a mãe está longe de ser o pai que almeja, mas tudo muda quando se torna amigo de um velho, que vem a descobrir ter sido X-Man, um lutador de wrestling. A mulher perigosa do conto apareceu apenas nos últimos parágrafos e a escrita de Landsdale é demasiado frívola, à americana, para o meu gosto.

“Alguns contos, como aquele que escreveu a nossa bem conhecida e estimada Megan Lindholm, valem pelo todo.

Vizinhos é um dos melhores contos desta antologia. A mulher incrível que conhecemos como Robin Hobb, Megan Lindholm, traz-nos uma história tocante sobre os problemas da velhice e os dilemas morais que pais e filhos, quando não netos, sentem na altura de perceber que está na hora de mudar de vida. Sarah Wilkins é uma senhora bastante independente, que não consegue lidar com as limitações cada vez mais graves da sua mente e se recusa determinantemente a ir para o lar.

Comecei por não gostar muito do conto, porque estava à espera de ler um conto de fantasia, uma vez que a capa “vende” uma história de Robin Hobb, o pseudónimo de fantasia da escritora, e porque a escrita dela aqui não me pareceu tão delicada e elegante quanto o habitual. Ainda assim, a narrativa em si ganhou-me. Megan consegue ser um doce e tocante em tudo o quanto põe as mãos, e aquele final deixou-me com um sorriso no rosto. E vontade de ler mais.

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Fonte: https://www.artstation.com/artwork/aEJgR

Ao mesmo nível esteve Segundo Arabesco, Muito Devagar. Nunca tinha ouvido falar sequer de Nancy Kress e parece ser uma autora já de renome. Gostei imenso da escrita e ainda mais da história. Trata-se de um conto pós-apocalíptico passado nas ruínas do mundo moderno, após se ter espalhado um vírus que tornou 95% das mulheres inférteis. Interessante, não? Como seria de esperar, as outras 5% tornaram-se preciosidades, e as mulheres são usadas numa espécie de haréns para os senhores das gangues.

O conto é protagonizado por uma idosa, com a função de Enfermeira de um destes grupos, que faz aquilo que é preciso para proteger as suas meninas, acompanhando-as desde a infância até à menstruação, altura em que começam a ser usadas para fins sexuais. Tudo vai bem por ali, até que um rapaz e uma rapariga descobrem o seu amor… pelo ballet. Um conto cuja aura faz lembrar Mad Max: Fury Road, e que retrata a superficialidade e a importância das pequenas coisas que temos de uma forma mais profunda do que parece à primeira vista.

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Fonte: https://www.deviantart.com/roryalice/art/Jamie-Fraser-Outlander-251725920

Diana Rowland apresenta Cidade Lázaro. É um conto escuro, com toques de policial e de noir, num mundo pós-apocalíptico. A cidade está entregue aos corruptos e à delinquência, e o protagonista é um exemplo disso mesmo. Ele é a mão que faz o trabalho sujo a um dos homens mais poderosos da cidade, atando pontas soltas e eliminando ervas daninhas. A sua consciência parece repentinamente mais sensível quando esse seu empregador se mostra interessado na stripper por quem está apaixonado. Mas se não fosse o rio que “fugiu” do sítio, ninguém diria que seria uma história futurista.

“Espero ler no próximo ano mais antologias deste género.”

Virgens é uma noveleta de Diana Gabaldon. A autora é sobejamente famosa pela sua série literária Outlander, que deu origem à série televisiva da Starz. Esta história é passada no universo literário de Outlander, mostrando uma versão mais jovem do seu protagonista, Jamie Fraser. Não é uma história que tenha muito de original, levando-nos a acompanhar dois jovens escoceses por uma França suja e promíscua na tentativa honesta de perderem a virgindade, mas é a minha história preferida da antologia.

Diana soube explorar bem a temática da mulher perigosa, embora ela não apareça de início. E apesar de ser a maior história do livro (grande mesmo!) acabou por ser a que li com maior voracidade, para o que contribuiu a escrita ágil da autora, os vários momentos de bom humor e a leveza dos diálogos. Perseguições, confusões em bordéis e a questão do judaísmo foram tópicos bem desenvolvidos pela autora. Nunca tinha lido nada de Diana Gabaldon e gostei imenso.

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Fonte: https://www.amazon.co.uk/Virgins-Outlander-Diana-Gabaldon/dp/1780896611

O conto de Sherrilyn Kenyon chama-se Nada Enfurece Mais Uma Mulher e é a história que dá título à antologia, embora não tenha compreendido o que este título tem a ver com o conto. Sherrilyn é considerada a rainha do paranormal, com vários grandes sucessos dentro do género, mas certamente que este conto não espelha a sua proficiência. Ele traz uma história cliché: a típica adolescente medium de ascendência indígena que, num passeio com os seus amigos arquetípicos, é obrigada a enfrentar o fantasma de um antepassado maléfico com desejo de vingança. E a escrita é fraca, chegando a ser extremamente infantil nos diálogos.

O Pronunciar da Desgraça é o conto de S. M. Stirling. Achei-o bastante interessante, introduzindo um mundo pós-apocalíptico que regrediu aos costumes celtas. Gostei muito da escrita, das personagens e da história em si, porém achei que perdeu demasiado tempo a “apresentar-nos ao mundo” e quase não saiu do mesmo sítio. Para além disso, acabei por não compreender onde estava a mulher perigosa do conto. Juro que não percebi!

Pat Cadigan trouxe-nos Cuidadoras, um thriller de contornos bem interessantes. Ele apresenta-nos duas irmãs com 15 anos de diferença, habituadas uma à outra, de quem cuidam o melhor que podem. Assistem sempre aos mesmos filmes e aos mesmos programas policiais, que começam a trazer pesadelos à mais nova. Assim como começam a perguntar-se se a sua mãe, entregue a um lar, estará verdadeiramente em segurança. Destaco o conto pela escrita, apesar de a história também me ter agradado.

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Fonte: https://imgflip.com/i/606mt

Nada Enfurece Mais Uma Mulher e Outros Contos de Mulheres Perigosas é mais uma excelente antologia trazida até nós pela Saída de Emergência. São dez contos bem diferentes em proposta e em execução, mas que acabam por nos fazer chegar o trabalho de autores que pouco ou nada conhecemos, ao mesmo tempo que nos brindam com mais uns pozinhos dos nossos autores de eleição.

Esta segunda parte de Dangerous Women destacou-se exatamente por me fazer conhecer nomes do meio que não conhecia. Destaco a noveleta “Virgens” de Diana Gabaldon e os contos “Vizinhos” de Megan Lindholm e “Segundo Arabesco, Muito Devagar” de Nancy Kress, como os meus preferidos. Espero ler no próximo ano mais antologias deste género. Sim, Saída de Emergência, estou a pensar em Book of Swords. Sabem que sim.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 7/10

Dangerous Women (Saída de Emergência):

#1 Mulheres Perigosas

#2 Nada Enfurece Mais Uma Mulher e Outros Contos de Mulheres Perigosas

 

 

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