Estive a Ler: The Fade Out: Crepúsculo em Hollywood


Aqui era mesmo assim. Algo no ar tornava mais fácil acreditarmos em mentiras.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO THE FADE OUT: CREPÚSCULO EM HOLLYWOOD (FORMATO BD)

The Fade Out é um policial noir passado na Hollywood de 1948 que a G Floy nos traz este verão numa edição integral. Trata-se de uma história misteriosa que acompanha a investigação de um homicídio, sendo também o mais ambicioso romance gráfico até à data de dois dos mestres da banda desenhada noir, Ed Brubaker e Sean Phillips, com a ajuda da célebre colorista Elizabeth Breitweiser, com quem já haviam trabalhado na trilogia Velvet.

Entre aspirantes a estrelas, guionistas desesperados, o medo do FBI e a histeria do McCartismo, os doze números da edição original estão coligidos numa edição de luxo, complementada por mais de 50 páginas de extras, arte e informação adicionais, num total de 400 páginas. Os extras do livro incluem os processos criativos dos artistas, do argumento às cores, bem como artigos sobre a Hollywood da época.

Fonte: G Floy Studio

Do Prefácio de Ed Brubaker:

“Em casa dos meus tios em Hollywood, havia uma prateleira com uma fila de livros encadernados a cabedal. Um dia, puxei um deles, e descobri que era um guião para um filme. Aquela prateleira só tinha guiões, um registo da carreira do meu tio em Hollywood. Eu era miúdo e não fazia ideia de como o meu tio, John Paxton, tinha sido importante. Tinha feito parte da Idade de Ouro de Hollywood, tinha sido nomeado para Óscares, e escreveu guiões para Ingrid Bergman e Marlon Brando. (…) Hollywood, naqueles anos do pós-Guerra foi uma das últimas corridas ao ouro da América. Muitos foram para lá, à procura de fama e fortuna, poucos tiveram sucesso. Os estúdios controlavam a vida dos actores, os magnatas mandavam em toda a gente, e os fixers usavam qualquer meio para conseguir manter o público completamente ignorante das verdadeiras vidas das estrelas. E nessa mistura já volátil entrou de repente um FBI paranóico e o House Un-American Activities Committee (Comité de Actividades Antiamericanas), para tornar tudo ainda pior.

É este o mundo em que a nossa história decorre – um mundo em que estrelas de cinema e guionistas e magnatas estavam aterrorizados com a possibilidade de perderem tudo, em que amigos se viravam contra amigos, onde jornalistas arruinavam carreiras, e guionistas desesperados denunciavam amigos, para poderem continuar a trabalhar, e onde argumentistas na lista negra só conseguiam ganhar a vida utilizando “testas-de-ferro” – escritores que não estavam na lista e que assinavam os guiões por eles. (…) O meu tio e a minha tia conheciam muitos homens e mulheres cujas vidas tinham sido destruídas por se recusarem a admitir as suas crenças políticas e pessoais, ou por se recusarem a denunciar outros por aquilo em que eles acreditavam.

Foi uma era muito negra em Hollywood, naquela Hollywood que criou o género do filme Noir, e espero que a achem tão fascinante e tão desoladora como eu acho.”

https://cld.pt/dl/download/9793b755-0a52-4109-9210-d8380b8dac82/The%20Fade%20Out/The_Fade_Out_cover_PT.jpg
Fonte: G Floy Studio

Acompanho o trabalho de Brubaker de Fatale (1) a Velvet (1, 2 e 3) e constato mais uma vez que é um argumentista incrível. Phillips não lhe fica atrás, sendo por isso uma parceria vitoriosa, autor e artista que casam na perfeição. Como tal, não podia deixar de ler aquela que é considerada a sua obra-prima, vencedor de um Eisner para Melhor Série. The Fade Out: Crepúsculo em Hollywood é um comic incrivelmente bem escrito e executado, revelando os meandros corruptos da Hollywood dos anos 40 a 50 do século passado, bem como da sociedade em geral.

“Uma BD dura, realista e incrível, de leitura compulsiva.

Mergulhamos de cabeça numa narrativa densa e impactante, tanto a nível de argumento como de imagem. A história está muito bem organizada, com as personagens e as ações dispostas no tabuleiro de uma forma tão casual que parece real. O tom é melancólico, mas somos apresentados a um grande mistério que é preciso resolver, sendo ainda presenteados com toques de humor e erotismo, nas suas facetas mais sórdidas.

Fonte: G Floy Studio

A história apresenta um filme noir que não consegue ser terminado, preso em filmagens que nunca acabam. Charlie Parish é o protagonista, um guionista atormentado pelo passado de guerra em Pearl Harbour que se vê arrastado para a morte misteriosa de uma jovem actriz que lhe era bastante próxima, Valeria Sommers.

As memórias daquela noite são esparsas e difusas e acaba por contar tudo o que aconteceu ao seu grande amigo Gil Mason, um escritor caído em desgraça pelos furos criativos, que aproveita aquela informação para tentar expor a podridão que é a indústria cinematográfica e aqueles que estão envolvidos nos círculos mais negros da sociedade.

Fonte: G Floy Studio

À medida que investiga os acontecimentos daquela noite, em que a morte de Sommers é dada como suicídio, Charlie é arrastado para os braços de Maya Silver, a bela atriz de passado duvidoso que a substituiu no papel que se encontrava a rodar. E há ainda um produtor e o seu chefe de segurança, capazes de fazer o que for preciso para manter as rodagens no ar, enquanto o Perigo Vermelho e a obstinada caça aos comunistas, as investigações do FBI e as listas negras começam a causar problemas reais à vida em Hollywood.

Não é por acaso que este é um dos melhores romances gráficos da banda-desenhada americana dos nossos dias.”

A principal característica deste álbum é a decadência e a inquietação, a ideia consistente de que o poder e a influência mandam em tudo e que, independentemente dos actos, os menos poderosos são pisados como moscas. As capas que o poder e os “amigos” oferecem conseguem encobrir quase tudo, nem que seja necessário atar pontas soltas a dados momentos.

Fonte: G Floy Studio

Se a história é poderosa, o que dizer da arte? Sean Phillips faz justiça ao argumento incrível de Ed Brubaker, apresentando imagens de teor frívolo e decadente, realçando as sombras, os detalhes, os copos, os cigarros, os jornais. E as mulheres, tantas e fantásticas que este livro nos oferece, extremamente bem desenhadas (o que dizer daquela Melba Mason? A descrição da personagem diz tudo). Não é por acaso que este é um dos melhores romances gráficos da banda-desenhada americana dos nossos dias.

É num mundo em que a mulher é atirada para o palco como uma peça de tabuleiro, um mero joguete de poder com a ilusão da fama, que The Fade Out: Crepúsculo em Hollywood ocorre. Um mundo em que a violência e a corrupção andam de mãos dadas, aliados aos maus hábitos, aos vícios, ao sexo, ao suor e ao sangue. Uma BD dura, realista e incrível, de leitura compulsiva. Imperdível!

Avaliação: 10/10

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