Estive a Ler: Mulheres de Cinza, As Areias do Imperador #1


A guerra é uma parteira: das entranhas do mundo faz emergir um outro mundo. Não o faz por cólera nem por qualquer sentimento. É a sua profissão: mergulha as mãos no Tempo, com a altivez de um peixe que pensa que ele é que faz despontar o mar.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO “MULHERES DE CINZA”, PRIMEIRO VOLUME DA SÉRIE AS AREIAS DO IMPERADOR

Mulheres de Cinza é o título do primeiro volume de As Areias do Imperador de Mia Couto, que se define na capa como uma trilogia moçambicana. Couto nasceu na Beira, em Moçambique, onde se notabilizou como biólogo, jornalista e sobretudo como escritor. Considerado um dos mais prolíficos autores africanos, está traduzido em mais de seis línguas e vendido para mais de vinte países. Terra Sonâmbula, o seu primeiro romance, é considerada a sua maior obra.

Mia Couto venceu vários prémios de destaque, entre os quais se destacam o Prémio Vergílio Ferreira em 1999, o Prémio Camões em 2013 e o Neustadt International Prize for Literature em 2014. Publicado em 2015, Mulheres de Cinza é um romance profundo que fala sobre a tangência entre os povos e os seus credos, numa época difícil para os moçambicanos como foi a da Guerra Colonial. Pela Editorial Caminho, Mulheres de Cinza tem 408 páginas.

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Fonte: https://24.sapo.pt/noticias/internacional/artigo/presenca-brasileira-em-mocambique-analisada-em-livro-com-entrevistas-a-lula-da-silva-e-mia-couto_19585219.html

Dono de uma prosa lindíssima, Mia Couto trespassa-nos com o seu mundo de teias, sensibilidades e sensações. Mulheres de Cinza põe a nu não só a inconstância de valores, a debilidade das certezas e o entrecruzar de culturas, como toda a profundidade da alma moçambicana, os pequenos detalhes que a tornam tão grandiosa. Um relato fictício de inspiração real que consegue tocar fundo nas nossas almas, fazendo-nos pensar naquilo que temos e naquilo que conhecemos como verdade. Faz-nos questionar as nossas próprias verdades.

“Mas é a interpretação dos nativos sobre a morte e todas as crenças que eles carregam a respeito, o que mais me maravilhou ao longo do livro.”

Através de dois pontos de vista, o de um português e de uma moçambicana, Mia Couto faz-nos viajar pelo passado multicultural que uniu Portugal e África, as crenças enraizadas das suas civilizações e a tentativa brutal de devorar crenças com a mesma veemência com que devoram terras. Essa aglutinação de território por parte dos portugueses entra em choque com as características fortíssimas da cultura moçambicana, que não se deixa aspirar por completo. Nos pequenos pormenores, Couto revela-nos a beleza de uma cultura que tanto nos esforçamos por apagar.

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Fonte: http://www.revistaestante.fnac.pt/mia-couto-tem-novo-livro-mulheres-de-cinza/

O imperador de que fala o título da trilogia é Ngungunyane, conhecido entre os portugueses como Gungunhane ou Leão de Gaza, que liderou o segundo maior império africano liderado por um nativo: o Império de Gaza, que hoje conhecemos como a metade sul de Moçambique. Na história que Mia Couto traz até nós, as povoações nativas desesperam pelos avanços cruéis de Ngungunyane, contando apenas com a protecção frágil dos portugueses ali destacados e com a esperança ténue de que a cavalaria de Mouzinho de Albuquerque chegue para os salvar. O imperador foi derrotado e deportado para o Açores em 1895, vindo a falecer em 1906.

O nome de Ngungunyane permaneceu como símbolo de várias glórias, e lendas e histórias foram criadas com base na sua personalidade. Existem versões que sugerem que não foram os ossos do imperador que voltaram dentro da sua urna, mas sim torrões de areia. A lenda dita que do grande adversário de Portugal restaram apenas areias colhidas em solo português, o que inspirou o título da série. As areias significam ainda, metaforicamente, os restos arruinados do seu Império. 

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Fonte: http://www.revistaestante.fnac.pt/mia-couto-tem-novo-livro-mulheres-de-cinza/

A ação do livro passa-se na Nkokolani de 1985, a aldeia natal de Imani. A jovem de 15 anos pertence à tribo VaChopi, uma das poucas que resiste ao imperador e conta com o apoio dos portugueses. Apesar da conversão, Imani guarda em si muito da sua cultura ancestral, nunca se tendo encontrado muito bem a si mesma. Desde logo, o nome que lhe deram mudou algumas vezes. Cinza foi um dos nomes por que fora batizada, mas acabou por ficar Imani, que significa “quem é?”.

“Nos pequenos pormenores, Couto revela-nos a beleza de uma cultura que tanto nos esforçamos por apagar.

Imani faz parte de uma família pouco feliz. Tsangatelo, o seu avô, virou as costas à família para ir trabalhar para as minas, onde refez a sua vida com outro homem. O pai, Katini Nsambe, entregou-se ao labor e ao vício do álcool. A mãe, Chikazi Makwakwa, parece ter sempre autoridade sobre o marido, apesar deste ser extremamente violento para com ela quando bebe. Imani tem ainda dois irmãos. O mais velho, Dubula, que parece o mais propenso da família a apoiar o imperador. E Mwanatu, um jovem retardado que é usado como moço de recados pelos portugueses. A chegada dos tios vem mexer ainda mais com este caldo fervilhante de crenças e ideologias.

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Fonte: https://www.pinterest.pt/pin/118430665181537825/

Por oposição, temos as cartas de Germano de Melo a D. José de Almeida, Conselheiro do Reino, que nos dão um ponto de vista menos poético e vívido dos acontecimentos, mas ainda assim emocionante e repleto de significados. Ele é o olhar dos portugueses para com a cultura dos nativos moçambicanos. A sua visão estóica vai-se aligeirando à medida que vive na comunidade de Nkokolani. O suicídio de um português a quem Germano tinha ordens de detenção, Francelino Sardinha, mexeu com o seu âmago, levando-o a trilhar uma jornada para compreender o fascínio que o homem possuía pelos locais.

A diferença entre a Guerra e a Paz é a seguinte: na Guerra, os pobres são os primeiros a serem mortos; na Paz, os pobres são os primeiros a morrer. Para nós, mulheres, há ainda uma outra diferença: na Guerra, passamos a ser violadas por quem não conhecemos.

Subordinado a personagens históricas como Ayres de Ornelas ou António Enes, e depois de uma temporada na pensão da bela italiana Bianca Marini, Germano aloja-se na cantina de Sardinha, que era também um quartel, e usa Mwanatu como seu moço de recados, ao mesmo tempo que utiliza a jovem Imani como intérprete. Rapidamente Germano começa a sentir um desejo intenso pela bela nativa, a que ela se esquiva com a sua enorme habilidade e inteligência. Também Imani se sente atraída pelo português, mas ao descobrir que ele a enganou e à sua família, tudo faz para o humilhar e desdenhar. É a morte e a guerra que a fazem repensar na vida como a conhecia.

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Fonte: https://www.dw.com/en/ngungunyane-the-king-against-portuguese-occupation/av-44009806

Adorei o livro no seu todo. Não só a escrita de Mia Couto é lindíssima, como nos faz reflectir imenso naquilo que temos e naquilo que damos como certo. Couto alia uma credibilidade histórica fortíssima, sem necessitar de grandes descrições, a uma espécie de fantasia de folclore, brincando com as tradições e conhecimentos daquele povo tão envolvente. Um homem que escava e escava debaixo da terra, cavalos que vêm dos céus, armas que trazem os gritos dos homens que mataram e um militar que contém moscas dentro dele são alguns exemplos desse lado mais fantasioso.

Mas é a interpretação dos nativos sobre a morte e todas as crenças que eles carregam a respeito, o que mais me maravilhou ao longo do livro. Mia Couto quase não descreve lugares ou personagens. Ele faz-nos senti-las. Através das emoções, do toque e dos cheiros, somos convidados a entrar num mundo profuso em crenças e em sentimentos, que um dia foi o nosso. Espero ler em breve o segundo volume desta maravilhosa trilogia moçambicana.

Avaliação: 9/10

As Areias do Imperador (Caminho):

#1 Mulheres de Cinza

#2 A Espada e A Azagaia

#3 O Bebedor de Horizontes

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