Estive a Ler: O Homem do Castelo Alto


Tagomi pronunciou de forma errada, e deliberada, o apelido de Childan: um insulto em conformidade com o Código, mas que pôs a arder o ouvido do lojista. Este gaguejou, sentindo a mão colar-se com suores frios ao auscultador do telefone; dentro da loja cheirava-lhe a malmequeres e o rádio continuava a tocar música, mas ele sentia-se como se estivesse a descer ao fundo do mar.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO O HOMEM DO CASTELO ALTO

Philip K. Dick é um dos mais incontornáveis autores de ficção científica do último século. Falecido em 1982, Dick foi um dos maiores exploradores do género, discutindo nas suas obras temas como política, filosofia, autoritarismo, realidades alternativas e estados alterados de consciência, tão bem quanto levou ao debate os mais variados problemas sociais. Entre os seus livros mais populares está este O Homem do Castelo Alto, muito embora a sua vastíssima obra tenha influenciado sucessos de cinema como Blade Runner, Minority Report ou Total Recall.

O Homem do Castelo Alto foi publicado em Portugal por várias vezes, tanto pela Relógio de Água como pela Saída de Emergência. A versão que me chegou às mãos data de 2015, com um total de 288 páginas e tradução de David Soares. Vencedor do Prémio Hugo, que veio dar credibilidade por parte das grandes editoras à obra de Dick, o livro foi lançado em 1962, ano em que é ambientado, quinze anos após o final da Segunda Guerra Mundial. O livro foi adaptado para série de televisão em 2015, pela Amazon Studios.

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Fonte: https://www.amazon.com/The-Man-High-Castle/dp/B00RSGFRY8

Com uma míriade de significados e de sugestões sub-reptícias, O Homem do Castelo Alto é uma obra intemporal. Ela é uma das obras maiores de Philip K. Dick, que nos trouxe os neons das ovelhas elétricas e as lembranças dos relatórios minoritários. Transcendente a classes sociais ou fronteiras, O Homem do Castelo Alto é uma distopia de História alternativa que nos leva a passear por um mundo que não existiu, de mãos dadas com personagens eloquentes e realistas e nos obriga a pensar no que seria se…

“É um livro bem estruturado que deixa uma marca indelével na esteira literária do que à Ficção Especulativa diz respeito.”

Com uma introdução de Nuno Rogeiro que nos deixa sequiosos por mais obras deste autor, a edição da Saída de Emergência é um primor de ostentação literária. Philip K. Dick é um mestre do género, e se O Homem do Castelo Alto não me apaixonou, longe disso, não deixa de ser uma leitura que acrescenta valor. Um livro pequeno e riquíssimo em paradoxos e em inspirações que nos convida a refletir sobre o “castelo” em que vivemos.

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Fonte: https://www.fnac.pt/O-Homem-do-Castelo-Alto-Philip-K-Dick/a863479

A obra apresenta um cenário sombrio, com o Eixo a vencer a Segunda Guerra Mundial. Ao reinventar a história do pós-guerra, Dick subverte o final do conflito com uma derrota aliada, apresentando o mundo que existiria caso o fascismo houvesse triunfado. Os Estados Unidos gravitam sob a influência da Alemanha e do Japão; uma metade dominada pelo Japão imperial, a outra pela Alemanha nazi. Na história, o presidente Roosevelt foi assassinado em 1933 por Giuseppe Zangara, sendo sucedido pelo Vice-Presidente John Garner, posteriormente substituído por John W. Bricker. Nenhum deles fora capaz de superar a Grande Depressão, o que causou uma grave problema para suportar os custos da guerra, impedindo os E.U.A. de ajudar o Reino Unido e a União Soviética contra o poderio nazi.

A Rússia foi também ocupada pelos nazis, enquanto os eslavos foram maioritariamente liquidados, com o seu remanescente escondido em reservas. Já a vitória do Japão em Pearl Harbor foi um passo capital para que os nipónicos conseguissem estender o seu domínio ao Hawai, Nova Zelândia e Austrália no início dos anos 40, o que contribuiu para a queda dos states nas mãos do Eixo. Com a Costa Leste sob o controlo dos alemães e os estados do Oregon, Washington, Nevada e California, por exemplo, por parte dos japoneses, várias regiões do Centro-Oeste e do Sudoeste tornaram-se território de debate entre alemães e japoneses pelo seu controlo. As querelas súbitas entre nazis e nipónicos despoletou uma guerra fria entre as duas potências.

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Fonte: https://www.hollywoodreporter.com/live-feed/man-high-castle-renewed-taps-new-showrunner-season-3-960304

Os judeus foram praticamente exterminados, o Mar Mediterrâneo foi drenado e um genocídio culminou na quase liquidação total dos africanos. O Reich, após a morte de Adolf Hitler por sífilis, foi parar às mãos de Martin Bormann, importante chefe do Parteikanzlei. Nesse mundo fictício, a Alemanha nazi desenvolveu grandes capacidades de exploração espacial, chegando a fazer viagens à Lua e a Marte.

“Um livro pequeno e riquíssimo em paradoxos e em inspirações que nos convida a refletir sobre o “castelo” em que vivemos.

É neste cenário conturbado que um homem escreve um livro chamado The Grasshopper Lies Heavy, que fala de um mundo em que os Aliados ganharam a guerra (o nosso), influenciado pelo I Ching, o Livro das Mudanças chinês que parece mover todas as personagens. No livro, o I Ching fora disseminado pelo Pacífico no desenrolar da expansão territorial japonesa. Várias personagens consultam-no para tomar decisões ao longo da história, como é caso de Hawthorne Abendsen, o autor do livro. Esse escritor torna-se assim um alvo a abater pelos nazis. Ele é o Homem do Castelo Alto.

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Fonte: http://duastorres.com.br/2017/01/high-castle-renovada/

A história gravita em torno de cinco personagens. São eles Nobusuke Tagomi, o representante do comércio japonês em São Francisco, Robert Childan, proprietário de uma loja que vende antiguidades americanas para colecionadores, Frank Frink, um judeu camuflado que foi empregado da empresa especializada na reprodução de objectos da época em que os Estados Unidos eram uma nação independente, a sua ex-mulher Juliana, uma professora de judo, e Mr. Baynes, um espião nazi disfarçado de industrial sueco.

Entre as personagens destacam-se Tagomi, pelo seu papel no mundo apresentado e pelos níveis de compreensão que ele alcança ao longo do livro, bem como pela experiência extra-dimensional em que ele “nos” encontra na fase final do livro, e Juliana. A vivacidade e espírito da personagem feminina do livro foram os bónus deste O Homem do Castelo Alto, a meu ver a personagem com a melhor construção de entre todos. Fiquei à espera de um encontro entre ela e Frank, mas não me desagradou que não tivesse ocorrido.

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Fonte: https://www.engadget.com/2015/12/18/amazon-the-man-in-the-high-castle-season-two/

As restantes personagens apresentadas acabaram por não me dizer muito. Há muito mérito de Dick nos debates ideológicos e políticos que fez florescer através dos diálogos e trapaças de Childan, Baynes e Frink, mas foram personagens que não me pareceram desenvolvidos ao ponto de criar qualquer relação empática com eles. A narrativa apresenta versões, ideias, pontos de vista, probabilidades de negócio e de política, mas não oferece uma história em si. Para além de alguns eventos de carácter global, não há grande diferença de ação entre o início e o fim do livro. Com exceção de Juliana e Tagomi, os restantes permanecem no mesmo ponto.

Foi por isso um livro que não me deslumbrou, nem em narrativa nem em prosa, mas compreendo o seu papel importante na História da ficção científica. O Homem do Castelo Alto está recheado de mensagens poderosas que são a sua mais-valia, uma roda de personagens, de ambições e de pensares que estão invariavelmente ligados uns aos outros, numa teia bem amarrada e extremamente bem executada. É um livro bem estruturado que deixa uma marca indelével na esteira literária do que à Ficção Especulativa diz respeito.

Avaliação: 6/10

3 comentários em “Estive a Ler: O Homem do Castelo Alto

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