Estive a Ler: Jonathan Strange & o Sr. Norrell


Lady Pole estava sentada à janela, pálida e sem sorrir. Falava muito pouco e sempre que dizia realmente alguma coisa as suas observações eram estranhas e não vinham ao caso. Quando o marido e os amigos perguntavam ansiosamente o que se passava, ela respondia que estava doente de dançar e não queria dançar mais.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO JONATHAN STRANGE & O SR. NORRELL

Susanna Clarke é daquelas autoras que, ou por falta de inspiração ou por esmero em pesquisa, demoram anos e anos a publicar qualquer coisinha. Companheira do autor de ficção científica Colin Greenland e amiga pessoal de Neil Gaiman, pode-se dizer que Clarke tem boas cunhas, mas a verdade é que a sua obra conquistou uma legião de admiradores em todo o mundo. Jonathan Strange & o Sr. Norrell, o seu romance de estreia, demorou dez anos a ser escrito, mas revelou-se tão bem sucedido que foi inclusive adaptado para uma mini-série pela BBC.

Publicado em 2004 pela Bloomsbury, o livro saiu em Portugal no ano seguinte, pelas mãos da Casa das Letras. Com um total de 734 páginas e tradução de Artur Lopes Cardoso, Inês Castro e Mariana Pardal Monteiro, trata-se de uma tremenda aventura pela Europa das Guerras Napoleónicas, onde a magia, em especial a magia inglesa, procura ser pescada das marés do esquecimento. Jonathan Strange & o Sr. Norrell venceu o Hugo Award para Melhor Romance em 2005.

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Fonte: http://www.bbcamerica.com/shows/jonathan-strange-and-mr-norrell/about

Jonathan Strange & o Sr. Norrell é aquele tipo de romance que ou amas ou odeias. Mas uma coisa é certa. Terás de o ler. Apesar de gostar da época vitoriana, da elegância e do charme do início do século XIX, a premissa não me atraiu muito. Se histórias de magia pouco me agradam, magias utilizadas no nosso mundo muito menos. E ao começar o livro, as expectativas continuaram a descer. Por que raio a autora se dirige diretamente ao leitor? Parece um livro escrito há três ou quatro séculos…

“E apesar do ritmo lento, não há como dizer que Jonathan Strange e o Sr. Norrell não é uma obra de arte.

Continuando, não tenho por hábito gostar de notas de rodapés… e neste livro elas ocupam páginas inteiras, apesar de se limitarem a satisfazer curiosidades fictícias sobre histórias, lendas e livros que nunca existiram. É aqui que a imaginação de Clarke entra em campo. Afinal, aquilo que eu via como uma escrita ultrapassada por parte da autora, era propositado. A narração remete-se à época pouco posterior à ação dos livros, bem ao estilo de Charles Dickens. E a forma extremamente bem organizada com que a trama se desenlaça, submeteu-me.

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Fonte: https://www.wook.pt/livro/jonathan-strange-o-sr-norrell-susanna-clarke/16960867

Muitas críticas apontam o imenso volume, a pouca ação e o pouco uso de magia como motivos de desapontamento. E sim, raro foi o capítulo em que a lentidão não marcou o passo. Há passagens e passagens em que as personagens parecem falar, falar e não dizer nada. Mas dizer que não acontece nada ou que há poucas aventuras? Isso não. As personagens estão em constante movimento, nada acontece por acaso e o choque de ideologias é a verdadeira riqueza deste livro (mas sim, as últimas 100 páginas são quase frenéticas).

Quanto à falta de magia, há muita em livros como Harry Potter. Procurem-na aí. Adorei o facto de ela não aparecer tanto assim, e quando aparece, utiliza-se tanto da cultura anglicana, da sua força e dos seus monumentos, como da própria mitologia criada pela autora. A escrita de Clarke não me impressionou, mas ela consegue com que os seus diálogos sejam tão vivos e cheios de energia, apesar da tradicional frieza britânica, que realmente quase não se nota o que fica pelo meio.

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Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=IA1802YUOZI

Logo de caras, somos apresentados à Inglaterra do princípio do século XIX, onde a magia, na prática, foi esquecida. Existem uns quantos cavalheiros que se apelidam de magos teóricos, mas na realidade aquilo que fazem é apenas estudar os textos que lhes foram legados. Tudo isto muda em 1806, quando dois desses cavalheiros, o Sr. Honeyfoot e o Sr. Segundus, preocupados com o futuro da magia, encontram um mago de verdade. E quem é esse homem? Trata-se do Sr. Norrell, um tipo que eu bem posso caracterizar como meio Ebenezer Scrooge, meio Bilbo Baggins.

“Jonathan gostava de aprender algo sobre magia, mas a cada livraria que bate à porta, os livros mais interessantes já foram vendidos… ao tal de Sr. Norrell.

Como já devem ter adivinhado, a avareza não é qualidade que lhe escape. Ele vive numa mansão enorme cujo maior tesouro é… a sua biblioteca. O amor pelos livros é tão grande, que não deixa mais ninguém tocar neles (como o compreendemos, não é verdade?). Mas este Gilbert Norrell é também um mago. E a sua primeira prova à comunidade de que possui todas essas peculiaridades, é pôr as estátuas da Catedral de York a falar. Não um “oi, como estás”, mas realmente a dar voz ao que os seus olhos testemunharam por anos e anos. Uma senhora sinfonia.

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Fonte: https://www.hollywoodreporter.com/live-feed/jonathan-strange-mr-norrell-tv-801912

A pouco e pouco, Norrell torna-se de suma importância para o governo, que acredita poderá ser capital para a guerra contra Napoleão Bonaparte. Tal status quo leva-o a rodear-se de amigos e serviçais, entre os quais se encontram Childermass, Lascelles e Drawlight, interessantíssimos seguidores e homens de mão e de ouvido de Norrell, Walter Pole, um amigo próximo de Norrell que começa por ser um jovem à beira da falência quando a noiva rica com que iria casar morre (até que Norrell a decide ressuscitar) ou Vinculus, um enigmático mago que passa o tempo a debitar uma profecia antiga.

Profecia essa que parece ter origem num livro deixado ao seu pai por um antepassado, ainda que algumas histórias digam que o pai de Vinculus comeu o livro. Esse antepassado é uma figura central em toda a trama: o Rei Corvo. O Rei Corvo foi um mago poderosíssimo no seu tempo, posterior a outros magos de vulto como Merlin, mas o único que conseguiu governar tanto no Reino Encantado como no nosso mundo. A magia teórica rodeia os feitos do Rei Corvo e os vastos testemunhos que ele deixou sobre as suas inúmeras possibilidades.

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Fonte: http://www.bbcamerica.com/shows/jonathan-strange-and-mr-norrell/cast-crew/mr-norrell

É aqui que Norrell estabelece um senão. Ele acredita que o Rei Corvo, John Uskglass de seu nome, foi um tirano que cometeu inúmeros atos bárbaros e pouco recomendáveis, e não acha de bom tom que tal figura seja o exemplo maior da magia inglesa. No fundo, ele próprio tem medo de mexer nesse tipo de magia e quer arrancá-la pela raiz. Por tudo isso, manifesta-se extremamente dedicado a fazer o nome do Rei Corvo cair no esquecimento. O que poderá não ser assim tão fácil.

“Jonathan Strange & o Sr. Norrell é aquele tipo de romance que ou amas ou odeias.

Vários magos foram aparecendo após toda a teatralidade que envolveu o advento de Norrell. Porém, ele soube como os descredibilizar, contornar ou vencer, e acabou por ficar, por muito tempo, como o Mago da Praça Hanover, o único verdadeiro mago de Inglaterra.

Isto, até aparecer Jonathan Strange.

Um dos protagonistas deste livro, que surpreendentemente não aparece logo de início, mas praticamente apenas no segundo terço, Strange é um adulto irresponsável sem nenhum talento em especial. Após uma infância dividido entre um pai tirano cheio de dívidas e a família materna, ressentida com a morte da sua mãe, acabou por se casar com uma bela jovem de seu nome Arabella, que lhe tentou arranjar uma atividade “digna”. É então que Jonathan Strange se descobre um mago. E, do dia para a noite, o mundo parece adorá-lo. E como não!

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Fonte: http://screenfellows.com/2015/06/jonathan-strange-mr-norrell-how-is-lady-pole/

Jonathan gostava de aprender algo sobre magia, mas a cada livraria que bate à porta, os livros mais interessantes já foram vendidos… ao tal de Sr. Norrell. O encontro entre os dois é uma questão de tempo, e quando todos pensavam que Norrell se livraria de Strange como o fez com os outros rivais, o Mago da Praça Hanover acaba por se deliciar com o talento de Jonathan Strange para a magia e faz dele seu discípulo. O que, mais tarde, se torna uma senhora dor de cabeça.

Os homens não podiam ser mais diferentes. Jonathan é jovem, dinâmico, gentil, ativo, aberto a novos paradigmas e propenso a evoluir com o tempo. Norrell é avarento, conservador, quieto e incapaz de se mover da cadeira para fazer o que quer que seja. O que deixa de fazer por falta de tempo, Jonathan Strange faz. Norrell procrastina a escrever o artigo para um jornal. Strange escreve artigos para o jornal quase sem os rever e começa a escrever livros. E são as ideias que acabam por separá-los. Ao contrário de Norrell, Strange sente curiosidade em aprender sobre a magia do Rei Corvo e tenciona trazer de volta à ribalta as suas matérias.

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Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=gXv9Ozt0thE

Apesar disso, eles complementam-se e gostam bastante um do outro. E muito embora venham a separar-se e a tornar-se rivais, Jonathan Strange e o Sr. Norrell são duas faces de uma mesma moeda, e como leitor e seu companheiro de jornada, não consegui deixar de me encantar com ambos, cada um à sua maneira. Mas assim como os dois magos que dão título ao livro, as personagens secundárias são também elas apaixonantes, revelando traços vívidos e realistas da Inglaterra daquele tempo, onde nem Jorge III escapa à ironia rebuscada da autora.

Todavia, nem só de Inglaterra vive o livro. Jonathan Strange é utilizado como mago pelo rei nas Guerras Napoleónicas, ele vem a Portugal, dorme em Lisboa e chega mesmo às Linhas de Torres, sob as ordens do Duque de Wellington. Vemo-lo na Batalha de Waterloo (que podia nem se chamar assim). E vemo-lo ainda em Veneza, onde a sua relação com o famoso Lorde Byron causa incómodos e faíscas que se estendem até ao Reino Encantado. Passagens únicas que tornam Strange uma personagem singular e fortíssima, à margem de toda e qualquer intriga.

Dividido em três atos: Sr. Norrell, Jonathan Strange e John Uskglass, senti que faltou a este livro uma personagem feminina que tivesse mais protagonismo, apesar de Lady Pole e Arabella Strange serem duas mulheres incríveis. Há ainda Stephen Black, o criado negro dos Pole, um dos poucos que consegue ver e falar com o misterioso homem dos cabelos de algodão, e se fosse a falar de todas as personagens interessantes do livro, não saía daqui. A magia pode não ser tão visível como alguns esperariam, mas é extremamente presente e forte em toda a trama. E apesar do ritmo lento, não há como dizer que Jonathan Strange e o Sr. Norrell não é uma obra de arte.

Avaliação: 9/10

3 comentários em “Estive a Ler: Jonathan Strange & o Sr. Norrell

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