Estive a Ler: Os Irmãos Karamázov


Um ano antes de terminar os estudos na academia, anunciou às senhoras que partia para ver o pai, a fim de resolver um assunto. As senhoras, ainda que desgostosas e cheias de pesar, não lhe consentiram que empenhasse o relógio, preciosa recordação do seu benfeitor, para a custosa viagem.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO OS IRMÃOS KARAMÁZOV

Considerado por nomes como Sigmund Freud e Friedrich Nietzsche como uma das maiores obras de todos os tempos, Os Irmãos Karamázov foi um dos últimos livros escritos por Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski e é tida como uma das obras mais importantes da literatura russa. O prolífico autor estaria a escrever um segundo volume de Os Irmãos Karamázov quando faleceu, em 1881, vítima de uma hemorragia pulmonar.

Entre as quase trinta obras publicadas, o autor de Crime e Castigo notabilizou-se pelos pensamentos filosóficos sobre religião e moral, que viriam a influenciar toda a cultura russa. Em 2018, a Saída de Emergência trouxe uma nova edição de Os Irmãos Karamázov. Um relato único sobre a Rússia conturbada do século XIX, a mais recente edição deste clássico tem um total de 768 páginas e é dividido em 12 secções, para além de um epílogo e de uma nota introdutória sobre o autor russo.

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Fonte: https://frankdevita.wordpress.com/2012/08/06/dostoyevskys-brothers-karamazov-selections/

Uma das leituras mais difíceis a que alguma vez me propus, Os Irmãos Karamázov é uma crítica contundente às vicissitudes da sociedade russa do séc. XIX, à moral e aos bons costumes. Do pensamento religioso às linhas de separação entre o certo e o errado, passando pela questão idiossincrática sempre atual a que o dito “a culpa nunca morre solteira” faz referência, este livro de Fiódor Dostoiévski é uma obra de destaque da literatura mundial.

“Uma obra intemporal que vai muito para além do pensamento da época em que foi escrito.

O que não faz dela, aparte as brilhantes reflexões a que obriga, uma boa leitura. Da falta de conclusões ao mar de páginas sem fim à vista em que pouco ou nada acontece para além de ter as mesmíssimas personagens a falarem do mesmo, Os Irmãos Karamázov traz um drama familiar que, em outros moldes, poderia ser interessante. A estrutura utilizada, a relação insípida do autor e das personagens com o leitor, a falta de ação e o percurso insosso das personagens penalizou a minha avaliação à obra.

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Fonte: http://www.saidadeemergencia.com/produto/os-irmaos-karamaov/

A história fala de uma conturbada família russa. Fiódor Pavlovitch Karamázov é um homem conhecido pela falta de caráter, que ganhou estatuto e dinheiro graças aos seus dois casamentos. Com a primeira mulher teve um filho, Dmitri Fiodorovitch Karamázov, também conhecido por Mitya, que negligenciou desde o primeiro momento. O rapaz é criado por Pyotr Miusov, parente de sua mãe.

Com a segunda mulher tem mais dois filhos, Ivan e Alexey Fiodorovitch Karamázov, este mais conhecido como Aliocha, que são criados também por um parente da segunda mulher de Fiódor. Enquanto Ivan se divide entre várias questões filosóficas, perguntando-se sobre a existência de Deus e outras pertinências na Universidade, Aliocha envereda por uma vida eclesiástica, apostando na castidade de uma vida no mosteiro.

Entre os dois filhos mais novos nascem vários debates intelectuais de grande interesse. A ética e a moral que Ivan eleva e questiona entram em choque com o misticismo puro de Aliocha. Uma colisão que não se finda pela incrível falta de respostas palpáveis. Se Deus não existe, tudo é permitido? é uma das questões que este livro veio a promover nos meandros da sociedade. Na ação narrativa, a inteligência e a profunda intelectualidade de Ivan enrolam-no numa espiral de loucura.

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Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=Sd-Xw_l6_S4

Mas o foco narrativo de Os Irmãos Karamazóv é a desavença entre o filho mais velho, Mitya e o pai, Fiódor. Noivo de Caterina, Mitya planeia fugir com o interesse amoroso do pai e com o dinheiro deste. Gruchenka é uma mulher volúvel atraída pelo dinheiro de Fiódor e pela juventude de Mitya, que não perde tempo em humilhar a companheira deste último e deixar bem claro o seu caráter.

“O que não faz dela (a obra), aparte as brilhantes reflexões a que obriga, uma boa leitura.”

É com um homicídio e o mistério em volta dele que a trama se adensa e se torna mais interessante, sobretudo quando a personagem Mitya é julgada por um crime que não cometeu. O julgamento levanta novos debates morais sobre se um homem deve ser condenado por um crime de que é inocente, quando teve a vontade de perpetrar esse mesmo crime.

A personagem Aliocha é o protagonista do livro e considerado o herói de Dostoiévski, apesar de não ter muita mais importância na trama de que uma testemunha ou familiar dos principais envolvidos. O que leva a crer que, na saga que Dostoiévski vinha planeando, o jovem Alexey Karamazóv adquiriria maior importância futura. Um dos valores deste livro é parecer ter sido uma obra inacabada.

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Fonte: https://www.ravenfoundation.org/lookingglass-theatre-brothers-karamazov-november-2008/

Ainda assim, é uma obra muito bem fechada no volume inaugural. O crime foi resolvido, as personagens tiveram os seus devidos finais e as perguntas continuaram em aberto, como continuariam em todo o caso. Os Irmãos Karamazóv é uma obra de pendor filosófico, que levanta questões que não é suposto responder, mas pensar sobre. Uma obra intemporal que vai muito para além do pensamento da época em que foi escrito.

Um dos momentos que mais gostei no livro foi quando a Igreja entrou em descrédito aos olhos da população, uma vez que o cadáver de um padre que julgavam santo começou a deteriorar-se. Não só a população estava iludida sobre a proeminência do místico sobre a carne humana como veio a questionar a santidade do homem, assim como da própria religião. Um facto que fala muito sobre a ignorância das populações sobre as questões da física e do espiritual.

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Fonte: https://www.deviantart.com/eliz7/art/The-Brothers-Karamazov-209450272

E apesar de vários pormenores me terem agradado, foi dos livros que mais me custou a ler. É uma leitura entediante e de difícil digestão. Um livro imenso que podia ter sido ser escrito em pouco mais de cem páginas. É complicado avaliar assim um livro que sabemos – e compreendemos porquê – foi tão importante na cultura russa, sobretudo porque ele obriga o leitor a pensar.

Porém, acabei por ficar com o cérebro tão amarrado que muitas daquelas questões levantadas e perspetivas do mundo me deixaram sem a capacidade de pensar no momento. E os nomes das personagens? Difícil pronunciá-las. Por exemplo, um dos protagonistas da última parte do livro chamava-se Smerdyakov. Um nome lindo, não acham?

Aconselho Os Irmãos Karamázov como um livro de consulta sobre as certezas do ser humano e sobre as linhas que separam o certo do errado. Pessoalmente nunca gostei da cultura russa e este livro não contribuiu em nada para mudar a minha opinião a esse respeito. Destaco a beleza da edição portuguesa da Saída de Emergência, que nunca desilude.

Avaliação: 2/10

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