Estive a Ler: Sangue e Whisky, Moonshine #1


Levei boa parte da tarde a chegar lá e fiz uma nota mental para arranjar um pneu sobressalente na vila. Com estas estradas de terra batida, nunca fiando…

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO “SANGUE E WHISKY”, PRIMEIRO VOLUME DA SÉRIE MOONSHINE (FORMATO BD)

Uma BD que mistura gangsters, rituais africanos e lobisomens? Venha ela. Conhecidos pela famosa 100 Balas, BD vencedora de vários Prémios Eisner que foi publicada entre 1999 e 2009 pela Vertigo, Brian Azzarello e Eduardo Risso voltaram às bocas do mundo com a sua nova longa série Moonshine, que a G Floy Studio traz até nós em 2018. O argumentista norte-americano assumiu que Moonshine é uma série violenta, mas que a maior parte da sua violência está nos subentendidos e na cabeça do leitor.

Azzarello tomou o leme em 2011 à publicação regular do comic Mulher Maravilha, e colaborou com Frank Miller em The Master Race, a conclusão de O Regresso do Cavaleiro das Trevas. Por sua vez, o ilustrador argentino Eduardo Risso notabilizou-se com Johnny Double e 100 Balas, ambas com Azzarello, mas são também conhecidas as suas participações em Batman, Superman, Jonah Hex e Before Watchmen. Sangue e Whisky é o título da versão nacional deste primeiro volume de Moonshine, que inclui os números 1 a 6 da publicação original.

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Fonte: G Floy Studio

Esta BD tem whisky, ah sim! E sangue, muito sangue. Parti para este Moonshine cheio de expectativas e elas não foram defraudadas. Sangue e Whisky alia um argumento coeso e bem desenvolvido, com personagens carismáticas, a uma arte vistosa, bem ao meu género. Os traços são amplos e expressivos, a diversidade de tons e de pormenores são cativantes, aludindo à aspereza da narrativa. A história é catalogada como noir, apesar de ser bem colorida.

“Moonshine é uma BD adulta e inteligente que certamente agradará a muitos fãs de sobrenatural e do género noir.

Pouco estereotipadas, com excepção do protagonista, as personagens são cinzentas e misteriosas, com uma infinidade de probabilidades relativamente ao seu passado e ao seu futuro, bem como à sua índole e intenções atuais. A mescla pouco comum do sobrenatural com o mundo dos gangsters americanos é, no mínimo, deliciosa. Fiquei bastante surpreendido com a forma fluída com que os temas são tratados e em como eles encaixam na perfeição.

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Fonte: G Floy Studio

Conhecemos desde logo Lou Pirlo, um gangster bonito e eloquente que, aparte os seus fantasmas pessoais, gosta de fazer o seu trabalho bem feito para agradar ao chefe, um rei do crime bem exigente chamado Joe. Um dia, é mandado para as montanhas, com a intenção de manobrar e acalmar os ímpetos a um fabricante de bebidas ilegais chamado Hiram Holt.

Mas Lou é surpreendido, não só pela ruralidade daquela gente e pela aspereza do homem, como também pelas peculiaridades dos seus familiares e amigos. Hiram tem dois filhos adoptivos, irmãos, cuja família genética o leitor não sabe muito bem o que lhe aconteceu, mas pode imaginar que não foi nada de bom. O gangster tenta fazer algumas ofertas generosas ao homem, mas Hiram não parece interessado. Rapidamente Lou percebe que ali muito pouco é o que parece, e que inclusive Hiram Holt tem um lobisomem à sua guarda.

Gostei imenso das reviravoltas que Azzarello trabalhou na narrativa. Da verdadeira natureza do filho adoptivo de Hiram, Enos, ao passado nebuloso do próprio Lou Pirlo, que vive assombrado pelo afogamento da irmã Annabelle em criança e que lhe aparece em visões, a história adensa-se e percorre caminhos muito interessantes, que não parecem à primeira vista descurar nenhum pormenor.

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Fonte: G Floy Studio

Por fim, é de realçar a importância das duas mulheres existentes no livro. Sangue e Whisky retrata a época da Proibição, os anos 1920, em que as questões de género eram tratadas de forma tão difícil para a nossa percepção atual como as raciais, mas Azzarello e Risso trazem-nos uma mulher negra como co-protagonista, e uma loirinha branca como vilã, o que traz um interesse adicional à série. Ambas são um mistério que permanece em aberto para o próximo volume.

Fiquei muito curioso com o que acontecerá a seguir. O ritmo foi bastante satisfatório e os acontecimentos fugiram ao expectável. O final deixou tudo em suspenso, mas com as peças do xadrez bem distantes da casa de partida. Apesar de não ser um álbum para todos os gostos ou todas as idades, Moonshine é uma BD adulta e inteligente que certamente agradará a muitos fãs de sobrenatural e do género noir.

Avaliação: 8/10

Moonshine (G Floy Studio Portugal):

#1 Sangue e Whisky

#2 Comboio da Tortura

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