Estive a Ler: A Espada e a Azagaia, As Areias do Imperador #2


Adeus não é uma palavra. É uma ponte feita de silêncios.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO “A ESPADA E A AZAGAIA”, SEGUNDO VOLUME DA SÉRIE AS AREIAS DO IMPERADOR

A Espada e a Azagaia é o segundo volume da trilogia moçambicana de Mia Couto As Areias do Imperador, publicado em 2016. As Areias do Imperador é uma trilogia focada na colonização de Moçambique pelos portugueses e na queda de Ngungunyane. Com mais de 30 anos de carreira, Couto venceu vários prémios de referência, entre os quais se destacam o Prémio Vergílio Ferreira em 1999, o Prémio Camões em 2013 e o Neustadt International Prize for Literature em 2014.

Mia Couto nasceu na Beira, em Moçambique, onde se notabilizou como biólogo, jornalista e sobretudo como escritor. Considerado um dos mais prolíficos autores africanos, está traduzido em mais de seis línguas e vendido para mais de vinte países. Terra Sonâmbula, o seu primeiro romance, é considerada a sua maior obra. Com um total de 464 páginas, A Espada e a Azagaia foi publicada em Portugal pela Editorial Caminho.

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Fonte: http://www.comumonline.com/2016/10/mia-couto-e-o-racismo-que-inventa-as-racas/

Mais um brilhante testemunho das vidas e da tradição de um povo, A Espada e a Azagaia fascinou-me tanto quanto Mulheres de Cinza, o primeiro volume. A facilidade com que nos entranhamos nos medos e costumes dos povos africanos é assustadora, acima de tudo porque nunca conhecemos na pele aquele modo de viver que Mia Couto nos consegue transmitir com tanta familiaridade. O arrebatamento com que encaramos as suas emoções é digno de nota.

“A beleza do pensar dos africanos, por muito que o possamos achar em alguns momentos ingénuo, é de prostrar e de enfeitiçar qualquer um.

Notável de uma ponta à outra, cada frase parece ter saído de uma mente rebuscada e genial, mas se os dotes linguísticos de Mia Couto são maravilhosos, sei também que muito da sua maneira de escrever e muitas das suas frases épicas vêm também da cultura africana na qual ele próprio mergulhou, ou não viesse ele daquele mundo. Do modo de pensar dos moçambicanos e as suas crenças sobre a vida e a morte, sobre o ser e o agir.

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Fonte: https://www.amazon.es/Espada-Azagaia-Mia-Couto/dp/9722128272

E ele consegue-nos levar a viajar com ele, aprofundando-nos naquela cultura tão rica e profusa que sentimos as suas dores e receios na pele. É inevitável chegar, em vários momentos, a odiar os portugueses por aquilo que eles tão “selvaticamente” levaram para aquele mundo vívido e franco. A beleza do pensar dos africanos, por muito que o possamos achar em alguns momentos ingénuo, é de prostrar e de enfeitiçar qualquer um.

Voltei a sofrer e a amar os dois protagonistas, a africana e o português, bem como adorei os volte-faces e o desenvolvimento da história a partir do que aconteceu no primeiro volume. A única coisa que me fez gostar um pouquinho menos deste livro foi a entrada em cena de Ngungunyane e Mouzinho de Albuquerque, por muito que eles sempre tenham lá estado e seja importante a sua aparição para os desenvolvimentos narrativos. Porque é.

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Fonte: https://bigslam.pt/noticias/mia-couto-lanca-a-espada-e-a-azagaia-uma-historia-de-amor-em-tempo-de-guerra/

O primeiro volume foi dividido entre os capítulos da jovem moçambicana da tribo VaChopi, Imani, e as cartas endereçadas pelo sargento português ao seu superior, D. José de Almeida, que veio a descobrir terem ido parar às mãos do tenente Ayres de Ornelas. Este segundo livro adiciona ainda as respostas de Ornelas, que tanto se revela solidário para com a humanidade do homem, como parece mostrar-se ríspido e intolerante para com as suas fraquezas.

Numa terra atravessada por grandes rios cada carta é uma canoa atravessando distâncias.

Após os acontecimentos do último volume, com o ataque a Nkokolani, Imani navega à sorte pelo mar, com o seu pai, Katini Nsambe, o seu irmão Mwanatu, a italiana Bianca Marini e o sargento Germano de Melo, que havia perdido as mãos durante o confronto. Germano pensa ter sido Imani a autora do disparo que o vitimara. Porém, é revelado que ela apenas o tentara proteger e que pretendia levá-lo ao hospital de campanha em Manjacaze, chefiado pelo suíço Georges Liengme. O único problema é que este é apoiante das forças de Ngugunyane.

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Fonte: https://bigslam.pt/noticias/mia-couto-lanca-a-espada-e-a-azagaia-uma-historia-de-amor-em-tempo-de-guerra/

Pelo caminho, param numa igreja em Sana Benene, local vigiado por um padre chamado Rudolfo Fernandes, homem com quem Imani havia passado parte da sua infância. A estadia naquele pequeno lugarejo acaba por ser bastante mais demorada do que haviam pensado. E isso porque ali se encontra também uma milagreira africana que toma conta dos ferimentos de Germano através de estranhos rituais.

Bibliana e Rudolfo formam um estranho casal. Ele a chama de seu marido e transforma-se em mulher quando ela o toca. Ele é um padre. Ela uma feiticeira. Ele é branco, com traços indianos. Ela é negra. E são as suas falas, os seus conselhos, advertências e pensamentos que enriquecem imenso este livro. Após a saída de Sana Benene, o livro acabou por perder algum do maravilhamento que eu havia sentido. Mas seria uma questão de tempo, porque os milagres de Bibliana não seriam por si suficientes para oferecer os cuidados médicos que Germano necessitava.

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Fonte: http://www.geocities.ws/maputo100anos/mouzinho

A inclusão de personagens como Santiago da Mata, Georges Liengme, Bertha Ryff ou mesmo a mãe do Imperador, Impibekezane, vieram dar textura a este livro que podia muito bem cirandar pela área do fantástico se não fosse tão real. São acontecimentos verídicos que ocorreram num passado não tão longínquo assim, uma vez que a história narra a segunda metade dos anos 80 do século passado. A queda de Ngugunyane é contada com uma proximidade e uma paixão maravilhosas.

A Espada e a Azagaia fala, em suma, de uma rapariga que sonha que engravida e dá à luz todo o tipo de armas. E de um homem que sonha em fazer um futuro com essa mesma rapariga, custe o que custar. É um romance histórico revestido numa história de amor que atravessa tempos e continentes, pontuado por figuras tão eloquentemente descritas como o célebre Mouzinho de Albuquerque. Que venha o terceiro volume!

Avaliação: 8/10

As Areias do Imperador (Editorial Caminho):

#1 Mulheres de Cinza

#2 A Espada e a Azagaia

#3 O Bebedor de Horizontes

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