Estive a Ler: Sr. Mercedes, Trilogia Bill Hodges #1


Augie pensou que a divindade trocista o teria posto na fila atrás dela. Também perguntou a si mesmo como diabo sobreviveria aquela mulher o resto da vida – a vida inteira, não apenas os dezoito anos seguintes ou mais em que seria responsável pela filha. Sair de casa numa noite daquelas, apenas com um saco de fraldas! Estar assim tão desesperada!

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO “SR. MERCEDES”, PRIMEIRO VOLUME DA TRILOGIA BILL HODGES

Mr. Mercedes foi publicado em 2014 pela Scribner, escrito nada mais, nada menos do que pelo mestre Stephen King. Primeiro volume de uma trilogia protagonizada pelo ex-polícia Bill Hodges, o livro venceu o Goodreads Choice Award de Melhor Mistério e Thriller em 2014 e o Prémio Edgar de Melhor Romance em 2015. Mr. Mercedes foi elogiado pelo Sunday Express como o melhor thriller do ano e adaptado para uma série de televisão por David E. Kelley para a Audience, em 2017.

Em Portugal, o livro foi publicado pela Bertrand Editora em março de 2017 com o título Sr. Mercedes, um total de 472 páginas e tradução de Ana Lourenço e Maria João Lourenço. A trilogia segue com Perdido e Achado e Fim de Turno, naquela que é considerada como mais uma reinvenção sui-generis do autor Stephen King, ícone do terror psicológico que volta a brilhar no género de thriller e suspense policial.

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Fonte: https://us.blastingnews.com/showbiz-tv/2017/08/stephen-kings-mr-mercedes-starts-wednesday-on-audience-network-001918855.html

Se achava que Stephen King não me podia surpreender mais e houve uns quantos livros dele que deixei a meio, Sr. Mercedes veio-me mostrar que o autor está longe de estar ultrapassado. O autor de A Torre Negra e It: A Coisa trouxe mais uma criação carismática ao seu universo criativo e só posso dizer que foi um acerto de mão cheia. Se A Coisa é o lançamento do ano em Portugal, Sr. Mercedes é mais um livro incrível para juntar ao rol.

“É a fantástica criação de Bill Hodges, o protagonista velho, gordo e pragmático, que me arrebata. Que personagem!

Numa madrugada gelada, centenas de desempregados tentam a sua sorte numa fila da feira de emprego, desesperados por dar um rumo à sua vida. De repente, um Mercedes investe contra a multidão. O automóvel atropela vários inocentes, antes de recuar e voltar a avançar. Oito pessoas são mortas e quinze ficam feridas. O assassino escapa impune.

Bertrand.pt - Sr. Mercedes
Fonte: https://www.bertrand.pt/livro/sr-mercedes-stephen-king/19092467

Alguns meses passam-se e o recém-aposentado Bill Hodges, polícia responsável pelo caso, ainda não superou a não resolução do mesmo. Ele passa os dias em frente à TV, ponderando a ideia de se suicidar com o revólver do seu pai, graças ao tédio que os programas da tarde lhe proporcionam. Ao receber uma carta de alguém que se designa a si próprio como o Assassino do Mercedes, Hodges descobre que, afinal, ainda se pode divertir um bocado nesta vida.

Brady Hartsfield vive com a mãe alcoólica, Deborah, na casa onde nasceu. Vive atormentado pelo passado obscuro, dos abusos, passando pela morte do irmão mais novo à relação extremamente doentia com a mãe. Não sabe o que é a amizade ou o amor e não tem grande interesse em descobrir. Divide-se entre os seus empregos numa empresa de informática e a carrinha de venda de gelados. Adorou aquela sensação de morte ao volante do Mercedes e quer sentir aquilo de novo.

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Fonte: https://www.serienjunkies.de/news/mercedes-staffel-august-audience-89477.html

As primeiras páginas deixam desde logo o leitor pregado ao livro. Somos apresentados a personagens que pensamos vir a ter um papel narrativo importante, para os ver morrer logo a seguir. Somos apresentados a um crime por resolver, mas não há mistério para nos fazer pensar até à última página. Sabemos desde o início quem é o assassino e acompanhamos os seus passos. Em alguns momentos, dá pena dele. É tão fraquinho, em comparação com o nosso protagonista.

“Sr. Mercedes é mais um livro incrível para juntar ao rol.

E se isso nos podia fazer perder o interesse no livro, desenganem-se. Capítulo a capítulo, vamos sentindo cada vez mais aversão e desprezo por este antagonista, ao mesmo tempo que vamos respeitando e gostando cada vez mais do protagonista badass que Stephen King nos ofereceu. E a leitura torna-se compulsiva, porque só queremos ver o momento em que Bill Hodges vai desancar aquele cretino à porrada.

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Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=CPuhX6DFiEU

O que não significa que aconteça. Hodges tem as suas fragilidades, da idade avançada ao porte imenso da sua barriga, que lhe causa alguns problemas de saúde, mas podemos dizer que ele está bem ladeado por personagens secundários. Peter Huntley era o parceiro de Hodges e torna-se o principal responsável pelos casos em carteira, mas não lhe chega aos calcanhares a nível de competência. Melhor calibre tem Jerome Robinson, um jovem negro que costuma arranjar o jardim do ex-polícia e se torna o seu maior aliado nesta luta contra o tempo.

As personagens femininas são brilhantes. Olivia Trelawney era a dona do Mercedes que Hartsfield roubou para executar o crime. Durante meses foi cercada pela polícia, jurando a pés juntos que não deixara a chave na ignição. A sua arrogância, porém, levou à perda de qualquer credibilidade junto das autoridades. Por esse ou qualquer outro motivo, decidiu terminar com a própria vida. Quem herdou a sua fortuna foi a irmã, Janelle “Janey” Patterson, uma personagem fantástica que vem abanar completamente a vida de Bill Hodges.

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Fonte: https://www.morbidofest.com/archivos/40111

E há ainda Holly Gibney, a prima retardada de Janey. Aparece somente no último terço do livro mas vem trazer um refresh total à narrativa. Bem humorada, impertinente, nervosa e irresponsável, Holly acaba por tornar-se uma heroína e uma personagem crucial para o desenrolar das investigações de forma mais ou menos acidental, tornando-se tão importante na história quanto Bill Hodges ou Jerome Robinson.

Para quem tem curiosidade em saber do que se trata o chapéu de chuva azul (da Debbie) que ilustra a capa, não vou entregar todas as surpresas, mas posso dizer que está relacionado com uma forma que o assassino encontra para se comunicar com Bill Hodges. Adianto ainda que é no mínimo divertido vê-lo a levar uma tareia do polícia de cada vez que lhe tenta passar uma mensagem.

Sr. Mercedes não tem o tradicional terror sobrenatural que permeia grande parte da obra de Stephen King. É um thriller policial, e mesmo assim nem nos permite magicar grande coisa, uma vez que o vilão é-nos apresentado do início. Faz-nos, porém, revolver a mente dele. Este Brady Harstfield, apesar de ser um psicopata, não chegou para me aterrorizar. É a fantástica criação de Bill Hodges, o protagonista velho, gordo e pragmático, que me arrebata. Que personagem!

Avaliação: 9/10

Trilogia Bill Hodges (Bertrand Editora):

#1 Sr. Mercedes

#2 Perdido e Achado

#3 Fim de Turno

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