Especial: O Tabuleiro Malazano de Steven Erikson


Este artigo foi também publicado no site da Revista Bang!

A Saga do Império Malazano é uma das minhas sagas preferidas de fantasia e o mérito é todo de um senhor chamado Steven Erikson. O escritor canadiano esteve na ComicCon Portugal 2018 e deixou um retrato muito íntimo daquilo que é enquanto autor. Nas palavras do próprio, a Saga do Império Malazano é uma série inventiva de romances que falam sobre História, onde a magia tem o seu lugar muito particular. E é exatamente o facto de essa magia funcionar, o que difere o nosso mundo do mundo em que a sua narrativa tem lugar. Um mundo fragmentado onde as personagens por quem nos afeiçoamos podem morrer a qualquer momento.

O Império Malazano foi criado por Erikson em colaboração com Ian Cameron Esslemont como cenário de um RPG. Os dois arqueólogos e antropólogos construíram de base toda uma série de raças, cenários e até mesmo intrigas que funcionam como motor para a narrativa que se adensa para todos os lados, mais e mais a cada livro. Jardins da Lua, o primeiro volume, foi escrito como base para o roteiro de um filme, filme esse que nunca viu a luz do dia, e Erikson precisou de uma década até uma editora aceder em publicá-lo. Soubessem as restantes o sucesso que esta saga teria, e tudo teria sido significativamente diferente.

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Fonte: https://forum.malazanempire.com/topic/32194-deadhouse-gates-spanish-cover-spoilers/

Em Portugal, a Saga do Império Malazano é publicada pela Saída de Emergência. Numa altura em que é lançado o livro Memórias do Gelo, terceiro na versão original e quarto na versão dividida da editora nacional, o NDZ vem trazer uma continuação ao especial publicado em 2017, Introdução ao Império Malazano de Erikson. Este artigo não visa propriamente anteceder os acontecimentos de Memórias do Gelo, mas acima de tudo dissecar a ação dos livros anteriores, Os Portões da Casa dos Mortos e O Caminho das Mãos, de forma a compreendermos melhor esta narrativa.

Até porque Memories of Ice (a versão original de Memórias do Gelo) seria, originalmente, o segundo volume da saga, mas acabou por ser publicado como o terceiro, após Deadhouse Gates. Gates só nasceu porque Erikson perdeu acidentalmente todo o conteúdo que havia escrito do livro Memories of Ice, tendo decidido começar a escrever sobre outras personagens, uma vez que não sentia a menor vontade de reiniciar no momento aquilo que havia perdido. Mais tarde esse trabalho renasceu. E, cá para nós, há males que vêm por bem! Deadhouse Gates é um livro extraordinário.

Montanhas voadoras, dragões, zombies, deuses a jogar o jogo dos tronos e cães horríveis cheios de raiva a verter das mandíbulas. É muito disto o que nos oferece Steven Erikson no seu livro inaugural, Jardins da Lua, publicado em Portugal pela Saída de Emergência no outono de 2016.

Foi assim que iniciei o artigo inaugural sobre o mundo de Erikson, e a este respeito posso dizer que os livros seguintes trouxeram muito muito muito mais. Mais criaturas estranhas, mais choques épicos e mais batalhas monumentais, mas acima de tudo mais humanidade. A dupla Os Portões da Casa dos Mortos e O Caminho das Mãos corresponde ao segundo livro na versão original, Deadhouse Gates, que trouxe não só uma melhoria na escrita elegante e riquíssima de Erikson, como um sentimento de desolação e de humanidade terrível a acompanhar as mil e uma desgraças das personagens. Porque sim, preparem-se para a desgraceira.

DeadHouse Gates by Marc SimonettiDeadhouse Gates: A Tale of The Malazan Book of the Fallen
Fonte: http://theamazingdigitalart.tumblr.com/post/174943054558/deadhouse-gates-by-marc-simonetti-deadhouse

Se há algo que os fãs do Império Malazano sabem é que Jardins da Lua não agrada a todo o mundo. É o clássico 50/50. Mas reza a lenda que quem pega no Deadhouse Gates, vira fanboy quando o termina. E com uma lágrima em cada olho. Pessoalmente achei a primeira parte bem morosa e sem acontecimentos substanciais, mas o livro está incrivelmente bem escrito e é fundamental na preparação do leitor para a avalanche que vem de seguida. Steven Erikson não tem comiseração pelas suas personagens, e do início ao fim, a dor é um companheiro de aventura.

Vamos então saber do que se trata?

Se leste Jardins da Lua, habituaste-te à protecção da Cria da Lua, à luz e esplendor de Darujhistan. Pois a atmosfera é bem mais soturna e asfixiante em Os Portões da Casa dos Mortos e O Caminho das Mãos. Se o primeiro volume foi passado no continente de Genabackis, este ocorre nas Sete Cidades, em volta de uma profecia terrível e de um evento conhecido como o Furacão. A partir daqui, vou apresentar núcleos e facções, pelo que é normal encontrares pequenos spoilers.

Sem Título
Fonte: http://www.saidadeemergencia.com/produto/os-portoes-da-casa-dos-mortos-oferta/
O JOGO DE LASEEN

No primeiro volume, conhecemos superficialmente uma imperatriz de pele azul, que fora uma espécie de general do Império, pertence à força armada conhecida como a Garra, e que de algum modo mandou o Imperador Kellanved e o seu conselheiro Dançarino às urtigas e usurpou o trono para ela. O mundo pareceu não ter gostado muito disso, porque os sujeitos mais corruptíveis foram facilmente manipulados pela Imperatriz, enquanto que os lealistas à memória do Imperador permaneceram esperançosos num volte-face. Juntando a tudo isso, há as Cidades Livres que, pouco a pouco, foram resistindo aos avanços de Laseen.

Agora, nem tudo o que parece é. Se assistimos a uma revolta por parte dos homens fortes da sua estrutura militar e ao desvendar das verdadeiras faces da Resistência, percebemos neste desenvolvimento da história que o massacre a que se coseu a história de Laseen pode não ter sido mais do que um fogo fátuo destinado a ludibriar mentes e a camuflar os verdadeiros acontecimentos que levaram a napaniana ao poder. Neste segundo livro, conhecemos também um novo continente e novos esforços vindos de todo o lado para lhe resistir.

Sem Título
Fonte: http://www.saidadeemergencia.com/produto/o-caminho-das-maos-oferta-o-terceiro-desejo/
AS SETE CIDADES

Os Repetentes

São apenas cinco as personagens que transitam diretamente de Jardins da Lua para Os Portões da Casa dos Mortos. Violinista, que fora apenas um mero figurante no primeiro livro, assume o lugar de protagonista, como uma consciência ao lado de Kalam, o ex-assassino da Garra. Na teoria, eles acompanham Apsalar, Crokus e o macaco deste, Moby, em busca do pai da jovem para lá do continente das Sete Cidades, em QuonTali. Na prática, eles planeiam trilhar um rumo bem mais negro, porque fazem parte de um movimento de resistência contra a Imperatriz Laseen.

O que eles não esperavam era ter de lidar com os próprios conflitos internos do continente, como a chegada do Apocalipse e um turbilhão de metamorfos como soletaken e d’ivers. Mais tarde, guiado pela ambição de Ben Ligeiro e Whiskeyjack, Kalam separa-se do grupo, encontrando primeiro um monstro ciclópico chamado de Apto, uma aptória, bem como Minala e a sua família. O cabo dos Queimadores de Pontes, outrora assassino da Garra, leva avante a sua ideia de assassinar a Imperatriz, tendo para isso que atravessar um Labirinto e o alto-mar que o conduz à Cidade de Malaz, numa pequena ilha onde o Império nasceu.

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Fonte: https://www.reddit.com/r/Malazan/comments/6xn972/fiddler/

Uma Amizade Rara

Por sua vez, Violinista, Apsalar e Crokus vêm a encontrar-se com uma dupla inimitável. O trell Mappo e o jhag Icarium são de raças distintas, mas inseparáveis. Repleto de dilemas internos, Mappo sabe um segredo sobre Icarium que pode acabar com a sua amizade, pelo que tenta esconder do amigo a sua verdadeira natureza. Eles enfrentam o enigmático sumo-sacerdote Iskaral Pust da Casa da Sombra, acabando por ser obrigados a colaborar com ele. Pust é o peão da terrível dupla de Ascendentes Trono Sombrio e Cotillion, que se vêm a revelar ser o tal Kellanved e Dançarino que se pensava terem sido mortos por Laseen.

É também neste núcleo que conhecemos mais pormenores da Casa Azath, que tem um portal na Cidade de Malaz, na chamada Casa dos Mortos. Aparentemente, existe um portal homólogo em cada continente, ligados através de caminhos ancestrais. Acede também ao inóspito Deserto do Raraku através da Azath chamada Tremorlor. Para além de funcionarem como transporte entre continentes, estas casas podem também funcionar como um caminho para a Ascendência, motivo pelo qual todos os metamorfos conhecidos como d’ivers e soletakens usam o Caminho das Mãos. É tornarem-se deuses o seu objetivo.

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Fonte: https://www.pinterest.pt/pin/557109416376425683/

O Apocalipse

Sha’ik é a profeta do Apocalipse, que move os seus exércitos ao longo do Império Malazano num conflito direto com a Imperatriz Laseen. Ela possui um livro que prevê o Apocalipse e faz mover uma enorme coluna de tempestade pelo Deserto do Raraku, preparando o evento conhecido como o Furacão. Só que, muito mais facilmente do que se presumia, Sha’ik é morta por uma flecha, o que vem instalar a dúvida nas multidões que a reverenciam.

Pouco a pouco, vem-se entendendo que a sua morte estava já prevista, e que a Sha’ik, senhora do Apocalipse que enfrentará Laseen será, na verdade, uma das personagens centrais do livro, que sofrerá gradualmente uma espécie de possessão, vindo a reencarnar na tão famosa profetisa, capaz de mover milhões contra a Imperatriz.

(Art by J.K. Drummond)  Art from the special edition of Deadhouse Gates by Steven Erikson.  Sha’ik
Fonte: https://www.pinterest.co.uk/pin/453385887460277633

A Casa Paran

Ganoes Paran foi um dos protagonistas de Jardins da Lua, mas não dá a cara neste segundo volume. Já as suas irmãs juntam-se ao tabuleiro de jogo, e não com pouca importância. Tavore Paran tornou-se conselheira da Imperatriz, após o desaparecimento de Lorn no primeiro volume. E tornou-se assim uma inimiga visceral da irmã Felisin, que a odeia. A irmã mais nova de Ganoes é uma das protagonistas de Os Portões da Casa dos Mortos e O Caminho das Mãos.

A sua história inicia-se em Unta, com uma purga aristocrática que a conduz para as Minas de Otaratal, o minério conhecido por obliterar qualquer produção de magia, e lá torna-se dependente de uma droga chamada durhang. Torna-se também próxima de um velho historiador chamado Heboric Toque Leve, antigo sacerdote do deus javali Fener, e de um ladrão chamado Baudin. Na fuga das minas e na travessia das Sete Cidades, Felisin encontra desolação, trava conhecimento com um mago chamado Kulp e atravessa um labirinto Kurald Emurlahn, enfrentando insetos horripilantes, dragões zombies e coisas ainda mais avassaladoras.

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Fonte: https://www.pinterest.pt/pin/496592296385496517/

A Corrente de Cães

Um dos núcleos mais emocionantes e desgastantes da obra é a famosa Corrente de Cães, nome dado à marcha levada pelo Punho Coltaine, o brilhante Comandante do Sétimo Exército Malazano, levando 50 mil refugiados aristocratas da invasão das Sete Cidades para o porto seguro malazano, a milhares de quilómetros de distância, atravessando todo o deserto e enfrentando inimigos por todos os lados. Duiker é o historiador que acompanha a marcha e regista todos os acontecimentos, sendo obrigado, no decorrer dos tempos, por se tornar ele mesmo um soldado.

O respeito entre patentes, entre seres humanos, os graus de degradação, as mortes de crianças, a fome, a desidratação e a doença são desoladores. Tribos hostis, exércitos inimigos e privações tornam-se companhias habituais durante a tentativa desesperada de escoltar os refugiados até Aren, a cidade mais próxima capaz de os albergar. O final desta história inclui também um pouco de magia, bem como uma referência mais do que casual à morte de Cristo.

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Fonte: http://malazan.wikia.com/wiki/Coltaine
As Pontas Que Se Tocam

Apesar de a grande maioria dos protagonistas não se cruzar sequer uns com os outros, há várias pontas que se tocam. Não só o Deserto do Raraku e a profecia do Apocalipse envolve todos os núcleos, como o ódio à Imperatriz Laseen, a instabilidade dos Ascendentes e o tal Caminho das Mãos que leva à Ascendência está também profundamente ligado a todos eles. As revelações finais, da identidade da Sha’ik renascida ao encontro tocante entre um historiador cego com as cruzes dos sacrificados, dão uma força terrível a este livro.

Há personagens secundárias que também se cruzam com mais do que um núcleo. Gesler, Tempestade e Vontade são três personagens muito bem construídas e com um papel capital em todas estas histórias. Espero ver muito mais deles nos próximos volumes, bem como de um toblakai aqui ainda sem nome que, disseram-me os passarinhos, se tornará um dos grandes protagonistas da Saga do Império Malazano. No próximo volume, Memórias do Gelo, voltaremos a encontrar velhos amigos de Jardins da Lua, como Whiskeyjack e Anomander Rake.

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Fonte: https://subterraneanpress.com/deadhouse-gates
CONCLUSÃO:

Deadhouse Gates, ou em bom português, Os Portões da Casa dos Mortos e O Caminho das Mãos, é um livro intenso, desgastante e profundo. Ele não te leva a afeiçoar com as personagens de pronto, mas a história deles é longa e dilacerante, e quando começas a criar empatia com elas, Steven Erikson começa a tirar-te. Não digo que morrem todos no final ou algo do género, mas as tragédias são mais que muitas e os encontros com dragões, fantasmas e pisos armadilhados são apenas barulho das luzes para dizermos que é uma saga de fantasia incrível.

É na profundidade das relações, nas orelhas cortadas, no peso das histórias de vida e em pequenos pormenores como a verdadeira identidade de um macaquinho que se encontra a verdadeira riqueza deste livro. Os Ascendentes estão mais próximos do que podíamos sequer calcular, nada é o que parece, e eles, com um senhor chamado Steven Erikson por trás, estão a fazer o seu jogo. A lançar os seus dados para o tabuleiro de jogo que é este Império Malazano.

4 comentários em “Especial: O Tabuleiro Malazano de Steven Erikson

  1. Oie,

    Clap, clap obrigado pela partilha deste tesouro está muito bom como sempre

    Abraço

    Fiacha

Comentário

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