Estive a Ler: A Coisa #1


O terror, que só terminaria vinte e oito anos depois (se é que terminou), começou, tanto quanto sei ou consigo saber, com um barco feito de uma folha de jornal a flutuar por uma valeta cheia da água da chuva.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA A PRIMEIRA PARTE DO LIVRO A COISA

Pennywise chegou finalmente a Portugal! It é um dos livros mais famosos do autor Stephen King, autor de The Shining, Carrie, Sr. Mercedes ou A Torre Negra. O escritor, conhecido como o mestre do terror contemporâneo, teve a ideia para o livro na década de 70 e começou a escrevê-lo em 1981, acabando por publicar o livro em setembro de 1986 pela Viking Press. It teve duas adaptações cinematográficas, a primeira em 1990 estrelada por Tim Curry e a segunda em 2017, correspondendo à primeira parte de uma duologia que será concluída em 2019.

Em 2018, a Bertrand Editora publica o livro em duas partes. O Livro I tem um total de 704 páginas e tradução de Cristina Lourenço e Maria João Lourenço, com a edição do Livro II, a conclusão do livro original, a ter lugar com um mês de diferença. Com o título A Coisa, esta é a edição portuguesa de um dos clássicos de terror mais aclamados de todos os tempos.

Imagem relacionada
Fonte: https://www.hobbyconsolas.com/noticias/segunda-parte-it-eso-ya-tiene-fecha-estreno-166846

A pergunta que se impõe é “Como assim, só agora?” It: A Coisa foi publicado um ano após o meu nascimento e só trinta e dois anos depois chega a Portugal. Seria compreensível se fosse um livro comum, sem o sucesso estrondoso que ele alcançou e manteve ao longo das décadas. Felizmente, ele chega aos escaparates nacionais este ano e não perdi tempo em pôr-lhe as mãos em cima. Os motivos: todos e mais alguns. Vou contar-vos tudo, mas vamos por partes.

“A Coisa é um livro que maravilha, que entretém, que nos faz rir e vibrar, que nos faz apreciar e degustar cada momento, que nos faz não querer parar de ler.”

Para minha vergonha (shame on me!!) nunca vi o filme. Nenhum dos dois, por isso tudo o que sabia sobre o livro é que tratava de uma criatura que aparecia nos esgotos vestida de palhaço e assassinava criancinhas ingénuas. Uma premissa interessante, mas que realmente nunca me levara às salas de cinema. A curiosidade pela obra em livro, porém, era mais que muita, afinal Stephen King é um dos autores que mais me interessaram nos últimos anos.

Sem Título 3
Fonte: https://www.bertrand.pt/livro/a-coisa-livro-i-stephen-king/21402837

Por isso, quando soube que o livro sairia em Portugal, fiquei em pulgas por lê-lo. O facto de ele ser lançado antes do Halloween ajudou à expectativa e… penso que se me faltavam motivos para ler este livro para ontem, a capa incrível que a Bertrand nos trouxe veio juntar-se à festa. Pessoal, a capa portuguesa é ou não é melhor do que qualquer outra que já viram de It? Pelo menos para mim, ela definitivamente é.

As altas expectativas são realmente perigosas. Quantas vezes não fui já ludibriado por elas? O perigo de vir a ser defraudado pela leitura do livro era real, mas passou longe. Amei realmente a história do livro, a forma como ela é contada, os vastos pormenores e todas as questões que são levantadas por King ao longo da narrativa. Vou ater-me aos acontecimentos deste primeiro volume ao longo da recensão, mas não será fácil manter o foco.

Resultado de imagem para it a coisa gif
Fonte: https://giphy.com/gifs/pennywise-it-movie-scary-clown-xT9IgvEOwRzUcZDRiU

A Coisa é um livro maravilhoso, daqueles que permanecem connosco por anos e anos, por mais coisas (coisas!) que possamos ler. E não fiquem a pensar que estou a entrar em contradição, mas Stephen King é um chato. O livro é gigante. Ele anda para a frente e para trás no tempo, prende-se com frivolidades e acontecimentos quotidianos e perde páginas e páginas com isso. E foca-se em determinados personagens por capítulos e capítulos que quando voltamos a outro quase já não nos lembramos bem de quem se trata.

“A pergunta que se impõe é “Como assim, só agora?

Ele faz isto tudo, e pessoalmente não é um método que eu aprecie como leitor, nem use como preceito nas minhas andanças de escritor. Durante a leitura da saga A Torre Negra muitas vezes senti-me aborrecido quando ele usa esta fórmula. Mas (este mas que faz uma diferença dos diabos!) neste livro tudo pareceu resultar. Todos os recantozinhos de história que facilmente poderiam ser aborrecidos cativaram-me, maravilharam-me, encantaram-me.

Resultado de imagem para it a coisa gif
Fonte: http://akigifs.blogspot.com/2014/07/pennywise-gifs-animados-it.html

A narrativa acompanha o dia-a-dia da cidade fictícia de Derry, localizada no Maine, nos anos de 1957/58 e 1984/85. Apesar de perseguir a vida de vários dos seus habitantes, ele foca-se em sete crianças ao melhor estilo Verão Azul / Goonies / Os Cinco que formam um grupo de verdadeiros loosers. Mas estes otários acabam por ser os responsáveis por travar os intentos malignos de um mal que consome a cidade, apesar de esse travão poder ser algo… temporário.

Ora vamos por partes. O livro começa em 57, quando um menino de capa amarela chamado George vai brincar num dia de chuva com o barquinho de papel que o seu irmão Bill lhe fez. O irmão está doente em casa e George vê o barquinho a virar para uma valeta, e é ali que o menino vê A Coisa. Vê um palhaço no esgoto. Numa mão, o seu barquinho de papel de jornal. Na outra, ele segura balões. Vamos flutuar? Após uma conversinha tu-cá-tu-lá com o garoto, o palhaço arranca-lhe um braço e deixa-o à morte.

Resultado de imagem para it stephen king boys
Fonte: https://ew.com/movies/the-25-creepiest-moments-in-the-new-trailer-for-stephen-kings-it

Este foi apenas um dos muitos assassinatos de que Derry foi vítima. Crianças morrem a toda a hora, e por estranho que pareça, ninguém consegue encontrar o assassino. É aí que, lesados pelo preconceito em várias das suas formas e pelo bullying dos mais velhos, um garoto gordo chamado Ben Hanscom, um fala-barato de nome Richie Tozier, um judeu chamado Stanley Uris, a ruiva Beverly Marsh, vítima de um pai violento, o negro Mike Hanlon e o asmático Eddie Kaspbrak se juntam a Bill “Gago” Denbrough, o irmão do falecido George, para parar os homicídios.

“A Coisa é um livro maravilhoso, daqueles que permanecem connosco por anos e anos, por mais coisas (coisas!) que possamos ler.

Separados, eles são vítimas de aparições da Coisa em várias das suas formas. A de palhaço é a mais frequente, mas ela também surge como um lobisomem, um leproso ou uma múmia. De uma forma ou de outra, os jovens conseguem sobreviver à Coisa, e é esse instinto de sobrevivência, a crueldade das suas vidas e sobretudo a sua amizade, que os faz parar com a Coisa e com os assassínios. Pouco a pouco, com excepção de Mike, eles abandonam Derry e seguem com as suas vidas.

Resultado de imagem para it a coisa gif
Fonte: https://wonderlandbyjess.com/2017/09/09/it-a-coisa-resenha/

Por incrível que pareça, todos eles tornaram-se pessoas extremamente bem sucedidas nas suas áreas, construíram vidas invejáveis, mas tudo o que eles viveram desapareceu das suas mentes. Simplesmente, esqueceram-se do que viveram quando crianças. Quando Mike lhes telefona para os avisar que os homicídios regressaram a Derry, eles sabem que têm que regressar e, pouco a pouco, as memórias regressam. Só a memória de como pararam a Coisa é que teima em se manter longe. 

A parte mais fantasiosa e fascinante do livro é o mais incrível que podíamos esperar. A Coisa manifesta-se das formas mais assustadoras e surpreendentes, acima de tudo com um humor e sarcasmo que dão um toque de refinamento ao livro. Ela tem susceptibilidades e sentimentos. Ela é realmente má. Ela é real. E é tudo o que podíamos querer num livro deste tipo. A Coisa aparece e desaparece quando quer e parece pôr e dispôr à sua vontade. Ela manda no livro até nós querermos que pare. Até alguém querer que Ela pare.

img_20181027_093549295819904.jpg

Mas A Coisa não é o único vilão do livro, nem a sua única qualidade narrativa. Através desta história fantasiosa, Stephen King põe em debate questões importantíssimas da sociedade, tanto dos anos 80 como dos anos de hoje. O bullying escolar é ilustrado no comportamento de Henry Bowers, a violência doméstica com Alvin Marsh e Tom Rogan, o Complexo de Édipo com Eddie e a sua esposa. A solidão e as disparidades sociais são destrinçadas com mestria.

É sobretudo o retrato de uma juventude rica em percalços, amizades e aventura, e no quanto a sua memória é necessária preservar. Do quanto mudamos, e do que essas mudanças são capazes de fazer em nós próprios enquanto indivíduos. A Coisa é um livro que maravilha, que entretém, que nos faz rir e vibrar, que nos faz apreciar e degustar cada momento, que nos faz não querer parar de ler.

Avaliação: 10/10

A Coisa (Bertrand Editora):

#1 Livro I

#2 Livro II

Comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto:
search previous next tag category expand menu location phone mail time cart zoom edit close