Estive a Ler: A Coisa #2


Bill fechou os olhos por um momento, sentindo o pequeno peso morto que era a mulher atrás de si, sentindo a colina em algum lugar à frente, sentindo o seu próprio coração dentro do corpo.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA A SEGUNDA PARTE DO LIVRO A COISA

Vamos flutuar? A segunda parte do livro A Coisa, a adaptação portuguesa do clássico It, chegou finalmente ao nosso país, menos de um mês após o lançamento da primeira parte. It é um dos livros mais famosos de Stephen King, autor que dispensa apresentações. Livros como Carrie, The Shining, Sr. Mercedes ou A Hora do Vampiro são algumas das obras de referência deste autor norte-americano, que usa o Maine natal como palco da grande maioria das suas obras.

Publicado em 1986 pela Viking Press, It ganhou duas adaptações cinematográficas e uma legião de fãs em todo o mundo, sendo também referência para outros autores (bem como para trajes de Halloween). A versão portuguesa foi dividida em dois volumes, com este segundo livro a conter um total de 568 páginas, ligeiramente menos espesso que o primeiro, e conta mais uma vez com a tradução de Cristina Lourenço e Maria João Lourenço.

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Se adorei o primeiro volume e achei que King era um chato do caraças, após finalizar este segundo livro só posso dizer “bota chato nisso”. O autor vai buscar pormenores que não interessam a ninguém para explorar minúcias de personagens e da cidade de Derry que não lembram ao menino Jesus. Isso prejudica a leitura? Talvez prejudique a quem goste de narrativas mais rápidas. Confesso que gosto de narrativas mais rápidas. Mas confesso também que li isto tudo com prazer. A Coisa é o meu novo crush literário.

“A característica que mais me impressionou neste livro é mesmo o seu nonsense.”

A primeira metade deste segundo volume obriga a uma certa paciência. Depois da tempestade de acontecimentos do primeiro livro, aquilo que eu esperava era que este se focasse nos protagonistas enquanto adultos, para resolverem o que ficou mal resolvido enquanto crianças. A verdade é que a história é toda ela muito mais focada na vivência das personagens na sua infância, e esta segunda parte oscila muito em saltos temporais que nem sempre são explícitos.

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Fonte: https://www.bertrand.pt/livro/a-coisa-livro-ii-stephen-king/21402838

A reta final, a que compreende a segunda metade do segundo volume, acelera o ritmo… e de que maneira. Os acontecimentos sucedem-se em catadupa e são completamente tresloucados. Só consigo imaginar King completamente ganzado enquanto escrevia isto, e a verdade é que é do conhecimento público que ele era viciado quando escreveu It. Os eventos do livro não fazem grande sentido se o analisarmos friamente e quisermos uma explicação lógica ou palpável para eles, mas acabam por fazer no cômputo geral da história.

Stephen King criou uma cidade fictícia com tal credibilidade e substância que podia ser difícil engolir os finais que nos ofereceu, mas também sempre nos foi dando pistas do que podia acontecer, e desde o primeiro parágrafo estamos conscientes que o livro é uma fantasia. Muito bem trabalhou ele para nos passar uma fantasia verosímil, uma vez que toda a narrativa é bem tecida e o final faz jus àquilo que o autor se propôs. Mas porque é impossível falar mais sem ser totalmente isento, preparem-se para alguns spoilers.

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Fonte: https://www.pinterest.pt/pin/561613016025997936/

Depois de ter lido A Torre Negra e ter achado a saga cheia de altos e baixos, em alguns momentos brilhante, em outros extremamente insignificante, é impossível ler este A Coisa e ficar indiferente às referências. Acabei por não perceber muito bem como é que estes miúdos / adultos fizeram as coisas na prática, como funcionou ao certo o Ritual de Chüd que tem tantas consequências no desenrolar da ação, mas vi o que eles fizeram, como o fizeram e o essencial dessa experiência.

“A Coisa é o meu novo crush literário.

A questão da tartaruga foi explorada na saga A Torre Negra como um símbolo de poder do bem. Em A Coisa, compreendemos finalmente o que é a Tartaruga e o que ela significa no macroverso criado por Stephen King (realço que A Coisa foi escrito antes de ela aparecer nos livros de A Torre Negra). Segundo este livro, podemos concluir que o nosso universo foi criado quando esta Tartaruga teve uma dor de barriga e, bem, vomitou. Só digo que a sua pequena aparição é deliciosa. O autor vai mais longe neste livro do que na saga de Roland, e acrescenta muitas mais nuances não só a esta visão expandida da sua obra, como à própria natureza da Coisa.

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Fonte: https://web.ultracine.com/argentina-it-eso-historia-taquilla/

A característica que mais me impressionou neste livro é mesmo o seu nonsense. Afinal, King oferece-nos um senhor calhamaço de horror urbano, explorando quase ad nauseam questões como o bullying, a violência doméstica, a perseguição religiosa e racial, os complexos físicos e a amizade infantil, permeados por um terror palpável de um palhaço metamorfo que mata criancinhas, para nos dar respostas completamente fantasiosas, onde coisas que habitam no espaço sideral têm influência direta na vida de todas estas pessoas.

A Coisa não é nenhum espírito maligno, nenhuma força das trevas, mas apenas um bichinho espacial que aterrou no nosso planeta na pré-História, e tipo Bubu tudo o que quer é comer e dormir. Neste caso, alimenta-se daqueles que mostram medo e revela-se na forma que as vítimas mais temem. Este bichinho nunca encontrou realmente oposição até conhecer aquelas sete crianças, e quando se via de barriga cheia, fazia sestas de 27 anos.

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Fonte: https://www.dailynews.com/2017/09/06/this-is-why-it-director-says-stephen-kings-killer-clown-horror-movie-was-so-hard-to-film/

Por isso, esse Ritual de Chüd que leva os protagonistas ao embate com A Coisa, tanto nos anos de 1958 como de 1985, é realizado num nível expandido, universal. Ou, se pudermos traduzir em palavras, num nível psíquico. Eles encontram A Coisa nos esgotos da cidade de Derry, que fora criada pelo monstro de acordo com as suas necessidades, e enfrentam-na. Eles vêem-na na forma mais aproximada à sua forma real, ainda que não seja definitivamente a “real”.

“A primeira metade deste segundo volume obriga a uma certa paciência.”

Bill “Gago” Denbrough, o irmão do menino de capa amarela que morre no primeiro capítulo do primeiro livro, é o líder do grupo. Foi ele que quase matou A Coisa nos anos 50 e é nos seus ombros que recai a responsabilidade de a enfrentar em adulto. Mas a magia pueril que envolvia a amizade dos sete perdeu-se, como as suas lembranças se foram perdendo. Usando os artifícios mais sujos, A Coisa move as suas peças para os travar.

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Fonte: http://lucusta.abroadcenter.info/it-movie-2017-stephen-king-review.xhtml

Desde logo, utilizando o perseguidor das crianças, Henry Bowers, o marido de Beverly Marsh, Tom Rogan, e a esposa de Bill, Audra, levando-os a Derry em simultâneo. E depois, fazendo aparições aqui e ali, mexendo com as incertezas e com os problemas pessoais de todos eles. O que gostei mais neste livro foi as nuances que o autor introduziu em todos eles, na forma como os finais não foram completamente felizes nem infelizes e em como todos eles me agradaram sobremaneira.

Outra situação completamente absurda foi uma cena de sexo em grupo protagonizada por crianças. O autor devia estar completamente pedrado quando narrou o momento em que todos diziam à menina “eu te amo, eu te amo”, mas as descrições extremamente visuais acabaram por transparecer toda a inocência das personagens e a cena não se revelou tão doentia quanto podem imaginar. Afinal, os meninos estavam perdidos e a rapariga achou que a única forma de descobrirem a saída era abrir as pernas para todos eles. E, o que é ainda mais bizarro e estúpido, é que funcionou.

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Fonte: https://www.popsugar.co.uk/

Stephen King colocou neste livro as maiores idiotices, os acontecimentos mais “o que é isto?” possíveis, mas também colocou em debate muitos assuntos sérios e caracterizou mais do que muito bem personagens riquíssimas e interessantes. O livro tem os seus altos e baixos, as situações mais lógicas e inconcebíveis possíveis, foi plano, chato e desconexo, foi como uma viagem de comboio que vai gizando o seu percurso natural até chegar a um ponto em que a carroçaria começa a abanar por todos os lados, dá uma cambalhota e voa até furar as nuvens.

Por tudo isto, volto a fazer a pergunta que fiz na recensão ao primeiro volume. Como é que uma obra tão poderosa demorou mais de trinta anos a ser publicada no nosso país? It: A Coisa, é um livro que decerto fere susceptibilidades, que decerto não agradará aos fãs dos romances cor de rosa, não agradará aos que gostam de narrativas rápidas, não agradará a quem quer tudo muito bem explicado ou com muito sentido. A Coisa é um livro tremendamente consistente até certo ponto, até ficar completamente tresloucado e ser todo ele inconsistência. Mas mesmo estes volte-faces absurdos contribuíram para que eu o tenha adorado, de uma ponta à outra.

Avaliação: 10/10

A Coisa (Bertrand Editora):

#1 Livro I

#2 Livro II

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