Estive a Ler: A História de Uma Serva


Passado o primeiro choque, depois de uma pessoa começar a aceitar, o melhor era deixar-se ficar letárgica. Podíamos dizer a nós próprias que estávamos a poupar forças.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO A HISTÓRIA DE UMA SERVA

Margaret Atwood nasceu em Otava no ano de 1939. É a mais famosa autora canadiana da atualidade e publicou mais de quarenta livros, que permeiam a ficção, a poesia e o ensaio. Foi distinguida com prémios literários distintos ao longo da sua carreira, incluindo o Arthur C. Clarke, o Booker Prize, o Governor General’s Award e o Giller Prize, bem como o Prémio para Excelência Literária do Sunday Times, a Medalha de Honra para Literatura do National Arts Clube, a Medalha de Chevalier de l’ Ordre des Artes e des Lettres e o Prémio Literário de Londres.

Traduzida para trinta e cinco línguas, Atwood vive em Toronto com o escritor Graeme Gibson. A sua obra mais conhecida e difundida é o The Handmaid’s Tale de 1985, que ganhou adaptação cinematográfica em 1990 e televisiva em 2017, pelas mãos da produtora Hulu. Em Portugal, o livro foi publicado em agosto de 2013 pela Bertrand Editora, com o título A História de Uma Serva, tradução de Rosa Amorim e um total de 352 páginas.

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Fonte: https://www.bustle.com/p/is-the-handmaids-tale-season-2-based-on-the-book-the-show-has-used-up-most-of-its-source-material-8876101

A História de Uma Serva não me fascinou, apesar de ser um livro elegante e riquíssimo em significados. Trata-se de uma distopia na melhor tradição no género, que explora as dificuldades e crueldades que são perpetradas quando um regime extremista se instala. No caso, o livro é uma crítica ao papel da mulher na sociedade, à castração a que era sujeita e até mesmo à misoginia do género oposto. Para tal, Atwood não se poupou a esforços para criar um regime totalitário em que a mulher ocupa uma função meramente recreativa e reprodutora.

“Quando se tornam “Servas”, estas mulheres perdem o nome e ganham um novo, que faz referência a quem é o seu patrono.

Creio que ela acertou na mosca. A História de Uma Serva é uma bandeira contra as desigualdades de género, um exemplo claro de que a crueldade dos homens para com as mulheres foi e é uma realidade e que deve ser travada a qualquer custo, e que as mentes mais acéfalas que reduzem a mulher ao papel de objeto são um perigo para qualquer sistema social. Como tal, retratar o que aconteceria no mundo se essas ideias se tornassem canónicas, é um monumento ao feminismo.

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Fonte: https://www.bertrandeditora.pt/produtos/ficha/a-historia-de-uma-serva/15091936

Gostei bastante tanto do ambiente como do desenvolvimento da história. Da estratificação em classes desenhada pela autora. Da sua escrita elegante e competentíssima. Mas achei tudo muito insípido. Talvez tenha sido propositado, mas a leitura quase recendia a lixívia, pela forma como era narrada, de forma tão frígida, tão desprovida de sentimentos.

Parece-me ter sido de facto propositado, mas a habituação daquelas mulheres àquela vida, a frivolidade com que realizavam as suas tarefas e deveres (de todos os tipos) acabou por não me conseguir passar as emoções que penso serem necessárias para a experiência de leitura ser proveitosa. Foi tudo extremamente mecânico, sem emoções, sem sensações, acima de tudo sem Humanidade. Se foi essa a intenção, parabéns!, mas o livro não me chegou cá dentro por causa disso.

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Fonte: http://the-handmaids-tale.wikia.com/wiki/Handmaid

Num passado alternativo, os Estados Unidos transformaram-se na República de Gileade, um governo totalitário que lida com uma guerra civil exaustiva. As taxas de fertilidade caíram a pique, graças à poluição e às doenças sexualmente transmissíveis. Então, a sociedade foi engolida por extremistas religiosos de direita que derrubaram o governo e impuseram um novo regime, em que as mulheres são subjugadas por lei e brutalizadas, sem qualquer autorização para trabalhar, ter pertences, dinheiro ou mesmo pegar num livro. Sim, até a leitura lhes está vedada!

Mas, a toda a volta, as paredes têm prateleiras. Estão cheias de livros. Livros, livros e mais livros, ali mesmo à vista, sem cadeados, sem caixas. Não admira que não possamos aqui entrar. É um oásis do proibido. Tento não ficar a olhar.

O largo aumento dos índices de infertilidade fez com que as mulheres férteis fossem recrutadas para Gileade, sendo chamadas de Servas. Elas vivem em casas onde se submetem a violações assistidas por parte dos Comandantes, homens de poder, de modo a que estes possam assegurar a sua descendência. Quando se tornam “Servas”, estas mulheres perdem o nome e ganham um novo, que faz referência a quem é o seu patrono.

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Fonte: https://itunes.apple.com/ca/tv-season/the-handmaids-tale-season-2/id1365728911?l=fr

Defred torna-se “Serva” na casa do Comandante Fred, como o nome indica, sendo vulgarmente vigiada pela sua esposa, a ciumenta Serena Joy. Defred pode ir uma vez por dia aos mercados, cujas tabuletas se tornaram imagens, uma vez que as mulheres estão proibidas de ler. Deve rezar para que o Comandante a engravide, já que o contrário obriga ao exílio nas Colónias, corrompidas pelo espetro da poluição.

À medida que a atração por um jovem trabalhador chamado Nick se identifica, Defred relembra-se do marido Luke e da filha, sem saber se estão vivos ou mortos ou o que lhes aconteceu. Pouco a pouco, a proximidade com o Comandante e a descoberta de outros mundos e outras possibilidades ganham forma na sua mente fracturada e moldada pelo medo.

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Fonte: https://www.cosmopolitan.com/lifestyle/a22117181/handmaids-tale-wine/

Apesar da premissa ser interessante e da escrita não deixar a desejar, acabei por sentir bastante a falta de profundidade psicológica na protagonista, ou em qualquer outra personagem. Os momentos de maior intensidade e interesse narrativo acabaram por ser os diálogos entre Defred e o Comandante, que acabaram por não chegar a nada do que se poderia sequer especular.

A História de Uma Serva não foi uma má leitura, não desgostei, mas fiquei com a sensação de que não me ofereceu nada, não me enriqueceu, nem sequer me entusiasmou. Para tanto show off que este livro teve, para tanta importância que a premissa acarreta, acabou por ser uma história bem simples e banal, que não me despertou as emoções que eu esperava.

Avaliação: 5/10

2 comentários em “Estive a Ler: A História de Uma Serva

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