Estive a Ler: Memórias do Gelo, Saga do Império Malazano #4


A barraca estava periclitantemente encostada à muralha interior de Pale, uma amálgama de tábuas, couro esticado e vime, o seu pátio era um limiar de poeira branca, cascas de abóbora, pedaços de louça partida e aparas de madeira. Fragmentos de cartas de madeira lacada estavam pendurados no cordel por cima da porta estreita, girando lentamente no calor húmido.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO “MEMÓRIAS DO GELO”, QUARTO VOLUME DA SÉRIE SAGA DO IMPÉRIO MALAZANO

Memories of Ice é o terceiro volume original da série Malazan Book of The Fallen de Steven Erikson, autor canadiano que esteve no nosso país no âmbito da ComicCon Portugal 2018. Arqueólogo e antropólogo de profissão, o escritor continua a trabalhar no vasto mundo que criou como cenário para RPG em colaboração com Ian C. Esslemont, embora a série de dez volumes seja a espinha dorsal da sua obra.

Publicada em Portugal pela Edições Saída de Emergência com o título Saga do Império Malazano, a versão nacional foi dividida a partir do segundo volume, pelo que este Memórias do Gelo é por cá o quarto livro. Com um total de 512 páginas e tradução de Susana Clara, a trama segue os eventos de Jardins da Lua, passando-se ao mesmo tempo que a ação de Os Portões da Casa dos Mortos e O Caminho das Mãos. O livro foi publicado originalmente em 2001, pela Bantam.

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Fonte: http://malazan.wikia.com/wiki/File:Quick_Ben_shaved_knuckle_in_the_hole_by_Autumn_Tavern.jpg

Será possível que Steven Erikson consiga surpreender mais do que em Jardins da Lua, Os Portões da Casa dos Mortos e O Caminho das Mãos? O Nuno diz que sim. Gostei tanto deste Memórias do Gelo como dos seus antecessores, e isso não é dizer coisa pouca. A narrativa volta a adensar-se, voltam a aparecer personagens novos com grande importância e em certos momentos cheguei a temer que o autor perdesse a mão em tantas subtramas e imensidão de personagens, mas isso não acontece. Pelo contrário, todos convergem para uma mesma direção.

“De facto, gostei mais desta primeira metade do que tinha gostado da primeira metade de Deadhouse Gates, Os Portões da Casa dos Mortos.

Se já havia sido surpreendido nos volumes anteriores com dragões zombies, macacos metamorfos, cães de sombras e múmias ressuscitadas, Memórias do Gelo adiciona ainda criaturas fofinhas como dinossauros zombies com espadas no lugar de braços, como exemplo. Para resumir este livro, posso dizer que ele une a grande maioria das personagens de Jardins da Lua e hordas de mortos-vivos contra um inimigo comum, cujos sacerdotes têm no canibalismo uma das suas características menos arrepiantes. Mas ele é muito mais do que esperas.

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Fonte: http://www.saidadeemergencia.com/produto/memorias-de-gelo/

Os primeiros dois ou três capítulos do livro podem ser um pouco confusos no que diz respeito à dinâmica entre entidades até então desconhecidas, mas pouco a pouco tudo te é revelado. Até porque uma das características deste Memórias do Gelo é que, ao contrário dos anteriores, é explicado muito sobre deuses, labirintos e ações perpetradas, havendo até lugar a flashbacks sobre a formação dos Queimadores de Pontes e a origem do poder de Ben Ligeiro.

Irei ater-me aos eventos deste livro, pelo que se nada sabes sobre esta saga, aconselho-te a leitura das minhas recensões aos volumes anteriores, ou mesmo aos especiais que escrevi sobre eles (aqui e aqui) que podem ser bem mais elucidativos. O último artigo podes também encontrá-lo no site da Revista Bang! Antes de leres os próximos parágrafos, advirto-te no entanto que estes contêm alguns spoilers sobre o Memórias do Gelo.

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Fonte: https://www.pinterest.pt/pin/454159943663718276/

Este livro acompanha dois eventos extremamente caóticos. Um deles envolve o ataque deliberado de uma entidade conhecida como Acorrentado ou Deus Estropiado à deusa Cresta, através de um veneno letal. A morte da deusa significa, por miúdos, a extinção da Humanidade, pelo que tal ataque vem a revolucionar a estabilidade de todos os Ascendentes e provocar um verdadeiro quebra-cabeças aos magos. A importância da deusa e a origem deste deus é escrutinada na primeira metade do livro.

“Será possível que Steven Erikson consiga surpreender mais do que em Jardins da Lua, Os Portões da Casa dos Mortos e O Caminho das Mãos?

O outro evento, bem mais terreno, é a expansão do Domínio Pannion no continente de Genabackis. Há um Vidente que lidera um exército de fiéis dedicados à sua causa, e tem conseguido um avanço surpreendente, o que melindrou realmente as ambições do Império Malazano. Pouco se sabe sobre essa facção, mas a pouco e pouco é revelado que eles “recompensam” quem quer que se atravesse no seu caminho e se nega a aderir à sua . Essa recompensa é a morte. Os seus sacerdotes guerreiros são os tenescowri, que se alimentam da carne dos infiéis.

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Fonte: https://www.pinterest.pt/pin/386254105532144569/

Outra das armas de Pannion são os caçadores k’ell, ou K’Chain Che’Malle, uma espécie de velociraptors mortos-vivos que apesar de aliarem perigo e monstruosidade, acabam por ser facilmente eliminados pela quantidade de personagens poderosas na magia que o livro revela. Quem também os pretende eliminar são os T’lan Imass, que regressam assim ao mundo para uma Segunda Reunião onde poderão sarar as feridas do passado. Desse modo, hordas de mortos-vivos poderão ser uma mais-valia no travão aos avanços do Domínio. Chegarão a tempo?

Capustan está sob cerco dos pannionitas. A cidade a norte do Rio Catlin é governada pelo príncipe Jelarkan, mas quem realmente manda nos seus desígnios é o Consílio de Máscaras, composto pelos sacerdotes Rath. Cada um desses sacerdotes representa um deus, embora sirvam muito mais os seus interesses pessoais do que as causas dos seres divinos. Quem mais parece preocupar-se com a cidade são os membros de uma seita militar dedicada do deus Fener, os Espadas Cinzentas.

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Fonte: https://forums.spacebattles.com/threads/pannion-domin-malazan-vs-final-empire-mistborn.518560/

Karnadas, o Representante, Brukhalian, o Espada Mortal, e Itkovian, o Escudo da Bigorna, são três homens de coragem e perseverança, que tentam lutar como podem para manter a cidade face ao cerco que se avizinha e procuram conquistar alianças para uma resistência a que poucos parecem interessados. Revelar a importância do seu culto pode tornar-se inevitável, face ao discorrer dos acontecimentos. Farakalian, Sidlis e Velbara são outros Espadas Cinzentas que lutam pela cidade.

“A verdade é que são muitos e poderosos os inimigos do Domínio Pannion, mas serão eles capazes de se unir para salvar Capustan?

A caminho de Capustan está uma comitiva inusitada de caravaneiros. Sob a batuta do comerciante Keruli, que forjou uma aliança duvidosa com a enigmática dupla Bauchelain e Korbal Broach, que trabalham com a necromância, o grupo oferece uma dinâmica intimista, cada qual com as suas agruras e dramas pessoais. Grunhido é um velho guarda de caravana rezingão, Ardósia Menackis uma guarda bonita e traiçoeira, Harllo um mulherengo e Buke um antigo alcóolatra que deixou de beber desde que perdeu a família num incêndio. Há ainda o servo dos magos, Emancipor Reese, e a sua gata pulguenta. E três barghastianos, Hetan, Cafal e Netok, que se unem a eles com um propósito escondido.

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Fonte: https://www.goodreads.com/book/show/175983.Memories_of_Ice

Em Morn encontramos então dois velhos conhecidos de Jardins da Lua, que de formas distintas se relacionaram com a malograda conselheira Lorn. Um deles é o Jovem Toc, que com um único olho é amaldiçoado com várias visões que o transportam à vida e à morte de Treach, o Tigre do Verão. O outro é o imass Onos T’oolan, mais conhecido por Tool. Ele é o representante do seu povo no que diz respeito às suas intenções dúbias que envolvem o embate com os K’Chain Che’Malle.

Os dois encontram ali Lady Invídia, filha do ancestral Draconus, acompanhada pelos seus servos seguleh, Mok, Thurule e Senu, seres de índole guerreira imbatível que vivem numa ilha a sul de Morn, a loba gigante Baaljagg e o cão Garath. As intenções deste grupo parecem ser também peculiares. Com uma boa dose de humor, nomeadamente na relação entre Toc e Invídia, também eles convergem para Capustan com um objetivo em mente: travar o Domínio Pannion.

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Fonte: http://malazan.wikia.com/wiki/File:Tool_and_Toc_by_Dark.H.jpg

Os opositores ao Domínio abundam, e o Império Malazano é um deles. Inimigos figadais no primeiro volume da saga, as forças de Dujek Umbraço e as de Anomander Rake unem-se contra os pannionitas em Memórias do Gelo. Deste modo, Whiskeyjack, Ben Ligeiro, Trote, Azarve, Marreta e novos membros do exército como Mescla, Seletora, Inquieto, o porta-estandarte Artanthos ou o mago Spindle tornam-se companheiros de jornada de Caladan Brood, Rake e os seus sequazes, onde se encontram, por exemplo, a tiste andii Korlat ou o Grande Corvo Bruxa.

“E somos sempre premiados com uma nota de humor, até com o sempre multifacetado Ben Ligeiro.

O exército de Brood inclui ainda, para além das tropas do Senhor da Guerra e dos tiste andii de Rake, os nativos rhivi. A líder deste povo é Mhybe, uma mulher que sofre com a solidão e com a falta de consideração da filha, Raposa Prateada, pelos seus sacrifícios. A jovem nasceu há pouco tempo, mas vem roubando a idade e a vitalidade à mãe, por um qualquer método inusitado. O propósito: ser adulta a tempo de liderar os rhivi numa guerra que se adivinha.

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Fonte: https://forum.malazanempire.com/gallery/image/563-kallor-the-high-king/

Esta menina vem provocar um conflito e instalar a dúvida dentro das forças de Brood, porque Kallor, o Rei Supremo, a pretende matar. E não só pelo poder estranho que ela revela. Raposa Prateada é, mais do que uma menina que suga os anos da mãe para envelhecer, a reencarnação de três magos numa única pessoa: Tattersail, Nightchill e Bellurdan.

A revelação de que Raposa Prateada é Tattersail leva Whiskeyjack a chamar Ganoes Paran para o reencontro entre os dois amantes, embora ela seja atualmente uma criança. O reencontro desperta uma série de revelações, ao mesmo tempo que o Baralho de Dragões revela uma nova carta com a face de Paran. O capitão dos Queimadores de Pontes descobre que está prestes a ascender.

Uma delegação chega de Darujhistan para se juntar ao acampamento já por si problemático: Estraysian d’Arle, Coll, Murillio e Kruppe juntam-se à festa, embora o mago dos sonhos não seja propriamente bem-vindo e revele uma agenda própria, que nenhum dos outros parece propenso a descobrir.

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Fonte: http://malazan.wikia.com/wiki/Caladan_Brood

A verdade é que são muitos e poderosos os inimigos do Domínio Pannion, mas serão eles capazes de se unir para salvar Capustan? Ou deixarão a cidade cair como opção estratégica? Quão poderoso é este Vidente Pannion ao ponto de causar temor em tantos povos e facções? Adorei as relações entre as personagens, do desenvolvimento e carisma dos estreantes, à amizade entre Rake e Whiskeyjack passando pelo humor permanente de personagens como Kruppe e os Queimadores de Pontes, como é exemplo a questão da mesa do Baralho que são obrigados a carregar para todo o lado.

“A familiaridade com a maior parte das personagens, o tom de humor e uma maior clareza no desvendar do mundo e das suas raças ajudaram a que me tivesse agradado, mas não foi só.”

É precisamente isto que distingue Memórias do Gelo da dupla Os Portões da Casa dos Mortos e O Caminho das Mãos. O Domínio Pannion e o Deus Estropiado parecem ser adversários mais terríveis do que aqueles que nos foram apresentados nos livros anteriores, nomeadamente as forças de Laseen, mas aqui o desgaste é menor, há mais esperança e menos pessimismo. E somos sempre premiados com uma nota de humor, até com o sempre multifacetado Ben Ligeiro.

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Fonte: https://www.reddit.com/r/Malazan/comments/7gl2e1/anomander_rake/

Memórias do Gelo não é um livro perfeito. A adição permanente de personagens torna cansativo o percurso narrativo, mas Erikson consegue dosear bem a entrega dos núcleos e a partir de determinado momento fá-los convergir. É um livro que continua a desvendar pedaços da sua intriga central, mas decididamente faz mais revelações e oferece-nos mais respostas neste livro do que o fez nos anteriores. De facto, gostei mais desta primeira metade do que tinha gostado da primeira metade de Deadhouse Gates, Os Portões da Casa dos Mortos.

A familiaridade com a maior parte das personagens, o tom de humor e uma maior clareza no desvendar do mundo e das suas raças ajudaram a que me tivesse agradado, mas não foi só. A preparação da guerra é extremamente bem montada e descrita e o nível badass aumenta a cada página. O livro merecia uma revisão bem melhor, mas a quantidade de gralhas não rouba o mérito a uma tradução bem conseguida à obra daquele que é já um dos meus autores de eleição.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 9/10

Saga do Império Malazano (Saída de Emergência):

#1 Jardins da Lua

#2 Os Portões da Casa dos Mortos

#3 O Caminho das Mãos

#4 Memórias do Gelo

#5 Capustan

10 comentários em “Estive a Ler: Memórias do Gelo, Saga do Império Malazano #4

  1. eu sou do brasil e acabei de descobri que a serie foi cancelada por aqui,por causa da crise das livrarias do pais,então eu to pensando em pegar as edições de Portugal.Você consegue me fala quando sai o volume 5 ? Porque eu não gosto da ideia de ler só a metade da historia,eu quero ler tudo de uma vez.Obrigado

    1. Boas!
      A previsão é abril / maio.
      Abraço e boa leitura. 👍

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