Estive a Ler: Chamavam-lhe Grace


Estamos em 1851. No meu próximo aniversário, vou fazer vinte e quatro anos. Estou aqui fechada desde os dezasseis. Sou uma prisioneira modelo e não dou problemas. É o que diz a esposa do diretor, ouvi-a dizer isso. Sou dotada para ouvir sem dar nas vistas.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO CHAMAVAM-LHE GRACE

Vencedora do Man Booker Prize em 2000 e do Príncipe das Astúrias em 2008, Margaret Atwood é uma das maiores escritoras de língua inglesa. Na sua obra destaca-se The Handmaid’s Tale, considerada uma das melhores distopias da atualidade, bem empolada pelas adaptações cinematográficas e televisivas, mas é também de destacar Alias Grace, que conheceu em 2017 uma adaptação televisiva pela Netflix, numa mini-série protagonizada por Sarah Gadon, Anna Paquin e Paul Gross.

Em Portugal, Alias Grace chegou em setembro de 2018 pelas mãos da Bertrand Editora, com o título Chamavam-lhe Grace. Baseado em factos verídicos, o livro foi publicado em 1996 pela McClelland & Stewart e chega finalmente ao nosso país, a reboque do sucesso da autora em terras lusitanas com The Handmaid’s Tale. Atwood esteve inclusive no Porto em princípios de novembro, para falar sobre a importância da mitologia na sua obra. A edição portuguesa tem um total de 480 páginas e tradução de Ana Falcão Bastos.

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Fonte: https://oldarts.hanewsmedia.com/2018/01/09/binge-and-repeat-who-is-alias-grace/

Com um início poderoso, um miolo algo aborrecido e um final bem estruturado, Chamavam-lhe Grace cativou-me muito mais do que a famigerada História de Uma Serva, considerada a obra maior de Margaret Atwood. Em termos de escrita, não há muito a dizer. Atwood sabe envolver com as palavras, espelhando todo o tipo de emoções, cores ou cheiros na sua escrita elegante e refinada. Ela pinta o mundo com tanta mestria que por vezes chega a cair no exagero.

“Todas as nuances da sociedade canadense do séc. XIX são postas a nu pela autora, que pisca ainda o olho a temas como o espiritismo, a charlatanice e as hipocrisias da época.

Ler Margaret Atwood é contar com muito 8 ou 80. Ela pode queimar trezentas páginas a descrever locais e ambientes, mas naqueles momentos mais chocantes e asfixiantes ela diz muitíssimo com poucas palavras. De facto, se há uniformidade na sua obra é a forma como ela deixa sempre muita coisa em aberto, a requerer uma leitura sob camadas e à imaginação do leitor.

Sem Título 2
Fonte: https://www.bertrandeditora.pt/produtos/ficha/chamavam-lhe-grace/22007455

A história acompanha Grace Marks, uma criada do século XIX que nasceu na Irlanda e migrou para os Estados Unidos ainda adolescente com a família, em busca de uma vida melhor. Após a morte da mãe, Grace começa a servir em casas particulares como criada. Na mansão dos Parkinson, priva com uma jovem enérgica chamada Mary Whitney, que se torna a sua melhor amiga. A morte precoce da jovem Mary, porém, vem a assombrar a sua vida.

Quando Nancy Montgomery a encontra, ela aceita sem muitas questões tornar-se criada em casa de Thomas Kinnear, um homem muito rico e solteiro, no Canadá. Nancy é a governanta e precisa de ajuda para o desempenho das tarefas domésticas, mas são as parecenças comportamentais de Nancy com a falecida Mary que a fazem forjar de imediato esse vínculo. Nem tudo, porém, é o que parece.

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Fonte: https://www.vanidad.es/videosvanidad/series-feministas-ahora/attachment/series-feministas-ahora-portada

Na mansão de Kinnear, ela trava conhecimento com o jovem Jamie Walsh, um rapaz ruivo e sardento, e com o capataz James McDermott, que vem alimentando um ódio de estimação para com Nancy e revela a Grace que a governanta e o patrão são amantes, algo que ela já teria desconfiado se não fosse tão ingénua. Então, quando é despedido, McDermott planeia o homicídio de Nancy e Thomas, que vem a perpetrar com a suposta ajuda de Grace.

“A escritora canadiana não se limita a lançar a questão: seria Grace culpada ou inocente?

Segundo todos os relatos, James e Grace viviam uma relação amorosa e fugiram após o duplo homicídio. Na sua fuga, Grace usou o nome Mary Whitney, que pertencera à sua falecida amiga, mas o casal viria a ser apanhado pelas autoridades e julgado em praça pública. James McDermott foi condenado à forca, enquanto Grace, por ser mulher e serem muitas as vozes divergentes no que dizia respeito ao fim a dar-lhe, foi sentenciada a prisão perpétua.

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Fonte: https://www.trouw.nl/cultuur/haar-hele-leven-was-grace-een-speelbal-van-de-man~aa52b363/

Inspirado em factos verídicos, Chamavam-lhe Grace traz uma visão ficcionada de Margaret Atwood a um crime real, cuja verdade nunca veio a ser descoberta. Seria Grace uma mulher perturbada, uma amante passiva, uma assassina fria e metódica ou uma inocente? Vários foram aqueles que tentaram fazer valer a ideia de que ela não passou de uma cúmplice constrangida pela violência de McDermott, razão pela qual acabou por lhe ser dado um perdão em 1872.

A escritora canadiana não se limita a lançar a questão: seria Grace culpada ou inocente? Para a protagonista, tal pergunta parece não ter realmente importância. Através de excertos do livro Life in the Clearings de Susanna Moodie, autora que visitou a visada tanto no asilo psiquiátrico como na prisão, percebemos que Grace tinha todos os condimentos para ser a real assassina e mentora do plano.

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Fonte: https://www.gazeta.ru/culture/2017/11/09/a_10976792.shtml

Mas Margaret Atwood lança muitos mais detalhes à sua vida. A história baseia-se nas visitas de um psiquiatra, Simon Jordan, à cela de Grace, a pedido do reverendo Verringer, que acreditava na inocência da jovem. Ele tenta destrinçar o que realmente aconteceu em casa de Kinnear, e para isso fá-la revisitar as várias fases da sua vida, para lhe desenhar um perfil psicológico e também entender o que realmente ali aconteceu. Percebemos depressa que Jordan tão depressa se apaixona pelos seus relatos, como pela jovem condenada.

“De facto, se há uniformidade na sua obra é a forma como ela deixa sempre muita coisa em aberto, a requerer uma leitura sob camadas e à imaginação do leitor.

A reboque de uma sociedade intransigente e de uma mãe castradora, Simon Jordan leva uma vida confinada pelas exigências sociais e pelo que é esperado dele, sem perder o sonho de vir a abrir um hospício. Todas as nuances da sociedade canadense do séc. XIX são postas a nu pela autora, que pisca ainda o olho a temas como o espiritismo, a charlatanice e as hipocrisias da época.

Também Grace desenvolve um sentimento especial pelo médico. Não que se possa chamar de amor ou paixão, mas a sua ausência provoca-lhe tristeza. E é através da relação entre médico e paciente que vamos conhecendo mais e mais sobre esta Grace, pela sua perspetiva. A autora, porém, deixa que seja o leitor a desvendar os seus mistérios, até porque nunca foi um julgamento aquilo que ela pretendeu ao escrever esta obra. Conseguimos ler um livro pela perspetiva de uma personagem, sem perceber quão grande foi a sua participação num acto de natureza macabra.

Avaliação: 8/10

2 comentários em “Estive a Ler: Chamavam-lhe Grace

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