Estive a Ler: Escrito na Água


Estava a pensar no que te iria dizer quando lá chegasse, em como sabia que tinhas feito aquilo para me magoar, para me perturbar, para me amedrontar, para me dar cabo da vida. Para me chamares a atenção, para me arrastares de volta para onde me querias.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO ESCRITO NA ÁGUA

Paula Hawkins foi jornalista na área financeira durante quinze anos, antes de se dedicar inteiramente à escrita de ficção. Nascida e criada no Zimbabué, mudou-se para Londres em 1989, onde vive atualmente. A Rapariga no Comboio foi o seu romance de estreia, que tornou-se um verdadeiro fenómeno mundial, com mais de 2 milhões de livros vendidos em apenas 3 meses e adaptado para os cinemas pela DreamWorks Pictures num sucesso de bilheteiras com Emily Blunt no papel principal.

O segundo livro da autora, Into the Water, foi também equacionado para uma adaptação cinematográfica pela DreamWorks mas, até ao momento, não chegou a arrancar. O livro foi lançado em 2017 e a publicação foi quase simultânea no nosso país graças ao excelente trabalho da TopSeller. Com o título Escrito na Água, a versão nacional deste thriller asfixiante tem um total de 384 páginas.

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Fonte: https://www.thestar.com/entertainment/books/reviews/2017/05/07/dive-into-paula-hawkins-new-thriller-into-the-water.html

Paula Hawkins conquistou-me com o seu primeiro romance. A Rapariga no Comboio, apesar de ser um livro mais direccionado a mulheres, por tudo o quanto fala sobre elas e as suas idiossincrasias, cativou-me pela linguagem ligeira e pela quantidade de questões relacionadas às relações humanas que ela suscitou, para além de conseguir comunicar bastante com o leitor através da sua protagonista. Escrito na Água não funcionou tão bem comigo.

“Paula Hawkins tem ainda de trabalhar bastante nesse aspeto, se quer ganhar leitores que não os meros Fox Life viewers.

Com isto, não venho mitigar o seu mérito. Sendo transparente, Escrito na Água é um livro melhor do que A Rapariga no Comboio, tanto no que diz respeito ao amadurecimento enquanto escritora de Paula Hawkins, como na construção de um problema e na sua resolução. Gostei mais do desfecho deste livro do que daquele que conheci no seu livro de estreia. Simplesmente, não me tocou cá dentro da mesma forma.

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Fonte: http://www.topseller.pt/livros/escrito-na-agua

Podia seguir uma explicação mais simplista, do tipo não há amor como o primeiro e coisas do género, mas não é só esse o caso. Gostei que Hawkins nos oferecesse um vasto naipe de pontos de vista e viesse a construir pouco a pouco o que aconteceu no célebre Poço das Afogadas ao longo da narrativa. Mas esse abrir de panorâmica veio obliterar um pouco a empatia entre leitor e personagens. Por muito que gostemos deste ou daquele, sinto que o foco deveria ter sido Nel Abbott, a falecida. E não foi. Gostaria de conhecer muito mais sobre aquela personagem.

Também demorei a entrar na história do livro, com tantos pontos de vista algo abstractos no início. Cada personagem tinha uma perspectiva sua sobre aqueles determinados acontecimentos, e eu nadei um bocadinho sem saber quem era quem ou qual o propósito e função daquela personagem. A partir do primeiro terço a narrativa ficou mais compreensível, e do meio para a frente tudo ficou muito mais fluído e interessante. Bem interessante.

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Fonte: https://www.independent.co.uk/arts-entertainment/books/reviews/paula-hawkins-into-the-water-review-girl-on-the-train-a7708976.html

Nel Abbott tinha uma fixação pelo rio da sua vila natal, Beckford, também conhecido como o Poço das Afogadas. Várias mulheres foram levadas para ele, e ali morreram. Apesar de muito se acreditar que é o rio que as conduz às suas águas calmas para nelas se suicidarem, há também suspeitas de que aquelas águas sejam o local ideal para todo o tipo de crimes.

Gostei mais do desfecho deste livro do que daquele que conheci no seu livro de estreia.”

Nel decide pesquisar sobre essas mortes. Nel, que tem uma relação desavinda com a irmã Jules (não Julia) e vive com a filha Lena, cuja melhor amiga, Katie, fora a última vítima do rio. Nel, obcecada e determinada em encontrar respostas. Nel, cujo corpo é também ele encontrado morto naquelas águas. Sem qualquer vestígio de homicídio, parece evidente que ela se atirou do penhasco para ali encontrar a morte.

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Mas nem tudo é o que parece. Poucos dias antes, ela havia deixado uma mensagem telefónica urgente para a irmã, num tom assustado. Correria Nel algum perigo? Que segredos escondia? Que segredos esconde a sua filha, Lena, e o que sabe esta sobre a morte de Katie? O que saberá Louise Whittaker, a mãe de Katie? E o seu filho mais novo, o pequeno Josh? O que saberá Nickie Sage, a anciã espírita com quem Nel tanto privava? E o misterioso professor Mark Henderson?

A dupla de polícias Erin Morgan e Sean Townsend irão tentar resolver este crime, interrogando todos os que poderiam ter informações que levem à resolução do caso. Mas até mesmo o agente está demasiado envolvido, ou não fosse ele filho de uma das vítimas, ou não estivesse ele apaixonado por outra. Quem é Patrick Townsend, o quão séria é a sua nora Helen, a directora da escola? Quão frívolo será o ex-namorado de Nel, Robbie Cannon, com um historial de estupros e violência? Que segredos esconderá a morte de Katie e o que podem ter eles contribuído para a morte de Nel?

Escrito na Água é um livro que demora a engrenar, mas quando engrena, não consegues parar de o ler. Se li A Rapariga no Comboio em dois ou três dias, li Escrito na Água numa noite. A escrita é bastante fluída e o leitor precisa desesperadamente descobrir o final. O desfecho deste livro agradou-me muito, e acho mesmo que Escrito na Água veio afirmar Paula Hawkins como um dos novos grandes nomes do thriller.

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Fonte: https://www.pinterest.ca/pin/305470787215494817/

Acabo, porém, por não gostar tanto deste livro devido ao seu início confuso, à dificuldade em sentir empatia pelas personagens, ao pouco tempo de antena de muitas delas, e um pouco também por perceber que a escrita de Hawkins é muito fast-food. Quando se lê um bocado, este tipo de literatura acaba por perder valor, porque é feito para as massas e não revela grandes preocupações em melhorar a sua linguagem. Paula Hawkins tem ainda de trabalhar bastante nesse aspeto, se quer ganhar leitores que não os meros Fox Life viewers.

Ainda assim, é um livro de leitura compulsiva, mais um, e fica a sensação que quero ler mais desta autora, perceber onde ela pode melhorar e onde pode chegar. Uma coisa já ninguém lhe rouba: a capacidade de prender os seus leitores da primeira à última página, aliando dramas familiares poderosos a crimes macabros, sem esquecer as ambiguidades e problemas que as pessoas normais enfrentam no seu quotidiano.

Avaliação: 7/10

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