Estive a Ler: O Bebedor de Horizontes, As Areias do Imperador #3


Eu que ficasse a saber: chão que o imperador pisou torna-se sagrado. Os meus sapatos ofendem essa divina condição. As rainhas escutam-no e riem alto. O riso delas faz com que os meus sapatos deixem de existir.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO “O BEBEDOR DE HORIZONTES”, TERCEIRO VOLUME DA SÉRIE AS AREIAS DO IMPERADOR

Com o pseudónimo Mia Couto, António Emílio Leite Couto tem maravilhado público um pouco por todo o mundo. Foi jornalista e professor, e é atualmente biólogo e escritor. Traduzido em diversas línguas, foi granjeado, entre outros prémios e distinções, com a nomeação, por um júri criado para o efeito pela Feira Internacional do Livro do Zimbabwe, de Terra Sonâmbula como um dos doze melhores livros africanos do século XX.

Foi também premiado, pelo conjunto da sua já vasta obra, com o Prémio Vergílio Ferreira em 1999 e com o Prémio União Latina de Literaturas Românicas em 2007, ano em que foi distinguido com o Prémio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de Literatura pelo seu romance O Outro Pé da Sereia. Em 2011 venceu o Eduardo Lourenço, que se destina a premiar o forte contributo no desenvolvimento da língua portuguesa. Em 2013 recebeu o Prémio Camões e o prémio norte-americano Neustadt. Pela Editorial Caminho e com um total de 384 páginas, O Bebedor de Horizontes é o terceiro volume da trilogia As Areias do Imperador.

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Versão moçambicana. Fonte: http://opais.sapo.mz/a-subalternizacao-da-mulher-em-o-bebedor-de-horizontes

Fiquei fã. É tudo o que consigo dizer perante um escritor de mão cheia, que brinca com a prosa e com as culturas de uma maneira que julgava impossível. Tudo de uma forma tão natural que parece ser a forma de pensar diária da pessoa. O Bebedor de Horizontes é o coroar de uma trilogia maravilhosa, uma história de amor entre um sargento português e uma rapariga moçambicana, no conflituoso final do século XIX.

“são construções históricas sempre chamadas à pedra quando se trata de fabricar conflitos, fabricar ódios, de sugerir que o caminho não é o diálogo, mas o confronto.”

Mia Couto não apresenta uma história cor-de-rosa. Aparte a cor da pele, o amor entre Germano e Imani tinha tudo para dar certo, porque afinal estavam do mesmo lado da barricada, mas a vida é sempre muito mais complexa do que aparenta à primeira vista, e surgem sempre complicações na vida de todos. As Areias do Imperador também mostra que a História não foi tão preto no branco como é contada nos manuais que nos foram impostos.

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Fonte: https://www.amazon.com.br/As-Areias-Imperador-Bebedor-Horizontes-ebook/dp/B077MTSYLW

Ngungunyane podia ser um tipo execrável, mas Mouzinho de Albuquerque não era o herói que a História de Portugal apregoa. Aliás, a estátua dele em Maputo mostra-o montado a cavalo, quando a maioria das batalhas, como é referido no livro, foram travadas em mar. O imperador africano estava já subjugado quando o herói profetizado chegou para o trazer aprisionado para Portugal. A complexidade da narrativa, porém, só a enriquece.

A publicação da trilogia começou em 2015 com o primeiro romance, Mulheres de Cinza, onde Mia Couto narra a história de Ngungunyane, conhecido por Gungunhana entre os portugueses, o último dos imperadores que governou o território no sul de Moçambique. A história continuou em 2016, com A Espada e a Azagaia, onde as relações entre as personagens se desenvolvem, assim como a guerra entre Portugal e o Estado de Gaza.

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Fonte: https://www.feiracultural.art.br/2018/04/04/escritor-mocambicano-vem-a-bh-para-lancamento-do-livro-o-bebedor-de-horizontes/

Por sua vez, O Bebedor de Horizontes relata os eventos a partir do momento em que os prisioneiros embarcam no cais de Zimakaze, entre os quais se encontram Ngungunyane e Imani, esta utilizada por Mouzinho de Albuquerque como intérprete. A comitiva parte em direção ao posto de Languene, onde faz uma breve paragem antes de se dirigir ao estuário do Limpopo e dali até ao exílio em Portugal.

“O Bebedor de Horizontes é o coroar de uma trilogia maravilhosa, uma história de amor entre um sargento português e uma rapariga moçambicana, no conflituoso final do século XIX.

A complexidade das relações é grande. De um lado está Ngungunyane e as suas várias mulheres, que em momento algum conseguem ser menos do que pedantes perante Imani, do outro os portugueses, que guardam algumas quezílias entre si. Germano ficou a tratar de assuntos pendentes, garantindo à rapariga, grávida, que a viria a reencontrar em Portugal. Disse-lhe ainda para confiar em Álvaro Andrea, oficial de ideais republicanos.

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Fonte: https://delagoabayworld.wordpress.com/2012/04/19/mouzinho-de-albuquerque-fim-do-sec-xix/

O problema é que esses mesmos ideais colidem com os de Mouzinho, que vê em Andrea uma forte oposição e usa a jovem Imani como espia para saber o que os outros brancos na embarcação escondem de si. Imani é mais uma vez utilizada como um objeto do interesse dos portugueses, e a história não termina da melhor forma para ela. As promessas de Germano não são cumpridas, e a vida que a espera em Portugal está longe de ser a idealizada.

Ngungunyane é exibido com orgulho pelos portugueses, como um animal de zoo. E é desta forma que termina uma trilogia fantástica, que me envolveu a todos os níveis, mas que a sua grande mais-valia é, sem dúvida, a prosa maravilhosa do autor que se mescla com os credos e as crendices do povo africano. Adorei a história no seu todo, e este livro não me desapontou.

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Fonte: https://www.dn.pt/artes/interior/se-disser-que-gungunhana-reapareceu-os-africanos-acreditam–4841649.html

Nas palavras do autor, “Estou a fingir que estou a falar de outras pessoas que já não estão connosco, mas estou a falar de nós próprios. Estou a mentir a dizer que estou a falar do passado, mas estou a falar do presente. É isso que me interessa e foi isso que me entusiasmou a escrever este livro“.

Com esta trilogia, o Mia Couto pretende estabelecer um paralelo entre a nossa História e os dias de hoje, denunciando “falsas diferenças” que separam os moçambicanos tanto ontem como hoje. “Não existe uma coisa chamada brancos, negros” ou outras divisões étnicas,são construções históricas sempre chamadas à pedra quando se trata de fabricar conflitos, fabricar ódios, de sugerir que o caminho não é o diálogo, mas o confronto.”

Avaliação: 9/10

As Areias do Imperador (Editorial Caminho):

#1 Mulheres de Cinza

#2 A Espada e a Azagaia

#3 O Bebedor de Horizontes

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