Estive a Ler: Filhos de Sangue e Osso, O Legado de Orixá #1


Eles mataram a minha mãe. Levaram a nossa magia. Tentaram enterrar-nos. E, agora, nós levantamo-nos.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO “FILHOS DE SANGUE E OSSO”, PRIMEIRO VOLUME DA TRILOGIA O LEGADO DE ORIXÁ

Children of Blood and Bone, romance de Tomi Adeyemi, foi publicado pela Editoral Planeta em outubro com o título Filhos de Sangue e Osso, o primeiro livro da trilogia O Legado de Orixá. É o livro de estreia de Adeyemi, autora norte-americana com origem nigeriana. Com apenas 25 anos, Adeyemi é formada em Literatura em Harvard e ganhou uma bolsa de estudos para estudar cultura africana em Salvador, na Bahia, na qual ela se inspirou a criar o universo do livro, nomeadamente na mitologia ioruba e na magia dos orixás.

Inspirou-se também na cultura dos Maji Maji, um povo que se revoltou contra a Alemanha. A Guerra Maji Maji durou de 1905 a 1907, um conflito armado contra o domínio colonial alemão nos territórios que hoje correspondem à Tanzânia. O romance de estreia da autora foi o livro da Feira de Bolonha de 2017 e entrou diretamente para o 1.º lugar do top do The New York Times. O livro tem 480 páginas e tradução de Catarina Almeida.

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Fonte: https://mashable.com/2018/03/09/children-of-blood-and-bone-interview/?europe=true

As razões a que me levaram a ler Filhos de Sangue e Osso foram, para além da sinopse interessante, o facto de ter vencido o Goodreads Choice Award de 2018 na categoria Debut Author. O romance de estreia de Adeyemi anda pelas bocas do mundo e ter sido inspirado na cultura africana e nas crendices brasileiras só vem adicionar interesse ao livro. No mercado difícil da fantasia, originalidade é o que se quer.

“A história não me conquistou, mas tem uma estrutura que francamente me agrada.

Mas, no meio disto tudo, esqueci-me que se trata de um YA. E, como tem vindo a ser habitual neste género juvenil, há muitas cenas forçadas, explicações que não batem a bota com a perdigota, coincidências para lá de demasiado agradáveis, e por aí vamos. Ainda assim, tendo em conta os livros juvenis que tenho lido, estamos perante algo superior à média.

Fonte: https://www.fnac.pt/Filhos-de-Sangue-e-Osso-Tomi-Adeyemi/a6258396

A narrativa segue uma estratégia já antiga na ficção, acima de tudo nos bons e velhos filmes de ação. Falo de um desastre terrível que afeta a vida do protagonista, de um encontro aparentemente casual que resulta numa aliança pouco provável enquanto se inicia uma perseguição a todo o terreno em busca de artefactos mágicos. A história não me conquistou, mas tem uma estrutura que francamente me agrada.

E a escrita de Tomi Adeyemi, apesar de revelar um ou outro traços de imaturidade, nos diálogos, acaba por ser um dos pontos fortes do livro. Ela tem uma escrita bonita, cuja tradução aqui e ali torci o nariz, mas nada que a comprometa. O trabalho de tradução até me parece ter sido bem conseguido. Às vezes, porém, senti que a frescura e elegância da linguagem dos POVs em primeira pessoa não se coadunavam aos diálogos algo infantis das personagens.

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Fonte: https://medium.com/park-recommendations/children-of-blood-and-bone-tomi-adeyemi-78550be6a19d

Orixá é uma nação complexa, onde a vida no mar é difícil para todos. Antes, aqueles que nasciam com cabelos brancos estavam fadados a ser maji, capazes de fazer o mundo vibrar com a sua magia. Havia os Incineradores, que queimavam, os Senhores das Marés, que formavam ondas, ou os Ceifeiros, que invocavam os mortos. A mãe de Zélie pertencia aos últimos. Mas, por alguma razão, a magia morreu em Orixá.

“E a escrita de Tomi Adeyemi, apesar de revelar um ou outro traços de imaturidade, acaba por ser um dos pontos fortes do livro.

O responsável foi o rei Saran, que destruiu a magia e assassinou todos os que a praticavam. A mãe de Zélie foi uma das vítimas, pelo que esta passou a sobreviver com o pai Baba e o irmão Tzain e a treinar a arte do bordão com a anciã chamada Mãe Agba. O livro é contado em capítulos de ponto de vista, protagonizados por Zélie, Amari e Inan. Estes dois últimos são os filhos do rei, mas enquanto a rapariga foge do palácio e logo se aproveita de Zélie para escapar à crueldade do pai, o rapaz torna-se capitão e cabe-lhe resgatar a irmã e matar a sua “raptora”, para impedir que esta reúna os artefactos e que a magia regresse ao mundo.

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Fonte: original

Como pontos mais positivos do livro destaco, para além da escrita elegante e da originalidade na abordagem, a força das personagens e a imaginação fértil de Tomi Adeyemi, que adaptou a fauna do nosso mundo e acrescentou-lhe chifres. A leonaire Nailah, o animal de estimação da protagonista, foi um dos que me agradou. E confesso que o final violento e surpreendente de algumas personagens cativou-me.

No entanto, os romances entre personagens demoraram a engrenar e depois aconteceram de um momento para o outro, de uma forma pouco credível. E quando o foco passa a ser os romances, a história perde-se. A personagem Inan tinha um potencial terrível, mas as suas consecutivas mudanças de opinião também prejudicaram o livro, assim como o súbito crescimento da sua irmã Amari. Com isto corrigido e sem um recurso tão abundante ao deus ex-Machina, Filhos de Sangue e Osso seria um livro incrível.

Avaliação: 6/10

O Legado de Orixá (Editorial Planeta)

#1 Filhos de Sangue e Osso

3 comentários em “Estive a Ler: Filhos de Sangue e Osso, O Legado de Orixá #1

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