Estive a Ler: 1Q84


Quer goste, quer não goste, a verdade é que me encontro no ano de 1Q84. O ano de 1984, tal qual eu o conhecia, já não existe. Estamos em 1Q84. A atmosfera mudou, mudou a paisagem. Tenho de me adaptar quanto antes a este mundo-com-um-ponto-de-interrogação. Tal como acontece com os animais, quando os deixam em liberdade numa floresta desconhecida.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA A TRILOGIA 1Q84

Já olhaste para a lua hoje? Várias vezes indicado ao Prémio Nobel, o autor Haruki Murakami é um dos escritores japoneses mais divulgados em todo o mundo. Nascido em 1949, estudou teatro grego antes de gerir um bar de jazz em Tóquio, entre 1974 e 1981. Murakami é mais conhecido pelos livros Kafka à Beira Mar, Sputnik, Meu Amor, Dance Dance Dance, Hard-boiled Wonderland and the End of the World, premiado com o Prémio Tanizaki ou Blind Willow, Sleeping Woman, a sua terceira coletânea de contos, distinguida com o Frank O’Connor International Short Story Award.

Publicada entre 2009 e 2010, 1Q84 é uma trilogia escrita pelo renomeado autor japonês, publicado em Portugal pela Casa das Letras, que também publicou do autor livros como Norwegian Wood, Crónica do Pássaro de Corda ou o bem recente A Morte do Comendador. 1Q84 foi publicado em três fases no nosso país, tendo chegado às livrarias nacionais em novembro de 2011. Apesar de não ser uma trilogia consensual, nem sequer quanto à temática, trata-se de uma história de realismo mágico que fala sobre pessoas, identidades e culturas.

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Fonte: https://wildmurakamichase.wordpress.com/page/2/

Achei 1Q84 absurdamente genial. A opinião geral sobre esta trilogia é bem mais ou menos e eu nem gostava de Murakami depois de uma experiência pouco feliz com O Elefante Evapora-se, mas há livros que, por uma razão ou outra, nos tocam cá dentro de uma forma marcante. Foi o que aconteceu aqui. A riqueza daquelas personagens, a imensidão de referências e de paralelismos com outras obras, a grande abertura na exploração de temas, uma exposição sexual sem tabus e principalmente a profundidade das questões abordadas ganhou-me de pronto.

“Os protagonistas e mesmo a história que os une revelam-se ridículos, mas há uma magia e uma graça especial em tudo isso.

Talvez se eu não tivesse lido a trilogia de seguida a minha avaliação não seria tão alta. Acho que o grande mérito de 1Q84 é, através das suas personagens, convidar o leitor a virar-se para ele próprio e a encontrar-se nas mais pequenas coisas. Os protagonistas deste livro querem desesperadamente encontrar-se, mas para o fazerem precisam primeiro encontrar-se a si mesmos e procurar descobrir o seu lugar no mundo, seja ele qual for.

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Fonte: http://murakami-pt.blogspot.com

Os livros são narrados na primeira pessoa, através dos pontos de vista de Aomame e Tengo, dois jovens japoneses na casa dos trinta anos. Ela é uma instrutora de artes marciais que aprendeu a virar-se sozinha desde que foi abandonada pela família, membros das Testemunhas de Jeová, por não seguir as suas crenças. Depois de a sua melhor amiga falecer vítima de violência doméstica, passou a trabalhar como assassina para uma velha senhora, focada em eliminar maridos violentos.

Um dia, a talentosa assassina entra num táxi para se dirigir ao hotel onde um “trabalho” a espera. Presa no trânsito, começa a ouvir no rádio a Sinfonietta de Janacek e, por uma estranha razão que nem ela sabe explicar, reconhece a música na perfeição. Sem poder aguardar mais, sai do táxi em plena auto-estrada e sai dela pelos próprios pés. A partir daí, quando olha para o céu noturno, encontra duas luas em vez de uma e chega à conclusão que o mundo mudou. Sente que deixou o ano de 1984, batizando aquele em que se encontra de 1Q84.

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Fonte: https://www.domestika.org/pt/projects/398179-1q84

Tengo, por sua vez, foi desde tenra idade um génio da matemática e tornou-se professor. Apesar de ser especialmente dotado a cativar o sexo oposto, nunca conseguiu vincular-se efetivamente a nenhuma mulher. Mantém um relacionamento com uma mulher mais velha e casada, provavelmente consequência do trauma que sofreu ao ver um homem que não o pai a chupar os seios da mãe, quando era apenas um bebé.

“Achei 1Q84 absurdamente genial.

O jovem, no entanto, tem ambições profissionais que extrapolam a matemática. Tengo revela um dom inusitado para a escrita e parece emergente a sua afirmação no mundo literário. O seu amigo Komatsu, editor literário, vive um dilema. Uma rapariga de 17 anos escreveu uma história incrível chamada A Crisálida de Ar, que reúne todos os atributos para vencer um prémio para primeiras obras e tornar-se um best-seller. No entanto, Eriko Fukada, mais conhecida como Fuka-Eri, não tem talento para a escrita.

Komatsu lança então o desafio: Tengo seria um ghost-writer e transformaria A Crisálida de Ar numa obra-prima passível de se tornar um êxito de vendas. Fuka-Eri ficaria com os louros. Komatsu e Tengo dividiriam os lucros. Tengo acha a questão pouco ética e pensa em declinar, mas tanto Komatsu parece irredutível como a própria obra o fascina de tal forma que o desejo de a reescrever é maior que tudo o resto. A história tem uma dimensão própria que alimenta o seu amor pela escrita.

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Fonte: https://www.bulbapp.com/u/novel-analysis-1q84-haruki-murakami

O que ele não podia prever era que aquela obra de ficção passada num mundo em que existem duas luas fosse real. À medida que conhece a jovem criadora e se cativa pelo seu jeito único, que roça o autismo, vai descobrindo também nuances do seu passado e da relação entre o tio dela, Ebisuno, com Komatsu. Vai também despertar a ira de uma sociedade religiosa chamada Sakigake e de uma espécie de duendes sobrenaturais conhecidos como Povo Pequenino.

De realçar que Q lê-se de forma similar a 9, em japonês. Para Aomame, o ano onde vivem é 1Q84. Um paralelismo com a obra 1984 de George Orwell, um dos autores que Murakami mais referencia na trilogia, assim como Tchekóv, Tolstoi, Jung e Prost. Para Tengo, esse mundo estranho é a cidade dos gatos, uma alusão ao livro que lê durante uma viagem de comboio. Há ainda comparações com as bruxas de Macbeth de Shakespeare. Referências são muitas e enriquecem grandemente a história.

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Fonte: https://gifer.com/en/KyFT

A trilogia não é perfeita e seguramente não agradará a quem odiar pontas soltas ou a mistérios que fiquem sem resposta. Há muito que fica sem resposta no final desta trilogia. Na minha opinião pessoal, esses mistérios que ficam parecem-me pouco significantes em comparação com o que realmente acontece. E não fiquei com a sensação de que o autor me devesse nada, quando cheguei à última página.

“Um capítulo após outro, a leitura dos três livros foi viciante.

No último livro é adicionado um terceiro ponto de vista, por parte de Ushikawa, que serve só para mostrar que o vilão está tão às escuras quanto os protagonistas e que no fim das contas tem sentimentos. Os seus capítulos são completamente dispensáveis, não se perdendo nada se apenas se ler os dois últimos que protagoniza. Murakami peca por repetir muitas vezes a mesma coisa, ainda que esse sublinhar viesse apenas revelar a importância dos factos e, sinceramente, devo confessar que não me incomodou.

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Fonte: http://deviantart.com/pixx-73/art

É impossível não querer saber mais sobre o Povo Pequenino e as suas motivações, o conceito de dohta e maza, rir com as dificuldades de Tengo em perceber Fuka-Eri e a personalidade singular da rapariga, ou mesmo sofrer um BOOM! dos diabos no que diz respeito à identidade do desagradável cobrador de taxa da TV que persegue todas as personagens no último volume. Os protagonistas e mesmo a história que os une revelam-se ridículos, mas há uma magia e uma graça especial em tudo isso.

Um capítulo após outro, a leitura dos três livros foi viciante. 1Q84 é uma trilogia profunda e reflexiva, misteriosa e filosófica, com mistério, ação, humor, reviravoltas e revelações. Ele oferece muito da cultura japonesa, mas também dá a conhecer citações e curiosidades da cultura ocidental, das artes à História. Pois bem, se esta trilogia é um pouco má amada pelo fandom, isso significa necessariamente que tenho de ler mais de um autor que, até aqui, não me dizia nada de bom.

Avaliação: 9/10

5 comentários em “Estive a Ler: 1Q84

  1. Também não sou fã deste autor, mas uma crítica tão boa dá-me vontade de experimentar.

    1. Ainda bem que te deixei o bichinho 😛
      Como disse na recensão, não é uma história que agrade a toda a gente, mas a mim pessoalmente tocou-me. 🙂
      Beijinhos e boas leituras.

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