Estive a Ler: A Máquina de Fazer Espanhóis


somos um país de cidadãos não praticantes.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO A MÁQUINA DE FAZER ESPANHÓIS

Valter Hugo Mãe é o nome artístico do escritor português Valter Hugo Lemos. Além de escritor é editor, artista plástico e cantor. Nasceu em Saurimo, na Angola de 1971. Passou a infância em Paços de Ferreira e vive atualmente em Vila do Conde. É licenciado em Direito e pós-graduado em Literatura Portuguesa Moderna e Contemporânea. Em 2007 venceu o Prémio José Saramago com o livro o remorso de baltazar serapião.

a máquina de fazer espanhóis é o quarto romance de Valter Hugo Mãe, publicado em 2010 pela Alfaguara e em 2016 pela Porto Editora. Os seus primeiros quatro romances são conhecidos como a tetralogia das minúsculas, uma vez que foram escritos sem qualquer minúscula de uma ponta à outra. Li o exemplar da Porto Editora, com um total de 318 páginas.

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Fonte: http://trechoprediletoliteratura.blogspot.com

O autor alega que escreveu em minúsculas porque elas simbolizam uma utopia de igualdade. Uma democracia que equipara as palavras na sua grafia e deixa o leitor definir o que deve ou não ser acentuado. Pessoalmente, foi uma leitura difícil. Talvez por estar acostumado à prosa dita “normal”, foi um grande esforço seguir atentamente um livro em que as pausas quase não se sentem.

“Não gostei de a máquina de fazer espanhóis, mas não deixa de ser um livro de grande qualidade.

A escrita de Valter Hugo Mãe neste livro tornou-se um pouco cansativa. Adorei o livro A Desumanização, escrito posteriormente, mas não consigo nem de perto considerar a máquina de fazer espanhóis ao mesmo nível. Nem só pelo texto. Apesar de ter achado interessante a perspetiva de um homem no fim da vida, do seu quotidiano no lar de terceira idade e das suas inúmeras reflexões, apesar de ter sentido empatia, profundidade e consistência, faltou-me gostar.

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Fonte: https://www.portoeditora.pt/produtos/ficha/a-maquina-de-fazer-espanhois/16188109

Aos 84 anos, António Silva perdeu a mulher, Laura. A mulher que mais amou. O que lhe resta da vida, senão entrar no Lar da Feliz Idade e esperar pela morte? É ali que ele conhece personagens como a Marta, o Américo, o Silva da Europa, o Senhor Pereira, o Senhor Esteves sem Metafísica (do poema Tabacaria de Álvaro de Campos) e muitos outros. No entanto, à medida que vai perdendo alguns desses amigos, é como se revivesse a despedida de Laura.

Há uma série de mistérios que envolvem o lar, do paralelismo entre a extinção da metafísica e o significado da morte, a solidão que afeta todos os que ali vivem os seus últimos dias, aos efeitos nocivos do salazarismo. Afinal, a máquina de fazer espanhóis é a certeza do povo de então de que todos os que nascem ali seriam mais felizes se Portugal nunca tivesse alcançado a independência. E resta-nos perguntar até que ponto a liberdade isso mudou.

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Fonte: http://litura-terra.blogspot.com/2018/11/a-maquina-de-fazer-espanhois-valter.html

Apesar de não ter gostado do livro, tanto pelo tom lúgubre como pelo estilo narrativo, que me cansou, não deixa de haver muita qualidade tanto na escrita de Valter Hugo Mãe, como na quantidade de reflexões a que obriga o leitor a tirar, nas entrelinhas. Este é um exemplo claro de literatura sobre identidade que devíamos todos ler, para nos fazer pensar em quem somos, de onde viemos e para onde vamos. Hugo Mãe é sublime em fazer-nos pensar.

o ser humano é só carne e osso e uma tremenda vontade de complicar as coisas.

Há uma candura terna na escrita do autor que é difícil deixar de apreciar. Ele fala-nos de temas ao mesmo tempo tão corriqueiros e tão difíceis de falar, com uma leveza de pôr um leitor mais desprevenido em pés de galinha. Apresenta um tom críptico, ao mesmo tempo pessimista e irónico, sem deixar de ser sério e acima de tudo preocupado. Porque a sua obra é sobretudo uma ode à igualdade, à capacidade de amar os outros como a nós mesmos.

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Fonte: http://notaterapia.com.br/2018/05/18/8-melhores-citacoes-de-maquina-de-fazer-espanhois-de-valter-hugo-mae/

O sentimento de inferioridade é outro dos temas levantados neste livro. O homem que se sente inferior pela demência, pelas debilidades físicas, mas também o português que se sente inferior pela ideologia salazarista. A ideia fantasiosa que germina na mente dos idosos sobre um aparelho que rouba a identidade portuguesa às pessoas é uma referência clara ao período e às restrições sociais que se viveram naquele regime político. Salazar pensava pelos portugueses e isso tornava-os fracos.

A partir daí é apresentada a dimensão social do envelhecimento e da solidão. Entre a lucidez e o delírio, é difícil não sorrir perante as desventuras dos idosos e as suas conceções de vida, sobre o mundo e sobre eles mesmos. Da política à identidade, dos reflexos de vida à ambiguidade de sentimentos, Valter Hugo Mãe oferece uma obra aberta a interpretações que apela à reflexão. Não gostei de a máquina de fazer espanhóis, mas não deixa de ser um livro de grande qualidade.

Avaliação: 4/10

3 comentários em “Estive a Ler: A Máquina de Fazer Espanhóis

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