Especial: O Significado de “Monstress”


Este artigo foi também publicado no site da Revista Bang!

Vivemos numa época ambígua, em que o mundo civilizado parece tão justo e evoluído como cruel e bárbaro. Por vezes, parece que o Homem se veste de uma sabedoria artificial, e quando é chamado a agir, revela todo o leque de preconceitos e brutalidades que ainda imperam na sua natureza. A cultura, sobretudo as artes, têm desempenhado um papel activo na educação do Homem enquanto ser, e a literatura é um dos grandes agentes neste processo.

Neste mundo em que, infelizmente, ainda precisamos falar de representação de género, há duas mulheres que têm somado vitórias no mundo da nona arte. Marjorie Liu e Sana Takeda venceram em 2017 o British Fantasy Award e o Hugo Award na categoria novela gráfica, dois dos mais importantes prémios nas áreas da fantasia e da ficção científica. Em 2018, amealharam 5 (CINCO) Eisner, o prémio maior das bandas-desenhadas, e todos sabemos a quantidade e qualidade dos projetos gráficos que têm gravitado por esse mundo fora. O mais incrível é que somaram todas estas vitórias com um único trabalho em curso. Estou a falar de Monstress.

Resultado de imagem para monstress art
Fonte: https://www.pinterest.es/pin/81275968259321647/

E esta série, de que a Saída de Emergência acaba de publicar o terceiro volume, é o exemplo perfeito do que é representação de género, quebra de paradigmas e originalidade. Comecemos pelo plot. Caímos de pára-quedas numa guerra. Uma guerra entre humanos e arcânicos. Logo aqui há uma fractura iminente em relação à literatura tradicional. Não há infodumps nem introduções, vemos uma menina sem um braço a ser leiloada, sabemos que foi devastada na guerra e que ali perdeu o contacto com uma outra menina, que lhe era próxima mas não fazemos ideia a que nível e tampouco do seu paradeiro.

Esta menina leiloada é arcânica, uma raça resultante do cruzamento entre anciãos (que mesclavam características humanas com as de animais) e humanos. Os anciãos viveram durante séculos em guerra, divididos entre duas cortes: a Corte do Ocaso e a Corte da Aurora. Mas, apesar da guerra, as duas castas nunca se privaram à companhia dos humanos, cuja origem remonta aos mares. Dessa união, nasceram os arcânicos, e desde que os humanos descobriram as propriedades poderosas dos ossos destes, não descansaram até os escravizar. Logo aqui temos uma imagem vívida do preconceito e do que ele produz: conflitos, guerras e miséria, mas sobretudo dos interesses e da sede de poder bem enraizada na raça humana.

Imagem relacionada
Fonte: https://thegww.com/monstress-17-review/

Logo então vem a representação de género. Mas não se enganem ao julgar que temos uma rapariga altruísta e bondosa como protagonista, à procura de coragem para enfrentar um vilão másculo. A história fantasiosa de Monstress apresenta-nos uma perspetiva realista. Maika Meiolobo, uma rapariga endurecida pela guerra e pelos contínuos desgostos, não acredita em contos de fadas, em justiça ou em príncipes encantados. Não acredita nem procura, e muito menos encontra. Ela é sarcástica e dura, destila palavrões e está habituada a lidar com a perda, pelo que não tem paciência para lamechices. Também tem um deus monstruoso chamado Zinn dentro de si que a faz comer pessoas, mas isso são outros quinhentos.

Quanto aos vilões, são os humanos. E não somos nós que andamos a destruir este mundo enquanto procuramos novos ingredientes para o nosso conforto pessoal? São também maioritariamente mulheres. Estaria muito longe da verdade se afirmasse que os maiores inimigos das mulheres costumam ser outras mulheres? Numa perspetiva mais doce, a oferecer um contraponto interessante e que lida com as emoções do leitor, temos Kippa.

Kippa é a personificação da inocência, a criança que tem esperança na salvação, que espera firmemente alcançar uma pátina de amor e alegria. É uma menina-raposa que trava amizade com Maika e tenta sensibilizá-la, mas ainda que Meiolobo construa uma amizade forte com Kippa, não se deixa amolecer nem demonstra qualquer sentimento com facilidade.

Resultado de imagem para monstress art
Fonte: https://imgur.com/gallery/ARLpZ

Nesta relação podemos incluir também Mestre Ren, um gato esperto e irónico, que acaba por se tornar uma vítima sentimental das duas e se deixar arrastar por elas. Maika tenta afastá-los na tentativa de os proteger, mas o vínculo forjado é mais forte que o receio e os dois são obstinados em acompanhá-la. Mas a rapariga tem um mal muito antigo dentro de si, que de repente acordou. Esse mal é Zinn, um dos Velhos Deuses de muitos olhos.

Não nos podemos esquecer que Monstress é passado no centro do furacão de uma guerra cujo início não nos é dado a conhecer e cujo fim não parece próximo. Somos apresentados a uma miríade de personagens sombrias, cujos propósitos nos parecem ameaçadores embora não se possa garantir os verdadeiros interesses de cada um. Monstress também é um jogo de intrigas que se inicia no rescaldo da Batalha de Constantine, e entre as bruxas Cumaea, a Marinha, piratas e anciãos, parecem haver movimentos sub-reptícios dos quais pouco é dado a entender.

Aquilo que sabemos sobre a guerra, sobre o mundo e sobre as raças é-nos contado ao final de cada capítulo pelo Professor Tom-Tom, um gato. Por curiosidade, os gatos são uma espécie única e, por ironia, a mais inteligente de entre todas do Mundo Conhecido. Filhos de Ubasti, a deusa primordial que escorraçou os Velhos Deuses, os gatos são a raça mais antiga deste mundo.

Imagem relacionada
Fonte: http://lahabitacionnumero26.blogspot.com/2018/05/monstress-de-marjorie-liu-y-sana-takeda.html

Neste ninho de sombras, Maika Meiolobo procura verdades sobre o seu passado, sobre a mãe, sobre a sua linhagem, sobre a relação que esta tinha com a Imperatriz-Xamã e sobre o túmulo desta. Faz ainda o leitor levantar uma série de questões sobre a menina chamada Tuya. Mas tanto quanto procurar respostas, Maika deve procurar sobreviver à guerra, à guerra entre os povos e à guerra entre si e o monstro que a usou como hospedeira. Zinn é apenas um dos Velhos Deuses, uma criatura que pode não ser a monstruosidade que aparenta… ou ser ainda pior.

Com uma mistura convincente entre o art deco e o mangá e traços que lembram a cultura asiática, o trabalho gráfico de Sana Takeda é um capricho visual que não precisa de grandes apresentações. As formas e as cores chamativas são uma resposta perfeita à narrativa vívida de Liu, uma comunhão que é espelhada a cada prancha. Basta deixar ao critério de quem puder pegar numa capa. Monstress é um monstro visual que se destaca entre os trabalhos do género.

Resultado de imagem para monstress art zinn
Fonte: https://sequentialplanet.com/comic-review-monstress-18/

Entre fugas, encontros com aliados antigos e novos, cada um mais visualmente estranho que o antecessor, somos convidados a destrinçar a pouco e pouco as revelações incríveis que este mundo tem para nos oferecer. Marjorie Liu e Sana Takeda são as responsáveis autorais por este sucesso, mas podemos dizer que são responsáveis sobretudo por participarem de uma mudança de paradigma importantíssima na literatura de género, que é a sensibilização para o mundo real dentro de contextos ficcionais. O significado de Monstress é, realmente, obrigar-nos a olhar para os nossos preconceitos e idiossincrasias, monstros que alojamos dentro de nós.

MARJORIE LIU é uma aclamada escritora de livros de BD e ficção. Trabalhou com a Marvel e o seu trabalho está publicado na Alemanha, França, Japão, Polónia e Reino Unido. Nasceu em Filadélfia e viveu em várias cidades do Médio Oriente e Pequim. Antes de se dedicar a tempo inteiro à escrita, era advogada. Reside atualmente em Boston.

SANA TAKEDA nasceu em Niigata e reside em Tóquio. Foi designer na Sega e tem extenso trabalho publicado com a Marvel.

Um comentário em “Especial: O Significado de “Monstress”

Comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto:
search previous next tag category expand menu location phone mail time cart zoom edit close