Resumo Trimestral de Leituras #17


E o primeiro trimestre de 2019 chegou ao fim. Foi um trimestre muito positivo a todos os níveis, em que consegui obrigar-me a moderar o ritmo e isso acabou por não afectar o resultado final em nenhuma área. A nível de leituras, até foram as mesmas 27 que havia conseguido no primeiro trimestre do ano passado, entre livros e BDs. Os destaques mais positivos deste primeiro trimestre vão para Refúgio, o terceiro volume da BD Monstress de Marjorie Liu e Sana Takeda, Perdido e Achado de Stephen King e a trilogia 1Q84 de Haruki Murakami.

Também os dois volumes de Sangue e Fogo de George R. R. Martin, Batismo de Fogo de Andrzej Sapkowski, Fundação de Isaac Asimov ou O Periférico de William Gibson me ficam na retina. No sentido oposto, as maiores desilusões deste trimestre foram a máquina de fazer espanhóis de Valter Hugo Mãe, The Three-Body Problem de Cixin Liu e o volume 31 da BD The Walking Dead, The Rotten Core. Mas leiam o texto seguinte e percebam melhor o que vos digo.

Sem títuloComecei o ano a ler A Fome de Alma Katsu. Trata-se de um romance fictício trabalhado a partir de um acontecimento real, muito ao jeito de The Terror. O livro publicado em 2018 pela Saída de Emergência explora a chamada Donner Party, um dos acontecimentos mais conturbados da célebre Marcha para Oeste em que as famílias norte-americanas exploraram novos territórios em busca de melhores condições de vida. A caravana que protagoniza a história vê-se perseguida por algum mal terrível, que vem dar contornos sobrenaturais a um acontecimento real do qual ficaram provados indícios marcados de canibalismo. Gostei muito. Com uma aura X-Files, O Homem Vazio de Cullenn Bunn e Vanesa R. Del Rey foi um dos últimos lançamentos de 2018 pela G Floy Studio. Apesar de conhecer algum trabalho de Bunn, nomeadamente em Deadpool e Harrow County, desconhecia o trabalho da ilustradora peruana, e não fiquei impressionado. O comic explora uma epidemia que transforma as pessoas, deixando-as primeiro num estado catatónico, até se transformarem em seres monstruosos. Mais que isso, faz com que seja formada uma seita que apela à divindade do Homem Vazio. Dois agentes da autoridade irão tentar pôr cobro a tudo isto. A premissa é realmente boa, mas confesso que achei a história confusa e pouco convincente.

Sem Título 3Mark Millar foi um dos nomes que mais me surpreenderam em 2018 no mundo das comics. E a última publicação da Millarworld em 2018 no nosso país foi Starlight, uma verdadeira ode a pulps de ficção científica como Flash Gordon. Ele conta-nos a história de um terráqueo que, em tempos, ajudou a salvar o planeta Tantalus, de modo que se tornou um herói naquele lugar. Regressou à Terra, casou e teve filhos, desenvolvendo uma vida comum. Mas agora, chegado à terceira idade, dá por si envelhecido e viúvo, sem nada que o prenda à vida. É nesse momento que aterra no seu quintal uma nave espacial com um menino de cabelo cor de rosa a bordo, que lhe diz que Tantalus precisa novamente dos seus serviços. Com um novo ditador no planeta, a pergunta que se impõe é: será que Duke ainda está aí para as curvas? Tenho a dizer que sim, e Starlight foi uma leitura excelente, divertida e muito proveitosa. Fundação de Isaac Asimov é um daqueles clássicos da ficção científica que todos deviam ler. Foi preciso a edição extremamente cuidada e visualmente bonita da Saída de Emergência, já em 2019, para eu finalmente lhe pegar. Não fiquei arrependido. O livro contém 5 contos, contando a história de Hari Seldon, o filósofo fundador da psico-História, e daqueles que o sucederam na preservação do santuário chamado Fundação. Numa crítica contundente à corrupção e ao capitalismo, Asimov conseguiu construir um mundo incrível com pouquíssima descrição e muitos diálogos. Cativante a todos os níveis.

sem títuloPela Editoral Planeta chegou Filhos de Sangue e Osso de Tomi Adeyemi. Através do ponto de vista de Zélie, uma rapariga pobre que tenta garantir o sustento da família, Amari e Inan, dois príncipes com personalidades bem diferentes, o primeiro volume da trilogia YA O Legado de Orixá aborda as injustiças sociais e a tirania de um rei que aboliu a magia. No seu livro de estreia, Adeyemi consegue aliar um worldbuilding interessante, inspirado em temas africanos e na magia dos Orixás, a uma narrativa bem conseguida. Mas se sabe cativar o leitor, também não foge a estereótipos. Embora possua uma profundidade espiritual e uma escrita elegante, declara-se desde o primeiro momento como um romance juvenil. Publicado no nosso país em 2011 pela Casa das Letras, 1Q84 é uma trilogia de Haruki Murakami em homenagem ao clássico 1984 de George Orwell. Mas a homenagem fica-se por alguns paralelismos interessantes. Podia ser uma narrativa realista, tal a abordagem a problemas como a violação, a violência doméstica, as práticas das Testemunhas de Jeová e os problemas sociais japoneses, mas Tengo é contratado para reescrever um livro passado num mundo com duas luas, controlado por umas criaturas minúsculas chamadas de Povo Pequenino, e Aomame olha para o céu certo dia e encontra lá duas luas. Apesar de ser morosa e terminar com poucas respostas para os milhares de mistérios levantados, foi uma trilogia que amei realmente, de coração. Fuka-Eri é a personagem que mais me marcou este ano, até ao momento.

sem títuloE terminei janeiro com À Boleia Pela Galáxia de Douglas Adams. Publicado pela Saída de Emergência em 2017, é o primeiro volume da chamada trilogia de cinco volumes, mas que funciona muito bem como romance único. Com prefácio de Nuno Markl, o livro apresenta-nos Arthur Dent, um senhor aparentemente normal que fica muito chateado quando a câmara municipal decide destruir-lhe a casa para construir uma estrada. Só que nesse mesmo dia, o Planeta Terra é destruído. Arthur é o único terráqueo que sobrevive, graças ao seu melhor amigo, que na verdade é um alienígena. Juntos, vão viver uma atribulada aventura entre planetas e naves espaciais, sempre com o humor como palavra de ordem. Acabei por não sentir grande empatia pelo livro, apesar de se ler bem e ser bastante divertido. Comecei fevereiro com a opinião a a máquina de fazer espanhóis de Valter Hugo Mãe, publicado pela Porto Editora em 2016. Neste quarto volume da sua tetralogia das letras minúsculas, Hugo Mãe fala sobre a velhice e a dor da perda, mas sobretudo das limitações culturais que um sistema político e social despótico coloca no seu povo. Aos 84 anos, António Silva perdeu a mulher, Laura. A mulher que mais amou. O que lhe resta da vida, senão entrar no Lar da Feliz Idade e esperar pela morte? É ali que ele conhece personagens interessantíssimos, cada um com os seus dramas. Pessoalmente, foi uma leitura difícil, sobretudo pela escrita algo cansativa e sem grandes pausas.

sem título 3Publicada pela Saída de Emergência em 2015, Rainha Vermelha é o primeiro volume da série homónima de Victoria Aveyard, um YA que mistura um ambiente medieval ao melhor estilo A Guerra dos Tronos com aspectos do mundo atual, como televisões, motas ou câmaras de vigilância. Isto num mundo em que a nobreza possui habilidades especiais à la X-Men. Mas se todos os condimentos oferecidos podem ser interessantes, não deixa de ser um livro juvenil, que anda muito à volta de uma rapariga trapalhona que se apaixona por um príncipe encantado, e por aí vai. Mas falemos de outro livro. Sou completamente apaixonado pela BD Monstress e pela pontuação que dei a este monstrinho nota-se bem o quanto me continua a encher as medidas. Refúgio é o terceiro volume da série publicada pela Saída de Emergência, com argumento de Marjorie Liu e arte de Sana Takeda. A uma arte incrível, que mescla o art deco ao mangá, Monstress começa a desdobrar a sua história, ainda que os mistérios relacionados com a menina Tuya e os interesses sub-reptícios de várias personagens ainda permaneçam ocultos. O grande destaque vai para a relação de Maika Meiolobo com Zinn, o deus de muitos olhos no seu interior. A personalidade de Maika é, para mim, a maior virtude do comic.

semtc3adtulo2Publicado pela Saída de Emergência em dois volumes, que li de seguida, Sangue e Fogo é a história de George R. R. Martin dedicada aos Reis Targaryen, uma espécie de Silmarillion do autor, um relato em jeito de crónicas, do que aconteceu em Westeros desde que Aegon conquistou o continente para si. De forma apaixonada e nem sempre credível, os relatos que Martin criou para o mundo de A Guerra dos Tronos vêm oferecer um cânone interessantíssimo para a obra e, mais que isso, entusiasmar todos os que sempre se sentiram curiosos para com a História dos Reis Targaryen. Os livros contêm ainda ilustrações lindíssimas de Doug Wheatley. Southern Bastards, a famosa BD frita à moda do Sul dos Estados Unidos chega finalmente ao quarto volume, Tê-los no Sítio, o último publicado até agora. Com argumento de Jason Aaron e arte de Jason Latour, ambos naturais daquela zona, a BD chega a uma espécie de conclusão, ainda que não seja a definitiva. O Condado de Craw continua a testemunhar as maiores situações de corrupção e violência, regra geral com o treinador da equipa de futebol, Euless Boss, por detrás das cortinas. Mas ele não podia esperar que Roberta Tubb, uma marine bem armada, regressasse a Craw para vingar o pai, a quem Boss fez a folha de uma forma bem trapaceira. Excelente argumento, arte ainda melhor.

Resultado de imagem para the rotten core walking deadThe Rotten Core é o volume 31 da BD The Walking Dead, de Robert Kirkman, que uma vez mais conta com a arte de Charlie Adlard, Cliff Rathburn e Stefano Gaudiano. Confesso que esta fase da Commonwealth não me está a agradar tanto como as fases anteriores, sobretudo a de Negan e a dos Sussurradores, embora essa última tenha pecado por curta. Mas The Walking Dead consegue sempre surpreender e este volume coloca a questão da civilização em debate, com Dwight de um lado, Michonne do outro e Rick sem saber para que lado pender. O final do volume compensou alguma da inércia anterior e conseguiu que o livro não me desagradasse de forma geral. A leitura seguinte desagradou-me bem mais. Vencedor de inúmeros prémios, o engenheiro e escritor de ficção científica chinês Cixin Liu conquistou nada mais nada menos que o almejado Hugo com The Three-Body Problem. Pessoalmente, tive um problema com o livro. Ele tem muita qualidade, mas de física não pesco nada e estive a apanhar bonés do início ao fim. Paralelamente a isso, as histórias não tiveram grande conexão e revelaram pouco conteúdo, houve saltos temporais que me deixaram confuso, as personagens não mostraram profundidade e as explicações sobre a Revolução Cultural da China foram maçantes. Mas deve agradar a quem seja fã de ciências e de teorias sobre extraterrestres.

Sem TítuloTerminei fevereiro com The City & The City de China Miéville, um livro que o autor norte-americano escreveu para a mãe, fã de policiais. Mas como China é autor de ficção científica, na vertente do bizarro, a sua obra não podia deixar de conter vários elementos new weird. O livro fala de duas cidades fictícas da Europa de Leste, Besźel e Ul Qoma. Cada uma tem o seu idioma, a sua forma de vestir e de agir. Mas ocupam também o mesmo espaço físico. São duas cidades numa única cidade. Duas civilizações completamente distintas a ocuparem as mesmas ruas, cujas populações estão completamente proibidas de interagir umas com as outras. Para controlar tudo isto, existe uma super-polícia chamada The Breach. E tudo ia bem, até que uma rapariga aparece morta. Um livro que podia ter um final e aprofundamento melhor, mas que só por si é muito bom. Comecei março com o livro O Trono dos Crânios de Peter V. Brett. Neste quarto volume, os demónios são cada vez mais uma ameaça visível para os protagonistas. Crentes em ideologias distintas e vistos pelos seus povos como o Libertador profetizado, Arlen e Jardir unem esforços na luta titânica contra os demónios, até às camadas internas do Núcleo. Publicado pela Colecção 1001 Mundos das Edições ASA, O Trono dos Crânios é mais um livro bastante competente do autor norte-americano, mantendo o ritmo e a credibilidade dos livros anteriores.

sem título 3Segundo volume da Trilogia Bill Hodges de Stephen King, que começou com Sr. Mercedes, Perdido e Achado foi publicado o ano passado pela Bertrand no nosso país. Apesar de o protagonista da trilogia só entrar em cena no segundo terço do livro, este segundo volume foi tão bom ou melhor que o primeiro. A história fala de um escritor famoso que é assassinado por um fã louco, que havia ficado desagradado com o fim que deu a uma personagem. Depois de o matar, o assassino encontra no cofre manuscritos sobre a personagem que nunca tinham sido publicados, e leva-os com a sua fortuna. Mas viria a ser preso por outro crime antes de se poder concentrar naquilo, e muitos anos depois um menino encontra o tesouro e torna-se um alvo a abater. Batismo de Fogo é o quinto volume da saga The Witcher de Andrzej Sapkowski. Após uma grande traição, muitos feiticeiros foram mortos e os que sobreviveram estão espalhados, sem saber em quem confiar. Nilfgaard continua o seu trabalho de expansão do Império e ninguém sabe ao certo onde está Ciri, a leoazinha de Cintra. Boatos dizem que foi capturada pelo Imperador e que este quer fazer dela sua esposa. Sem saber onde está Ciri ou Yennefer, Geralt recupera dos seus ferimentos graças à ajuda dos elfos, mas logo que consegue lança-se numa jornada em busca da menina que precisa proteger a qualquer custo. Apesar de não ter sido grande apreciador dos primeiros volumes, esta série da Saída de Emergência está cada vez melhor e cada volume tem vindo a aumentar o meu apreço por ela.

Sem Título 2Galo de Cabidela é o décimo volume da série Tony Chu: Detective Canibal, que a G Floy tem publicado no nosso país. A série de John Layman e Rob Guillory é irresistível e completamente louca e consegue reinventar-se episódio a episódio, mesmo perto do seu capítulo final. Neste álbum, o galo Poyo vai literalmente para o forno, depois dos terríveis acontecimentos levados a cabo por John Colby no livro anterior. Tony continua preocupado com a saúde da filha Olive e vê-se finalmente frente a frente com o terrível vampiro que assassinou a sua irmã Antonelle. Também pela G Floy chegou Abandonado, o quinto álbum de Harrow County. Com argumento de Cullen Bunn e arte de Tyler Crook (o artista estará este ano no Festival de BD de Beja), esta BD de horror mostrou uma melhoria, a meu ver, neste volume. Apesar de a poder caracterizar como uma série envolvente e de qualidade inquestionável, nunca me cativou realmente. O que aconteceu mais neste volume, de certa forma mitológico, de certa forma enternecedor, de certa forma inquietante. Quem é o Abandonado, o monstro devorador de pessoas que se esconde no bosque? E o que pode fazer Emma para o ajudar e para proteger a vila?

sem títuloA Levoir lançou os volumes 7 e 8 de Y: O Último Homem de Brian K. Vaughan e Pia Guerra. A série foi uma das minhas maiores desilusões de 2018, uma vez que tinha ideia de ler algo muito melhor do que realmente encontrei. É uma BD de qualidade, mas que não me acrescenta nada nem me consegue prender enquanto narrativa. Mesmo assim, esta série gráfica tem vindo a apresentar ligeiras melhorias. O sétimo volume, Bonecas de Papel, é um livro mais calmo, que serve para aprofundar personagens e lançar uma crítica ao jornalismo. No oitavo volume, Dragões de Kimono, os protagonistas seguem até ao Japão em busca do macaco Ampersand, e encontros e reencontros marcam um álbum mais veloz. Publicado pela Saída de Emergência, A Morte dos Reis é o sexto volume da série As Crónicas Saxónicas de Bernard Cornwell. Apesar de ter achado o princípio um pouco repetitivo e exasperante aquela contínua apresentação das mesmas personagens, livro após livro, Cornwell volta a surpreender com intriga política e estratégias militares deliciosas de se ler. Mas o melhor mesmo é a interação do protagonista, Uthred, com os demais. Que personagem! Desta vez, a Bretanha saxã tem de fazer frente às aspirações de um bom punhado de inimigos: Sigurd, Cnut e Haesten, três dinamarqueses perigosíssimos, mas também dos pretendentes ao trono de Alfredo, onde se pode contar o seu sobrinho Æthelwold.

Sem TítuloE também pela Saída de Emergência chegou-me O Periférico de William Gibson. Bem, se não sabem quem é este autor, não devem saber muito sobre ficção científica. Gibson é o pai do cyberpunk, visionário dos reality-shows, a ele devemos noções como ciberespaço ou matrix e já escrevia sobre mundos futuristas quando ainda se dactilografava, naquelas máquinas de escrever velhinhas. O Periférico é o romance mais recente do autor, que apresenta a versão de uma extinção lenta através do ponto de vista de duas grandes personagens, Flynne Fisher e Wilf Netherton. Com autómatos, cópteros, fatos-lula, montadores “fofinhos”, viagens no tempo e tudo o mais. Muito bom! Neste momento, encontro-me a ler o livro O Núcleo de Peter V. Brett, mas autores como Charles Dickens, Philip K. Dick, Steven Erikson ou Robin Hobb fazem parte dos meus planos já para este mês de abril. Continuem por aí e não deixem de visitar este meu cantinho online.

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