Estive a Ler: Ubik


Às três e meia da madrugada de 5 de junho de 1992, o principal telepata do Sistema Sol desapareceu do mapa nos escritórios da Runciter Associates, na cidade de Nova Iorque. Isso pôs de imediato os videofones a tocar.

ESTE TEXTO ABORDA O LIVRO UBIK

Um dos mais influentes escritores da segunda metade do século XX, Philip K. Dick nasceu em Chicago e viveu grande parte da sua vida na Califórnia, onde viria a morrer em 1982. Após frequentar a Universidade da Califórnia, da qual desistiu, deu início à sua carreira profissional como escritor de numerosos romances, ensaios e coletâneas de contos, todos no género da ficção científica. Em 1963, venceu o Prémio Hugo por O Homem do Castelo Alto, ao que se seguiram outras obras, prémios e adaptações cinematográficas.

As suas ideias visionárias causaram grande impacto na cultura contemporânea e Ubik é um dos seus livros mais famosos, a par de O Homem do Castelo Alto, Relatório Minoritário e Será Que Os Andróides Sonham com Ovelhas Elétricas? A edição que li foi a impressão de 2017 da Relógio D’Água, com 256 páginas. Ubik foi lançado por Dick em 1969, sendo considerado pela Revista Time um dos 100 melhores romances de sempre.

Sem Título 3
Fonte: https://www.artstation.com/artwork/OPeRe

Comecei este livro sem saber nada da premissa, sem ler sequer a sinopse e com as expectativas algo baixas, uma vez que o único livro que tinha lido do autor, O Homem do Castelo Alto, não me agradou tanto quanto gostaria. E apesar de, findo Ubik, considerar o seu início bom, os primeiros capítulos não me cativaram por aí além. Mas a leitura fluiu e a partir do segundo terço do livro já só consegui largar o livro quando cheguei ao último parágrafo.

“Ubik é um livro muito bom, que me deixou a salivar por mais.”

Ubik é um livro futurista, apesar de ser passado nos anos 90, uma vez que foi publicado no final dos anos 60. É uma ficção científica interessantíssima, que debate temas como a divindade ou a vida após a morte num contexto ficcional. A única razão por que não lhe dou a pontuação máxima é ter achado a maioria das personagens pouco profundas e algumas até indistinguíveis, bem como uma escrita pouco irreverente. O que não rouba o meu grande apreço por esta história misteriosa e inquietante.

Sem Título 3
Fonte: https://www.bertrand.pt/livro/ubik-philip-k-dick/21187928

Estamos na Nova Iorque dos anos 90, onde uma empresa chamada Runciter Associates oferece o serviço de telepatas para espionagem industrial, fabricando estimativas e previsões para o sucesso dos negócios. Glen Runciter é-nos apresentado como um homem quebrado com a morte da esposa, Ella, ou melhor quase morte. Ella Runciter tem o corpo metido num contentor, onde Glen consegue encontrar a sua alma e falar com ela… quando um intruso chamado Jory Miller, também em meia vida, não interfere na comunicação e se apropria daquele corpo.

Depois somos apresentados a Joe Chip. Joe trabalha como recrutador para Runciter, um homem desorganizado e pouco social que é visto como um espertalhão e um oportunista, mas que não tem moedas sequer para pagar aos seus aparelhos pessoais, como uma ida ao duche ou passagem por uma porta. Sim, no mundo apresentado por Dick, é preciso pagar que os aparelhos funcionem. Joe parece tudo menos o típico protagonista, mas é ele o protagonista do livro.

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Fonte: http://raymescallado.com/2018/12/365-days-of-gifs-day-364-pkd-in-the-house-black-mirror/

Certo dia, ele recebe a visita do olheiro da equipa, que traz consigo uma rapariga aparentemente especial. Diferente de tudo o que já viu, Patricia Conley, mais conhecida por Pat, parece ter o dom de contrariar as previsões dos telepatas, regredindo no tempo. Tudo parecia encaminhado para que Joe desenvolvesse uma certa simpatia e até atracção pela jovem, mas tudo o que ele ganha por ela é reticências e sérias desconfianças.

“Ubik foi lançado por Dick em 1969, sendo considerado pela Revista Time um dos 100 melhores romances de sempre.

Um dia, a equipa viaja para Luna numa expedição que se revela uma armadilha da sua empresa rival, comandada por Ray Hollis, e Runciter morre numa explosão. Os restantes regressam à Terra e tentam retomar as suas vidas, mas coisas estranhas começam a acontecer. Mensagens de Runciter começam a aparecer em moedas e maços de tabaco, por exemplo, o tempo parece recuar aos seus olhos e, um a um, os membros da expedição começam a desintegrar-se e a morrer. Até que Joe chega à hipótese de que talvez Runciter não tenha morrido. Possivelmente, foi o único que sobreviveu.

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Fonte: https://giphy.com/gifs/computer-minority-report-bes9p1bxi5Khi

O termo Ubik deriva da palavra latina ubique, que resultou no nosso termo ubiquidade, o dom de estar em todos os lugares em simultâneo. Ao início de cada capítulo temos um pequeno anúncio comercial que cataloga Ubik como um produto, sempre um produto diferente, mas para além dessas introduções, durante metade do livro não ouvimos essa palavra em nenhum outro ponto. Depois, percebemos que Ubik é uma lata de spray cujo conteúdo permite às personagens não se desintegrarem completamente.

A leitura do livro não é complexa e sabe informar o leitor convenientemente sem se exceder em explicações. E, mesmo assim, ele consegue criar teorias formidáveis e levantar uma série de questões empolgantes. Ubik acaba por ser um sinónimo de divindade, e o mundo onde Joe Chip se encontra, seja realidade, ilusão ou purgatório, fica ao critério do leitor. Ubik é um livro muito bom, que me deixou a salivar por mais.

Avaliação: 9/10

5 comentários em “Estive a Ler: Ubik

  1. Viva.
    Já li à imenso tempo e sem duvida uma boa leitura 🙂

    Abraço

    Fiacha

    1. Muito bem. Gostei muito.
      Abraço e boas leituras. Obrigado pelo comentário. 🙂

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