XV Festival Internacional de BD de Beja


Sexta-feira, 31 de maio de 2019. Chegamos a Beja sob os 36 graus da tarde alentejana, ansiosos por mergulhar no universo das bandas-desenhadas. Mas o que esperava o Nuno e a Arianna, sendo a primeira vez na cidade de Beja e a primeira vez num festival exclusivo sobre bandas-desenhadas? Sem dúvida, um fim-de-semana para mais tarde recordar.

Depois de um jantar tranquilo, dirigimo-nos à Casa da Cultura de Beja onde o XV Festival Internacional de BD abria as portas. Quando as lonas da “feira do livro” foram abertas, as arcadas da Casa da Cultura começavam já a evidenciar sinais do que seria um fim-de-semana de festa, de encontros e de confraternização. O primeiro passo foram os stands, onde se podiam encontrar álbuns de diversas editoras, mas também os trabalhos de artistas independentes e não posso deixar de referir, foi a arte e o esforço deles que mais me “seduziu” nessa secção.

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As portas do edifício abriram depois das 21h00, onde o Presidente da Câmara Municipal de Beja, Paulo Arsénio, e o líder da organização do Festival, o simpatiquíssimo Paulo Monteiro, fizeram as honras da casa e convidaram o público a deleitar-se com as duas dezenas de exposições que preenchem a Casa da Cultura até ao dia 16 de junho. A noite quente foi permeada por vários encontros, bem como pelos concertos desenhados que começaram após as 23:30.

O sábado era aquele dia que, pessoalmente, reunia maior interesse, e muito por isso não arredamos pé da bedeteca. Mas se o meu interesse maior era ver Tyler Crook (o artista de Harrow County sobre quem escrevi uma recensão no Splaft #15 da Bedeteca de Beja) e o da minha namorada ver o artista italiano Enrico Fuccini, acabamos por conhecer artistas cujo trabalho nos era desconhecido e maravilhar-nos com as suas partilhas.

O momento em torno da obra de Eduardo Teixeira Coelho valeu pela experiência pessoal de José Ruy, manifesto discípulo do artista e um dos nomes maiores da BD portuguesa, bem como pelos conhecimentos de Fábio Moraes, estudioso da obra de Jayme Cortez, que fora influenciado diretamente por Coelho. O inglês Paul Duffield (Freak Angels) não tem trabalho traduzido em português, e talvez por isso o desconhecia, mas fiquei absolutamente fascinado com a sua arte. O ilustrador falou também sobre financiamento colectivo e bases de fãs.

O francês Dany (Olivier Rameau), os brasileiros Fabio Zimbres e Alcimar Frazão, os espanhois Miguel Angél Martin (Psychopathia Sexualis), Altarriba e Kim (A Arte de Voar) e o holandês Peter Van Dongen (Blake e Mortimer)  foram outros momentos fortes do sábado, que primaram pela boa disposição e pela informalidade, sendo abordados vários temas, como a receptividade do público e a pouca adesão do nosso público à leitura, independentemente do género. Mas os portugueses não ficaram a dever em carisma, como se pôde ver nas apresentações de O Outro Lado de Z por Nuno Duarte e Mosi ou O Colega de Sevilha, por Arlindo Fagundes.

Tivemos a oportunidade de privar algumas vezes com Enrico Fuccini, durante a nossa estadia em Beja. Na sua apresentação, o artista italiano mais conhecido pelas suas tiras do Pato Donald e Peninha falou sobre o seu trabalho na Disney, sobre o seu gosto por mistério, um género com o qual não trabalha devido à exigência do mesmo, preferindo dedicar-se ao humor e às tiras mais leves na banda-desenhada. Falou também sobre a insegurança do trabalho de um ilustrador, que o levou a optar por ter também um segundo emprego como designer para um jornal de Génova, cidade onde habita.

Tyler Crook foi, porém, um dos nomes mais sonantes de Beja 2019. O artista norte-americano é bem conhecido por Harrow County, mas também já ilustrou vários números de Hellboy depois de ter sido soberbamente elogiado por Mike Mignola. Tem tido uma parceria sólida com Cullen Bunn (Deadpool Killustrated) não só em Harrow County mas já anteriormente, em 6th Gunn. O desenho em aguarela de Crook é tão incrível que chegou a ser elogiado por fazer um desenho digital parecer aguarela, quando na verdade são as suas aguarelas que quase parecem trabalho digital.

Alberto Varanda e Olivier Vatine apresentaram o livro A Morte Viva, uma edição Portugal / França que encheu a Casa da Cultura na noite de dia 1 e marcou pela simpatia dos autores e pelas várias questões que lhes foram feitas. O trabalho de produção do livro e a morosidade do mesmo (5 anos) foram alguns dos temas em debate.  A distinção de Patrícia Guimarães com o Prémio Geraldes Lino 2019 foi outro dos momentos altos do dia e do certame em si, ou não tivesse sido a última premiada pelo falecido ícone da BD lusitana.

No domingo, dia 2, apenas ficamos pela manhã onde, para além de assistir à apresentação do projeto editorial Umbra e ao trabalho da Juvebedê, também vimos com grande empolgação a sessão com os atuais autores de Michel Vaillant, Benjamin Benéteau, Denis Lapière e Marc Bourgne, que com muita simpatia deram a conhecer vários pormenores sobre o trabalho de produção da nova temporada da série. O conhecimento que precisam de ter sobre mecânica, automóveis e todo esse mundo do automobilismo impressionou-me.

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Foram três dias bem divertidos e cheios de cultura, essencialmente marcados pelo profissionalismo e acessibilidade da organização. Certamente que este pequeno depoimento não lhe faz justiça e tampouco reproduz com exatidão o que ali aconteceu, mas sobretudo valeu por conhecer pessoas novas, autores e artistas que desconhecia, as suas experiências, mas também por reencontrar conhecidos do meio literário e por ter cada vez mais a certeza que este é o meu mundo. Até à próxima, em Beja ou noutro sítio qualquer.

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