Estive a Ler: O Navio Arcano, Os Mercadores de Navios-Vivos #1


Aquele estremecimento era tanto de pesar quanto de boas-vindas: a embarcação sentiria saudades do capitão tão ousado, mas recebia o anma dele em suas madeiras de bom grado.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO “O NAVIO ARCANO”, PRIMEIRO VOLUME DA SÉRIE OS MERCADORES DE NAVIOS-VIVOS

Ship of Magic é o primeiro volume da trilogia Liveship Traders de Robin Hobb, a segunda série da macrossaga Realm of the Elderlings e a primeira que não é protagonizada por FitzCavalaria Visionário. Hobb é um pseudónimo de Margaret Ogden, que utiliza quando escreve tramas de fantasia épica. Atualmente, a autora que esteve no nosso país em 2018 vive em Tacoma, no Washington, e é uma das mais famosas escritoras de literatura fantástica mundial.

Publicado originalmente em 1998, este livro não conhece por enquanto uma versão nacional, sendo uma das séries que a Saída de Emergência saltou por opção e não tem previsões de publicação futura. Liveship Traders foi publicada no Brasil pela Editora Leya em 2017 como Os Mercadores de Navios-Vivos, sendo Ship of Magic traduzido como O Navio Arcano. Mas mesmo lá, a obra de Hobb mudou de editora e as previsões para o restante da série não são as melhores.

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Fonte: https://giphy.com/explore/pirate

Já escrevi opinião a quinze livros desta autora e chego ao décimo sexto com uma pergunta nos lábios: o que querem mais que vos diga dela? Robin Hobb é muito amor. Este livro foi escrito em 1998, meus amigos. Há mais de vinte anos, e olhem lá o que meninos como Patrick Rothfuss, Scott Lynch e companhia têm a aprender com ela. Posso estar a falar de alguns dos meus autores preferidos, mas ver uma senhora a escrever aventuras tão boas e até melhores que os meus boys é um booom!

“Os Mercadores de Navios Vivos apaixonaram-me tanto quanto as últimas sagas de Fitz e quero ler tudo o que Hobb escreveu sobre eles.

Robin Hobb é mágica. Conheci Alteia, Brashen, Wintrow, Vivácia, Malta e Reyn na história de FitzCavalaria, muitos anos depois da ação que eles protagonizam neste livro, mas isso nada me melindrou a leitura do mesmo nem beliscou a minha experiência de leitura. O Navio Arcano é uma obra-prima da fantasia e não sei como é que o Reino dos Antigos não tem já uma franquia cinematográfica ou em TV. Game of Thrones é bom, mas muito pouco para o que a fantasia tem fabricado nas últimas décadas.

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Fonte: https://www.saraiva.com.br/o-navio-arcano-os-mercadores-de-navios-vivos-livro-i-9869142.html

A narrativa oferece uma história que segue o modelo dos livros de Ken Follett passados em Kingsbridge, quando acompanhamos uma família de mercadores, as suas paixões e problemas, as dívidas financeiras e as formas que arranjam para as saldar, bem como uma dose bem pesada de vilões verdadeiramente odiáveis, sem super-poderes nem espadas negras mas com caracteres mesquinhos que nos fazem verdadeiramente querer vê-los esfolados vivos.

É uma história crua e dura, com vários pontos de vista, que reproduz muito bem as dificuldades das famílias mercadoras, os problemas dos impostos e dos valores da família, a importância da imagem na sociedade e os diversos estágios de entendimento e de maturidade assumida pelos diversos elementos da família. Ainda assim trata-se de uma fantasia, e das serpentes marinhas aos navios falantes, O Navio Arcano consegue ser fantástica e credível com muito êxito.

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Fonte: https://cellcode.us/quotes/dia-de-los-muertos-makeup-men.html

Podíamos esperar encontrar num livro de fantasia náutica krakens, piratas zombies e muito do que Piratas das Caraíbas e afins nos têm oferecido de prato cheio nas últimas décadas. Mas Robin Hobb entrega uma relação íntima entre um navio vivo e uma pessoa. Estamos a falar de navios construídos com uma madeira especial (madeira de feiticeiro na versão portuguesa, madeira arcana na versão pt-br) e, quando três gerações de marinheiros morrem, eles despertam com a consciência de tudo o que os três homens da família neles viveram.

“Já escrevi opinião a quinze livros desta autora e chego ao décimo sexto com uma pergunta nos lábios: o que querem mais que vos diga dela? Robin Hobb é muito amor.”

Quem seguiu as sagas de Fitz sabe o que são estes navios e o que eles podem vir a transformar-se, mas por ora prefiro ater-me ao grau de conhecimento desta primeira abordagem de Robin Hobb. Para zarpar, estes navios vivos precisam de ter a bordo alguém do sangue dessa mesma família que o fez acordar, e estabelecer com essa pessoa uma relação de unidade, numa sensação de família singular e posso dizer até mais que fraternal.

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Fonte: https://www.newszii.com/pirates-of-the-caribbean-5/

A morte de Ephron Vestrit faz acordar o navio Vivácia, mas deixa também a sua família atolada em dívidas e sem qualquer sentido de orientação. Ronica, a sua esposa, pega nas rédeas da família e decide pôr a gestão do navio nas mãos de Kyle Porto, marido da sua filha mais velha, Keffria. Esta atitude gera um grande constrangimento, porque a filha mais nova de Ronica e Ephron, Althea (a Alteia de O Destino do Assassino) era vista como a futura capitã do navio e Kyle dispensa-a desde logo.

Althea era a filha predileta do velho Ephron, mas Kyle sempre a achou demasiado mimada pelo pai e sem de facto qualquer prova dada como marinheira. A sua má fama em Vilamonte serve de pretexto para a afastar tanto dos assuntos de Vivácia como da família. Quem sofre com isso é o navio, que estabelecera com Althea uma relação tão íntima quanto possível antes mesmo da embarcação acordar e agora ambas são obrigadas a separarem-se.

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Fonte: https://giphy.com/explore/pirate

Kyle pode ser o capitão de Vivácia, mas não é grande conhecedor de navios vivos e tardiamente percebe que é preciso um membro de sangue Vestrit a bordo para que Vivácia navegue. Decide então ir buscar o seu filho primogénito, Wintrow, que a mãe havia entregue muito jovem ao Templo de Sá, onde ele se instruía como sacerdote. É contra a sua vontade e intimidado pela natureza violenta do pai e da vida marítima que ele sobe ao navio, mas a pouco e pouco vem a construir uma relação ambígua com Vivácia.

“Ainda assim trata-se de uma fantasia, e das serpentes marinhas aos navios falantes, O Navio Arcano consegue ser fantástica e credível com muito êxito.”

Kyle e Keffria têm três filhos. Para além de Wintrow, há a caprichosa Malta, decidida a escandalizar a mãe e a avó, e o pequeno Selden. Ronica vê-se a mãos com as decisões polémicas do genro e com a gestão da família, questionando-se sobre as suas próprias escolhas mas conseguindo sempre, com tato, maturidade e a ardúcia que a experiência confere, levar as suas ideias a bom porto. Porém, ainda estão a pagar aos Ermos Chuvosos a madeira com que os seus ascendentes construíram Vivácia.

Já Althea tropeça em Brashen, o marinheiro favorito do seu pai, e numa lojista enigmática chamada Âmbar (e quem já leu a história de Fitz sabe de quem se trata). O livro foca-se também bastante em Kennit, um vilão impressionante que pretende tornar-se o rei dos piratas. São dele as melhores cenas de combates e batalhas navais, acompanhado pela sua prostituta Etta e pelo seu lugar-tenente, Sorcor.

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Fonte: https://www.deviantart.com/marcsimonetti/art/Liveship-traders-587381450

Para primeiro volume, gostava de ver um final mais redondinho e mais de Althea. Achei que ela passou a maior parte do volume a deambular por aqui e por ali, com umas ideias um quanto previsíveis. Mas isso por ter sido a minha personagem preferida, e querer ver mais dela. Brashen também é uma personagem incrível, mais do que esperava, e Kennit, Wintrow e Ronica foram sem margem para dúvidas as personagens mais bem exploradas e construídas.

Confesso que está a ser difícil imaginar Malta como a pessoa que se torna na história de Fitz, mas acontece a quem sabe um plot twist antes de conhecer a personagem. Dá-me vontade de saber mais sobre ela e ver rapidamente o seu percurso. Os Mercadores de Navios Vivos apaixonaram-me tanto quanto as últimas sagas de Fitz e quero ler tudo o que Hobb escreveu sobre eles.

Avaliação: 9/10

O Reino dos Antigos:

Saga do Assassino (Saída de Emergência):

#1 Aprendiz de Assassino

#2 O Punhal do Assassino

#3 A Corte dos Traidores

#4 A Vingança do Assassino

#5 A Demanda do Visionário

Saga Os Mercadores de Navios Vivos (Leya):

#1 O Navio Arcano

Saga O Regresso do Assassino (Saída de Emergência):

#1 O Regresso do Assassino

#2 Os Dilemas do Assassino

#3 Sangue do Assassino

#4 A Jornada do Assassino

#5 Os Dragões do Assassino

Saga Assassino e o Bobo (Saída de Emergência):

#1 O Assassino do Bobo

#2 A Revelação do Bobo

#3 A Demanda do Bobo

#4 A Viagem do Assassino

#5 O Destino do Assassino

5 comentários em “Estive a Ler: O Navio Arcano, Os Mercadores de Navios-Vivos #1

  1. Oie,

    Bem que gostava de ler esta trilogia, quem sabe a SDE venha a publicar e ainda me recordo que no inicio não te catvava muito os seus livros 😀

    Abraço

    Fiacha

    1. Boas amigo Fiacha.
      É bem verdade, não gostei muito da primeira saga. A partir daí fiquei apaixonado 😛

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