Estive a Ler: Rebecca


A noite passada sonhei que voltava a Manderley. Pareceu-me estar junto do portão de ferro e por um instante não pude entrar porque o caminho me estava barrado.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO REBECCA

Um livro para recordar, Rebecca é o romance mais famoso da escritora britânica Daphne Du Maurier, publicado em 1938 pela editora Victor Gollancz. Du Maurier ficou também conhecida por livros como Os Parasitas, A Pousada da Jamaica ou o conto Os Pássaros, que assim como Rebecca também conheceu maior repercussão após a adaptação cinematográfica de Alfred Hitchcock, que viu nesta escritora uma das suas maiores inspirações.

O filme de Hitchcock foi protagonizado pelos atores Laurence Olivier e Joan Fontaine, que lhe valeu o Óscar de Melhor Filme de 1940. Com 400 páginas, creio que a edição da Editorial Presença de 2009 é a mais recente publicada em Portugal com tradução de Lucinda Santos Silva. Rebecca é um clássico da literatura romântica de suspense, que se tornou indelével ao passar dos anos, não obstante toda a polémica à volta da sua publicação, que foi acusada de plágio.

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Fonte: https://giphy.com/gifs/rebecca-alfred-hitchcock-JtDNAqtOl2WMU

Tomei conhecimento desta obra de Daphne du Maurier uns dez anos atrás, quando li o livro A Chave para Rebecca de Ken Follett, em que este dito livro é o protagonista de uma perseguição de espionagem nazi no Egipto. A obra de Follett marcou-me bastante enquanto leitor e o nome Rebecca de Daphne du Maurier ficou-me na retina, como leitura futura. Este foi o ano em que decidi por fim lê-lo.

“Envolvente e misteriosa, Rebecca é uma leitura intemporal, capaz de agradar aos seguidores de vários géneros literários.

À primeira vista seria um livro de tom romântico que não iria muito de encontro às minhas preferências literárias, mas todo o toque de suspense, o gótico e o mistério policial coloca este livro claramente entre os géneros que mais me atraem. Rebecca é uma narrativa coerente e bem amarrada, que nos deixa permanentemente com o coração nas mãos, a torcer por uma miúda ingénua e previsível de quem nem chegamos a saber o nome.

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Fonte: https://www.wook.pt/livro/rebecca-daphne-du-maurier/1498878

A narradora é uma rapariga bastante modesta e tímida, que conhecemos no início do livro como ajudante de uma senhora idosa e peculiar chamada Mrs. Van Hopper, que em Monte Carlo tenta ensiná-la a comportar-se como uma dama de companhia. É ali que ela dá de caras com Maxim de Winter, um homem mais velho que se viu viúvo recentemente, e por quem se apaixona.

Rebecca foi um grande sucesso de crítica ao retratar a história de uma mulher que se casa com um viúvo muito rico e algo rude, o senhor da mansão Manderley e passa a viver ali, na residência opulenta onde um dia Rebecca, a sua primeira mulher, foi dona e senhora. Desde logo a protagonista se sente asfixiada pelas inevitáveis comparações entre si e Rebecca e em pouco tempo pressente que aquele não é o seu lugar, que Manderley já tem uma dona, embora esteja morta.

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Fonte: https://medium.com/everythings-interesting/in-rebecca-1941-alfred-hitchcock-tells-a-gothic-ghost-story-without-any-ghosts-5217af790962

A própria mansão pode ser considerada uma personagem, tal é a sua intensidade e significado narrativo. Inclusive, algumas partes da mansão são abertas a visitas públicas, como se de um museu se tratasse. Todos os pormenores são dignos de nota, desde um simples vaso a um quadro numa parede. E todos eles fazem recordar Rebecca. A esposa morta do viúvo de Winter.

“O clima de mistério sobre a vida e a morte de Rebecca adensa-se ao longo da narrativa, ao mesmo tempo que a protagonista se vê a si mesma como alguém que lhe foi roubar o lugar.

Personagens como Mr. Danvers, Frith, Frank, Jack, Ben, Beatrice, Giles ou Coronel Julyan cativam tanto pelo mistério como pelos comportamentos, nem sempre expectáveis, nem sempre lineares, nem sempre de acordo com as nossas idiossincrasias. Mas é Rebecca, a esposa morta, a alma do livro, e é impossível passar por ele sem lhe ficar indiferente, e mesmo que em momento algum a vejamos ou tenhamos um flashback, todo o livro fala realmente sobre ela e sobre o seu comportamento perante os outros.

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O clima de mistério sobre a vida e a morte de Rebecca adensa-se ao longo da narrativa, ao mesmo tempo que a protagonista se vê a si mesma como alguém que lhe foi roubar o lugar. É o fantasma do passado de Rebecca que a assombra. Em vários trechos, a protagonista revela-se demasiado ingénua, no amor desesperado por Maxim e sobretudo em relação ao comportamento de Mr. Danvers, a governanta que estabelecera com Rebecca uma relação quase maternal.

O que não rouba a intensidade e a maravilha à prosa de Daphne du Maurier, do início fluído e compassado ao clímax do final, numa altura em que já estamos a torcer desesperadamente por determinadas personagens e a odiar profundamente outras. Envolvente e misteriosa, Rebecca é uma leitura intemporal, capaz de agradar aos seguidores de vários géneros literários.

Avaliação: 9/10

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