Resumo Trimestral de Leituras #18


Mais três meses que passaram e cheguei ao final do primeiro semestre com 53 leituras concluídas. Neste segundo trimestre li 18 livros e 8 BDs, mantendo uma média de 9 leituras por mês, com a exceção do mês de maio, em que me fiquei pelas 7. Os destaques mais positivos destes três meses passam por algumas leituras há muito desejadas (Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, Doutor Jivago de Boris Pasternak ou Guerra e Paz de Lev Tolstoi) e pelos lançamentos que tive a oportunidade de ler desde logo, como são exemplo Oliver Twist, Um Trono Negro, A Queda de Gondolin, Samitério de Animais ou O Destino do Assassino.

A minha melhor leitura do trimestre e a melhor do ano até agora foi mesmo o quinto volume da Saga do Império Malazano de Steven Erikson, Capustan, mas os dois livros que li de Robin Hobb estão ali a morder-lhe os calcanhares. Tanto O Destino do Assassino como a versão pt-br O Navio Arcano foram leituras incríveis. De resto, a Saga Assassino e o Bobo não foi a única que concluí neste trimestre, tendo também encerrado as sagas Ciclo dos Demónios de Peter V. Brett e a trilogia Bill Hodges de Stephen King, ambas excelentes.

Sem TítuloComecei abril com o livro Oliver Twist de Charles Dickens, numa nova edição pela Saída de Emergência. É uma história com pouco interesse para quem queira ler algo novo ou entusiasmante, porque Oliver Twist é basicamente um dramalhão sobre as aventuras e desventuras de um menino órfão. O pequeno Oliver procura sobreviver numa sociedade marcada pela fome, pela miséria e pela violência. Mas é sempre um prazer ler Charles Dickens e o seu retrato realista da Inglaterra do séc. XIX. Um livro emocional e trágico, mas também esperançoso. Publicado pela Relógio D’Água em 2017, Ubik é um livro intemporal escrito por um dos nomes grandes da ficção científica, Philip K. Dick. É uma ficção científica interessantíssima, que debate temas como a divindade ou a vida após a morte num contexto ficcional. Estamos na Nova Iorque dos anos 90, onde uma empresa chamada Runciter Associates oferece o serviço de telepatas para espionagem industrial, fabricando estimativas e previsões para o sucesso dos negócios. Glen Runciter é-nos apresentado como um homem quebrado com a quase morte da esposa, Ella, mas quando embarca numa viagem a Luna, é ele o único elemento da sua equipa que morre. Ou será o contrário?

image-90714527.pngPela G Floy Studio chegou Kick-Ass, novela gráfica de Mark Millar e John Romita Jr. Dave Lizewski queria ser um super-herói e decidiu que iria tomar o seu destino nas mãos e seguir o seu sonho. A cidade começou a reparar no seu novo super-herói de fato de mergulho e máscara, ainda que ele possa não revelar grande talento para a coisa. Nunca vi a adaptação cinematográfica com Aaron Taylor-Johnson e Nicolas Cage, mas gostei bastante da BD. Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley é aquele clássico distópico que ninguém pode deixar de ler. Numa edição da Antígona, conheci uma nova perspectiva sobre governos autocráticos, bem diferente do que li em 1986. Trata-se de uma parábola fantástica sobre a desumanização dos seres humanos, realçando as características mais negativas da evolução humana e da manipulação pela ciência. O livro descreve uma sociedade futura em que as pessoas seriam condicionadas em termos genéticos e psicológicos, a fim de se conformarem com as regras sociais dominantes, que lhes oferece tudo o que precisam para serem felizes.

Sem TítuloCheguei finalmente ao derradeiro volume da trilogia Bill Hodges de Stephen King. Publicado pela Bertrand, Fim de Turno volta a cimentar Bill Hodges como o grande protagonista e Brady Hartsfield como o grande vilão da trilogia. Recorrendo ao sobrenatural pela primeira vez com forte incidência nesta trilogia, King faz-nos vibrar com a ardileza de um protagonista vergado pela doença e com a inteligência calculista e cobarde de um vilão que não apresentara grande desafio como Assassino do Mercedes. Pelo menos, para o grande Hodges. Com uma conclusão consistente, competente e dramática, Fim de Turno é um thriller mas também fala muito sobre como as doenças devem ser encaradas, da descoberta tardia de um cancro à problemática do suicídio. No terceiro volume da BD Descender, Singularidades, Jeff Lemire e Dustin Nguyen trazem-nos um álbum mais reflexivo. Ele começa e termina mais ou menos no mesmo ponto em que se encerrou o segundo volume, mas essa falta de avanço prático não vem retirar qualidade à série, apesar da quebra de ritmo. É um livro que serve para nos mostrar ao certo quem são estas personagens que conhecemos até agora, o porquê de estarem onde estão e o passado que, de uma maneira ou de outra, os liga. Apesar de morno, foi uma leitura bem gratificante, que deixa antever um quarto volume mais forte para esta publicação da G Floy Studio Portugal.

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Um Trono Negro é o segundo volume da série YA de Kendare Blake Três Coroas Negras, publicada entre nós pela Porto Editora. Se o primeiro volume não me agradou muito, apesar de me sentir afeiçoado às personagens e às histórias ricas e bem construídas, este segundo veio confirmar as minhas piores expectativas, com a maioria das personagens a falarem como se fossem adolescentes, independentemente da idade ou da experiência de vida. Com alguns elementos interessantes e um final apetecível, o livro que conta a luta de três irmãs gémeas por uma coroa marca também por algumas reviravoltas e momentos de ação, que não chegaram contudo para que me tenha agradado, num espectro geral. Publicado pela Coleção 1001 Mundos das Edições ASA, O Núcleo é o quinto e último volume da série Ciclo dos Demónios de Peter V. Brett. Adorei as evoluções de Leesha, Jardir, Inevera e Abban, o papel desempenhado por Arlen e o despertar de um Enxame de demónios, bem como a minúcia das descrições destes. Na senda dos livros anteriores, O Núcleo apresenta uma conclusão competentíssima, ainda que tenha ficado claro que nem tudo acaba aqui.

Sem Título 2E a última opinião do mês de abril foi O Destino do Assassino de Robin Hobb. O último livro da Saga Assassino e o Bobo vem dar respostas a anos de espera e finalizar a história de uma das minhas personagens preferidas, FitzCavalaria Visionário. Parte elementar da Coleção Bang! da editora Saída de Emergência, a obra de Robin Hobb fala da relação entre Fitz, o Bobo e o lobo Olhos-de-Noite, mas vem adicionando a pouco e pouco muitos elementos incríveis, como é o caso, nesta última série, do sequestro da jovem Abelha. Há uma mistura de sentimentos durante a leitura e após a conclusão do livro. Há a fome de o terminar e o desejo que não termine nunca. Maio começou para mim com um thriller. Publicado pela Editorial Planeta, O Homem de Giz é o romance de estreia de C.J. Tudor, laureado pelo público generalizado de thrillers. A minha opinião sobre este livro divide-se em quatro fases: primeiros dois, três capítulos bons, restante da primeira metade horrível, segunda metade muito boa, último capítulo totalmente dispensável. Em 1986, Eddie vive com os seus amigos numa pacata cidade, mas a vida deles não volta a ser a mesma depois que um acidente num parque de diversões magoa uma rapariga por quem o professor local se apaixona e a jovem é assassinada algum tempo depois. O livro tinha tudo para me agradar, mas acabou por me parecer uma imitação muito pálida de Stephen King.

Sem Título 3Pelas mãos da D. Quixote, A Sombra do Vento é o primeiro volume da série Cemitério dos Livros Esquecidos e o mais famoso romance de Carlos Ruiz Zafón. O livro começa em 1945, quando o pequeno Daniel Sempere é levado pelo pai a um lugar mítico da Barcelona de então e lhe é dada a possibilidade de levar um livro à sua escolha. O menino escolhe um livro chamado A Sombra do Vento de um escritor de que nunca ouvira falar: Julián Carax. Apaixonado pela história sombria e pelo mistério em volta do escritor, uma vez que poucos foram os que ouviram falar dele, Daniel dedica-se a destrinçar a vida do autor, sem imaginar como a história dele e a sua se viriam a entrelaçar. Um romance incrível e cativante a todos os níveis. Com argumento de Cullen Bunn e arte de Matteo Leoni, Deadpool Mata os Clássicos é mais uma edição incrível publicada entre nós pela G Floy Studio. Neste novo volume que segue a narrativa iniciada em Deadpool Mata o Universo Marvel, vemos o Mercenário Desbocado em busca das personagens da literatura clássica para as assassinar, impedindo assim que estas viessem a inspirar novas histórias e, na sua visão obsessiva, inimigos. Os sketches são rapidíssimos e não se demoram minimamente, mas mesmo assim conseguem ser tensos e divertidos no pouco tempo em que são explorados. O humor de Deadpool é uma constante e nesse quesito Bunn tem grande mérito.

Sem Título 3Pelas mãos da Bertrand chegou-me Samitério de Animais do mestre Stephen King. Ele fala sobre uma família que chega a uma localidade do Maine para se fixar, por conta do novo emprego do doutor Louis Creed na região. Desde logo travam conhecimento com um casal vizinho que os alerta para as coisas misteriosas que ali acontecem, nomeadamente no cemitério de animais de estimação das imediações. Louis não podia prever que aquele lugar pudesse manobrar a sua vida, bem como a da sua família. Apesar de não me ter prendido desde o início, foi uma leitura muito proveitosa. Publicados pela Levoir, os dois primeiros volumes de Black Hammer saíram com os títulos Origens Secretas e O Evento. Com argumento de Jeff Lemire, arte de Dean Ormston e David Rubín e pintado por Dave Stewart, Black Hammer conta a história de um grupo de super-heróis que após enfrentar um inimigo, ficou preso num rancho norte-americano. O super-herói chamado Black Hammer morreu pouco depois, mas os outros seis viram-se obrigados a ficar ali e a envelhecer com os seus dramas pessoais e de enquadramento numa sociedade diferente. Com um argumento incrível, como Lemire já tão bem nos habituou, e uma arte digna de nota, fiquei agradavelmente surpreendido com esta BD.

Sem Título 3A Sextante publicou Doutor Jivago, a grande saga épica da Rússia da primeira metade do século XX. Da autoria de Boris Pasternak, a trama narra a história da vida e dos amores de um poeta, filósofo e médico nos dias turbulentos da revolução, que se vê dividido entre as frentes branca e vermelha mas também entre a sua casa e o amor desmedido pela bela enfermeira Lara. Usado como bandeira anti-comunista, o livro foi publicado primeiro no Ocidente e foi alvo da censura da URSS, que proibiu Pasternak de aceitar então o Prémio Nobel. Um livro moroso e difícil, mas um bom entretenimento. Se terminei maio com um clássico russo, comecei junho da mesma forma. Guerra e Paz de Lev Tolstoi foi dividido em dois volumes pela Saída de Emergência. O livro narra a história da Rússia durante a época de Napoleão Bonaparte, nomeadamente durante as guerras napoleónicas. Ele mistura ficção histórica, estratégia militar e filosofia, mas também tem uma grande vertente de “novela russa” narrando os dramas amorosos dos protagonistas nos tempos mortos da guerra. Para mim foi uma leitura extremamente aborrecida, mas não deixa de ter a sua importância. É daqueles livros que se levam para a vida se o lermos com calma e por partes.

Sem TítuloE A Queda de Gondolin do grande mestre J. R. R. Tolkien foi uma desilusão ainda maior, mais uma vez não por culpa do autor mas pelas minhas expectativas. Contava ler um livro que me trouxesse mais sobre o mundo fantástico de Tolkien e acaba por ser apenas um ensaio do seu filho Christopher, falando acerca das notas do pai sobre a Queda de Gondolin e apresentando os escritos inacabados de Tolkien, que acabam por dizer praticamente o mesmo que já conhecia de O Silmarillion. Vale sobretudo por rematar a publicação de todos os Grandes Contos Perdidos de Tolkien, pelas ilustrações e pela edição cuidada da Planeta Manuscrito. A BD Outcast de Robert Kirkman e Paul Azaceta, publicada entre nós pela G Floy Studio, aproxima-se do seu fim. A editora decidiu lançar um volume duplo com os trades “O Novo Caminho” e “Invasão”, onde Kyle é o único que pode fazer face a uma misteriosa e inquietante praga de possessões, que ameaça os seus ente-queridos mais do que nunca. Neste quinto volume, a série continua ao rubro, conseguindo manter o ritmo mais elevado do que nos primeiros volumes sem deixar de desenvolver as personagens à sua maneira.

Sem TítuloO terceiro álbum de The Wicked + The Divine traz uma pausa na ação da série, mas este Suicídio Comercial acaba por ser aquele que mais gostei até agora. O ilustrador Jamie McKelvie colabora aqui com vários artistas, um para cada capítulo do volume, cada um dos quais focado numa das divindades do Panteão e revelando alguns dos segredos e das motivações por trás das suas personalidades. O argumento de Kieron Gillen está cada vez melhor. Também pela G Floy chegou-me Reborn / Renascidos, do grande Mark Millar e do artista de Batman Greg Capullo. Se em Starlight Millar explora o idoso que ainda pode salvar um planeta, aqui ele mostra que mil aventuras podem esperar uma velhinha no post mortem. Bonnie Black é uma senhora doente que espera pelo seu fim num quarto de hospital, bem perdida e desesperada com o desconhecido que é a morte. Quando, de facto, morre, acorda num mundo de fantasia e contos de fadas, em que o bem e o mal estão separados geograficamente e a descoberta de entes-queridos leva-a a uma jornada em busca do esposo, também ele já morto. Mais um acerto para a Coleção Millarworld.

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Children of the Nameless é o projeto secreto em que Brandon Sanderson esteve envolvido durante boa parte de 2018. Trata-se de uma noveleta escrita pelo autor no mundo do famoso RPG Magic: The Gathering, de que o autor é jogador e fã confesso. A história segue a vida de uma menina chamada Tacenda e da sua irmã gémea Willa. As duas nascem com uma particularidade rara: uma fica cega durante o dia, a outra fica cega durante a noite. Essa maldição oferece-lhes também uma habilidade mágica. Mas, um dia, a sua aldeia é atacada e quase todos são mortos; Tacenda não sabe como o seu dom pôde falhar. A partir daí vai buscar a vingança contra o terrível Lord of the Manor. Uma história que demorou a agradar-me mas que acabou muito bem. Publicado pela Saída de Emergência, Capustan é o quinto volume da Saga do Império Malazano de Steven Erikson, a segunda metade do terceiro original, Memories of Ice. Gente que se transforma em dragões, legiões que combatem hordas de velociraptors com explosivos, feiticeiros transformados em condores assassinos, exércitos de mortos-vivos, povos canibais, uma montanha voadora, três magos reencarnados numa única pessoa, momentos únicos de magia. Visualmente, Capustan oferece isto. Seria suficiente para me arrebatar? Provavelmente. Mas a Saga do Império Malazano é muito mais e Capustan é a prova viva disso. A Humanidade presente neste livro é memorável e esta é a minha melhor leitura do ano até ao momento.

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O Navio Arcano é o primeiro volume da série Os Mercadores de Navios-Vivos de Robin Hobb. Infelizmente ainda não saiu em Portugal, mas chegou-me às mãos a versão brasileira da Leya. Trata-se de uma fantasia marítima em que uma família de mercadores atolada em dívidas, os Vestrit, tenta como pode lidar com a morte do seu patriarca, Ephron. Cada membro desta família tem as suas próprias intenções e pontos de vista, desde a experiente Ronica à jovem Malta, passando pela indomável Alteia, que cria com o navio uma relação peculiar. É que o navio da família é um navio-vivo, feito com madeira-de-feiticeiro, e estas embarcações estabelecem laços muito fortes com as famílias a que pertencem. Robin Hobb não desilude e este livro é mais uma prova disso. Li também a edição da Editorial Presença de Rebecca, um clássico intemporal de Daphne du Maurier e talvez o livro mais marcante da musa de Hitchcock. À primeira vista seria um livro de tom romântico que não iria muito de encontro às minhas preferências literárias, mas todo o toque de suspense, o gótico e o mistério policial coloca este livro claramente entre os géneros que mais me atraem. Retrata a história de uma mulher que se casa com um viúvo muito rico e algo rude, o senhor da mansão Manderley e passa a viver ali, na residência opulenta onde um dia Rebecca, a sua primeira esposa, foi dona e senhora. Desde logo a protagonista se sente asfixiada pelas inevitáveis comparações entre si e Rebecca e em pouco tempo pressente que aquele não é o seu lugar. É um daqueles livros que nos ficam na memória pelas melhores razões.

E depois de tantas leituras maravilhosas, estou a ler Seca de Neal e Jarrod Shusterman e Moby Dick de Herman Melville. Ainda no mês de julho conto ler nomes como Victoria Aveyard, David Anthony Durham ou José Saramago. Fiquem atentos!

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