Estive a Ler: Moby-Dick


Mas se eu digo que tenho o hábito de embarcar quando começo a ver tudo turvo e a sentir o ar pesado nos pulmões, não quero que pensem que embarco como passageiro. Para viajar como passageiro é necessário possuir-se uma carteira, e uma carteira não passa de um pedaço de cabedal se não houver qualquer coisa lá dentro.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO MOBY-DICK

Originalmente publicado em três fascículos com o título Moby-Dick, A Baleia em Londres e em Nova Iorque em 1851, o livro de Herman Melville sobre a enorme baleia branca não obteve grande sucesso durante a vida do escritor norte-americano, falecido em 1891, tendo sido duramente criticado pela visão destrutiva do homem contra a vida marinha. Contribuiu até para o declínio da carreira de Melville enquanto escritor, ofício que viria a abandonar por desmotivação.

Ainda assim, o livro viria a tornar-se, com o passar das décadas, um clássico da literatura mundial e uma das criações mais famosas em língua inglesa. O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que se afundou ao perseguir teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, na história do cachalote albino Mocha Dick, que se defendia de todos os navios que o perturbavam, e até mesmo na vida de marinheiro que o autor havia levado.

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Fonte: http://cachelot.com/mocha-dick/

Moby-Dick foi já várias vezes traduzido para português, tendo-me chegado às mãos a edição de 2017 da Guerra e Paz, incluído na sua coleção Clássicos Guerra e Paz, com uma nova tradução de Maria João Madeira e um total de 704 páginas. Sobre a importância e a dimensão deste livro, é difícil dizer algo que não fora já dito. Trata-se de um épico abismal, um verdadeiro compêndio e ode à vida marítima.

“Moby-Dick é um livro que faz os homens questionarem a sua mortalidade, a sua natureza, o seu propósito no mundo.

Não é de surpreender que o livro tenha sido considerado polémico à época, podendo mesmo ser considerado à frente do seu tempo na forma de expressão. Moby-Dick oferece várias descrições complexas e imaginativas, as experiências pessoais do narrador, opiniões que podem ser encaradas como visões do próprio escritor sobre temas como o racismo e o assassínio de animais, mas também a sua perspetiva religiosa e/ou filosófica.

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Fonte: https://www.clubedoslivros.pt/2017/04/editora-guerra-e-paz-moby-dick-de.html

O livro é também permeado por imensos capítulos de não-ficção sobre cetologia, a anatomia de animais e de embarcações, o dia-a-dia de um baleeiro, os seus métodos de ação, de sobrevivência e caça, o aproveitamento dos produtos extraídos das baleias, como o óleo e o seu armazenamento, assim como para fins mais fúteis da sociedade. Daí que Moby-Dick seja, mais que um romance de ficção, uma enciclopédia sobre a vida no mar e um tratado sobre a natureza humana.

E, apesar de ter gostado muito do livro, de ter ficado a conhecer métodos, de me ter interessado por pormenores de conserva e de construção de arpões, por exemplo, bem como pela engrenagem das velas de um baleeiro, tudo informação que me pode vir a ser útil enquanto autor, todos esses capítulos revelaram-se algo entediantes, quando Melville se foca em questiúnculas sem a menor importância e as desenvolve ad nauseam.

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Fonte: https://www.jornalopcao.com.br/opcao-cultural/melville-e-moby-dick-11616/

Sobretudo os trechos religiosos, as canções pavorosas e as passagens, mais que muitas, sobre a história bíblica de Jonas e a Baleia. Em determinado momento cheguei a dizer para os meus botões que se lesse mais alguma alusão a Jonas, largaria de imediato o livro. É mesmo um volume maçante no que toca à exposição de conhecimentos, e não hesito em afirmar que se o autor se atesse à narrativa do livro, levava de mim a nota máxima.

A escrita de Herman Melville é muito boa, se fechar os olhos às comparações intermináveis de acontecimentos do quotidiano com as mais diversas histórias mitológicas e bíblicas, que em vários momentos me deixou só e apenas com a sensação de que ele queria mostrar o quão rico em conhecimentos era. A história é bem interessante, sobretudo na vertente em que explora a natureza humana e como os marinheiros se relacionam. Na forma como são cruéis e como isso os humaniza e nos faz amar Moby-Dick sem nem a conhecermos.

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Fonte: https://wtop.com/entertainment/2016/11/moby-dick-director-dives-behind-the-white-whale-at-arena-stage/

O protagonista é, supostamente, Ismael. Chamem-me Ismael, é como começa o livro e em boa verdade acabei por me afeiçoar à personagem em poucos, pouquíssimos parágrafos. Ele é um professor de uma família tradicional que, de quando em quando, leva uma vida de marinheiro para fugir da melancolia que a terra lhe traz, mas não conhecemos as suas origens nem mesmo o nome completo, se chega a ser verdadeiro. Dirige-se à ilha de Nantucket para arranjar emprego em algum navio que dali parta, mas antes passa por New Bedford, onde trava conhecimento com Queequeg, um arpoador tatuado que fora canibal e vendia cabeças humanas embalsamadas.

Queequeg acaba por ser uma das figuras maiores do livro e, em boa parte, o ténue alívio cómico da narrativa. Ele e o narrador tornam-se grandes amigos, ainda que isso parecesse ser improvável, apelidando-se até de “casados” na interpretação tribal do termo. A dupla arranja trabalho num baleeiro de decoração canibal chamado Pequod, nome de uma tribo de índios então extinta, e para ser verdadeiro com a minha impressão, até o próprio Queequeg se torna mais importante para a história que Ismael.

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Fonte: https://pixels.com/featured/chasing-moby-dick-bruno-angius.html

O narrador adquire um papel de estátua a partir do momento em que entram na embarcação, uma vez que apenas serve para comunicar ao leitor o que ali acontece e, a partir de um determinado momento, com muito menor frequência até não mais aparecer, que eu tenha dado conta. Ismael volta a dar cor de si no epílogo do livro, de forma importante mas nem por isso muito explícita, ainda que seja também verdade que dele não senti qualquer falta.

As personagens centrais do livro, pelo menos as humanas, estão no Pequod. Ahab é o grande capitão, um homem que não é muitas vezes visto no convés, mas cuja lenda o precede. Todos sabem que ele vive obcecado por perseguir uma baleia branca, desde que esta lhe arrancou uma perna. O homem vive com uma perna de marfim, tendo abandonado toda a família e qualquer ofício, com a perseguição a Moby-Dick, a baleia que o mutilou, em vista.

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Fonte: https://gifer.com/en/6Pam

Ahab apenas conseguirá sossegar quando matar a baleia, e fomenta o mesmo desejo em toda a tripulação do Pequod. O único que parece ter uma motivação contrária é o seu primeiro imediato, Starbuck. Starbuck é um homem religioso e ponderado, que deseja regressar à família e não tem interesse nenhum em ser morto por uma baleia assassina. É o único que enfrenta o ideal de Ahab, chegando a considerar o homicídio e a traição, embora venha a encontrar algo na sua diferença a unir os dois homens.

Outras personagens têm grande importância na narrativa, como o impulsivo, popular e execrável segundo imediato, Stubb, o terceiro imediato Flask, o índio Tashtego, o carpinteiro Perth, o profeta muçulmano Fedallah e a própria baleia Moby Dick, que apesar de apenas surgir nos últimos capítulos, não deixa de ser a grande protagonista do livro cujo nome dá título, tanta é a importância que os homens lhe dão e a força que ela revela em cada uma das suas aparições. Lamento a falta de uma personagem feminina para dar alguma luz àquela visão mesquinha dos marinheiros.

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Fonte: https://giphy.com/gifs/sea-x5FwzGs8zfecE

Moby-Dick é um livro que faz os homens questionarem a sua mortalidade, a sua natureza, o seu propósito no mundo. É um estudo intrincado sobre a natureza humana, a religião e a sua humanidade. Um livro que obriga à perseverança, tantos sãos os capítulos (todos eles pequenos em tamanho) aparentemente desinteressantes, tão exausto que é o estudo à vida no mar. Mas compensa.

As últimas cenas de Ahab, a troca de olhares entre ele e Starbuck, a flexão e a inflexão nas suas atitudes, a metáfora da perda do chapéu e as profecias de Fedallah, o caixão salva-vidas de Queequeg e a própria crueldade desmedida das ações em alto-mar, compensaram-me e muito o avançar mais lento da narrativa e os eventuais escapismos mais líricos do autor. Moby-Dick é um grande livro e a edição da Guerra e Paz tem uma capa e diagramação lindíssimas, para além de um ensaio muito interessante de D. H. Lawrence sobre a obra.

Avaliação: 7/10

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