Estive a Ler: Seca


Vou à cozinha para experimentar pessoalmente a torneira – como se tivesse um toque mágico. Nada. Nem sequer uma gota. A nossa torneira morreu e não há reanimação que a traga de volta à vida.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO SECA.

Uma das maiores novidades do primeiro semestre da Saída de Emergência, Seca é um livro determinante que alerta para o perigo das alterações climáticas. Escrito a quatro mãos por Neal Shusterman, famoso autor de fantasia juvenil, com o seu filho Jarrod Shusterman, Seca tornou-se um sucesso de vendas e de popularidade dada a sua pertinência no contexto em que vivemos nos dias de hoje.

Neal Shusterman cresceu em Brooklyn e vive na Califórnia. É um autor premiado de livros para crianças, jovens e adultos e escreve para cinema e televisão.  Também Jarrod escreve para cinema e televisão, mas é também realizador de anúncios publicitários e vive atualmente em Los Angeles. Ambos estão a trabalhar na adaptação do livro Seca para o cinema. A edição portuguesa tem tradução de Pedro Carvalho e Guerra e um total de 320 páginas.

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Fonte: https://giphy.com/gifs/theleftovershbo-hbo-the-leftovers-l4FGxiYdKEe22Leso

Seca interessou-me sobretudo pela premissa e também, devo à honestidade, pela forma entusiasmada com que o livro me foi “vendido” por editores e leitores. Neal e Jarrod Shusterman sabem aproveitar bem uma questão problemática dos dias de hoje: “até quando teremos água para sobreviver?” e explorá-la de forma convincente em todas as trezentas páginas deste volume único. Se foi o suficiente para me agradar? Não.

“Seca é um livro de leitura fácil, com uma escrita completamente banal mas que não compromete e consegue em determinados momentos ser visual que baste.”

É um livro atual, levanta questões bastante importantes, como o problema das alterações climáticas, a sede levada ao extremo e até onde vai a nossa humanidade e o que resta dela quando somos obrigados a fazer coisas horríveis para sobreviver. Tanto na forma como todas essas temáticas foram exploradas como no aproveitamento de material “polémico”, os autores estão de parabéns.

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Fonte: http://www.saidadeemergencia.com/produto/seca/

As personagens também são bem construídas e revelam várias nuances, sabendo desconstruir-se até certo ponto. Todo o cenário está bem construído e não tenho dúvidas que um apocalipse na Califórnia teria aqueles contornos. Mas se ainda não parei de elogiar o livro, como raios posso dizer que não gostei dele?

É simples. Estava à espera de uma distopia adulta, forte e impactante, e aquilo com que me deparei foi com um livro juvenil. Um livro protagonizado por cinco adolescentes, todos eles com capítulos de pontos de vista, e um cenário que, volto a repetir, foi bem aproveitado pelos autores, mas que apenas conhece as suas experiências.

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Fonte: https://elpuntosobrelahistoria.com/2015/06/12/las-10-escenas-de-accion-mas-dificiles-de-grabar/

AQUI HÁ SPOILERS (FICA O AVISO)!

E como em todo o livro juvenil que (roll eyes) se preze, todos os diálogos são irritantes e tudo chega ao fim são e salvo, sem qualquer acontecimento imprevisível pelo meio. Nem sequer uma morte importante. Se o livro tinha tudo para ser extraordinário, ficou-se pelo comestível, com um cenário bem visual e credível. O que não se pode dizer da plot line em si.

Nada no livro me traz mais do que um documentário sobre desastres naturais ou possibilidades de apocalipse me traria, mas vem acompanhado pela visão parvinha de cinco miúdos que não são tão maus como parecem – ou querem fazer parecer. Não é um livro mau, de todo, mas dizer que é um livro credível fica muito aquém da realidade. Se fosse credível, no máximo um deles teria sobrevivido àquilo.

Ressalvo, na minha opinião.

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Fonte: Saída de Emergência

A narrativa passa-se na Califórnia, numa época em que parte dos EUA está a ser vítima de uma seca severa. Muitos são os avisos para a poupança da água. É proibido lavar os carros, encher as piscinas ou regar os jardins, por exemplo. Até ao dia em que, finalmente, as torneiras são abertas e nada dali sai. Os noticiários deviam estar cheios com os alertas para a calamidade, mas todo o espaço que reservam às notícias são os rodapés. Como se fechar os olhos à tragédia iminente fosse o melhor a fazer.

Mas agora, a seca crítica assola a Califórnia e é tarde demais para fazer seja o que for. O chamado Fechar da Torneira chegou. Alyssa Morrow é uma adolescente que vive com o seu irmão mais novo, Garret, e os pais, para além de terem a companhia agradável do seu tio Herb, que chamam carinhosamente de Tio Manjericão. Pouco depois do “Fechar da Torneira”, o tio parte para a casa da sua namorada Daphne, sentindo que a família está a desperdiçar consigo a pouca água que ainda tem.

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Fonte: Saída de Emergência

A pouco e pouco, a parca água que as famílias reservam esgota-se e o que era um bairro aparentemente tranquilo transforma-se num campo de guerra, com as famílias a saquearem-se umas às outras, procurando praias e campos de abastecimento. Alyssa e Garret perdem de vista os pais, mas são ajudados pelo seu vizinho Kelvin e por uma rapariga morena de ascendência grega, Jacqui, que não parece muito confiável.

E quantos mais destes zombies da água vamos encontrar entre o local onde nos encontramos e a nossa casa? E sem qualquer maneira de nos defendermos. De repente, o mundo seguro e são que eu julgava conhecer está repleto de incógnitas aterrorizantes.

Kelvin é um típico nerd e engenhocas lá do sítio, que sofre de um amor platónico por Alyssa desde muito novo. Leva-os para sua casa, mas o que parecia um local seguro transforma-se num palco de guerra, em que os seus próprios pais se vêm perante uma tragédia que os marcará para sempre.

Sem outra alternativa, Kelvin decide levar os amigos para o refúgio da família, mas precisa de um meio para lá chegar. É então que o tio de Alyssa se mostra uma solução, nomeadamente a sua pickup todo o terreno. E é quando procuram o veículo do tio, que a empenhou a troco de água, que se vêm a braços com um rapaz rico, irritante e muito, muito esperto, que nada faz sem ganhar algo em troca. Com a adição de Henry ao grupo, a luta pela sobrevivência certamente fica muito mais difícil.

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Fonte: https://giphy.com/starwars/movies-tv/clone-wars/season-1/episode-19-storm-over-ryloth

Seca é um livro de leitura fácil, com uma escrita completamente banal mas que não compromete e consegue em determinados momentos ser visual que baste. Toda a tónica é apocalíptica e o ritmo é elevado de uma ponta à outra do livro, começando com alguns interlúdios que dão uma panorâmica mais geral acerca do contexto, mas que na verdade tornaram a leitura algo confusa, principalmente pela sua maior frequência na parte inicial do mesmo.

Ainda assim, posso dizer que esses poucos interlúdios foram os trechos mais bem escritos e consistentes do livro, ao mostrar a panorâmica geral do contexto muito bem explorado pelos autores. Tudo o resto, apesar do suspense e do ritmo, não passou muito do previsível e foi maculado pelos diálogos extremamente juvenis, pela ênfase dada às características da juventude e pelo mar de rosas com que tudo terminou.

Avaliação: 4/10

5 comentários em “Estive a Ler: Seca

  1. Oie,

    Gostei, pode não ser uma grande leitura mas até se lê bem, gostei dos personagens 🙂

    Abraço

    Fiacha

    1. Ainda bem que gostaste. 😛
      Grande abraço e boas leituras.

Comentário

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